domingo, 30 de novembro de 2008

As Estações da Cruz no sábado, 25 de outubro de 2008

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Fonte: DICI.ORG

Peregrinação em Lourdes FSSPX: Missa na Basílica de São Pio X (Domingo)

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Fonte: DICI.ORG

Peregrinação em Lourdes FSSPX: Missa na Basílica de São Pio X (Sábado)

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Fonte: DICI.ORG

Sermão Monsenhor Bernard Fellay em Lourdes - Domingo de Christo Rey (Espanhol)

Caríssimos, o site de notícias da FSSPX (DICI.ORG) disponibilizou este Sermão de Dom Bernard Fellay em Espanhol e em alguns videos (Que estaremos publicando neste blog). Vale a pena ouvir o sermão, ele é repleto de fé. O que é bem diferente do que estamos acostumados a ouvir. Fiquem com DEUS.


Gederson


 Dom Bernad Fellay - Sermão Monsenhor Bernard Fellay em Lourdes


Fonte: DICI.ORG

sábado, 29 de novembro de 2008

VERDADEIRA E FALSA RESTAURAÇÃO

Nota: A presente publicação tem por finalidade divulgar o livro "A nova teologia. Os que pensam que venceram". Como também divulgar a biblioteca digital do grupo permanência que disponibiliza este e outros excelentes livros.

 

O Magistério Desprezado

OS QUE PENSAM QUE VENCERAM são os neomodernistas fiéis à linha (se assim se pode dizer) dos padres fundadores da “nova teologia”, e especialmente a linha (tortuosa e confusa) traçada pelo jesuíta Henri de Lubac e pelo exjesuíta Hans Urs von Balthasar1. “Os representantes da nova teologia são exaltados como se fossem a pedra angular da Igreja”, escreveu com razão o pensador Julio Meinvielle.2

Antes de apresentar estes “santos padres” do mundo católico pós-conciliar, é oportuno mostrar, resumidamente, a essência da “nova teologia”.

O Princípio Simples de uma Heresia Completa

O sacerdote e teólogo alemão Johannes Dörmann, em seu melhor livro, A Estranha Teologia de João Paulo II e o Espírito de Assis3, escreve:

“A ‘nova teologia’ se apresenta com várias faces, mas é simples em seu princípio e por ele podem agrupar-se suas múltiplas formas sob o mesmo nome. Suas múltiplas formas têm em comum o fato de rechaçar a teologia tradicional.”4

O autor explica de forma concisa e eficaz o que significa, para o último Concílio, “rechaçar a teologia tradicional” — o Concílio considerou um dever, por motivos pastorais, renunciar à linguagem escolástica:

“É claro que os principais teólogos viram que toda a questão da teologia e da fé estava na questão da linguagem. Pois a linguagem escolástica estava indissoluvelmente ligada à filosofia escolástica, e esta, à teologia escolástica, e finalmente esta à Tradição dogmática da Igreja.”5

Por conseguinte a renúncia à linguagem escolástica conduziria, em última analise, ao adeus à Tradição divino apostólica guardada fielmente pela Igreja.

“O abandono da linguagem da escolástica pelos Padres”, escreve Dörmann, “era para eles [os teólogos dirigentes do Concílio] a condição sine qua non da ruptura com a antiguidade dogmática, para que pudessem colocar em seu lugar a ‘nova teologia’, depois de deixar de usar a ‘antiga’ e se despedir dela.”6

A Utopia

Mas como se chegou ao abandono da teologia tradicional, ou seja, da teologia católica, ligada indissoluvelmente à Tradição dogmática da Igreja?

Com “esta simples e sedutora idéia: uma ‘nova teologia’ adaptada ao caráter científico moderno e à imagem moderna do mundo e da história”7. Em outras palavras, com a velha e sempre renascente utopia da Igreja reconciliada com o “mundo moderno”, aberta ao pensamento filosófico moderno, com o qual Pio IX8 declarou que a Igreja não pode nem deve reconciliarse, em vista de seu caráter essencialmente anticristão:

“Os homens (modernos) em geral desconhecem a verdade e os bens sobrenaturais e pensam poder satisfazer-se somente com a razão humana e com a ordem natural das coisas e assim poder alcançar sua própria perfeição e felicidade.”9

Continua Dörman: “Para os membros da ‘nova teologia’ o aggiornamento significava o resultado da abertura da Igreja ao pensamento moderno [indiferente à verdade e aos bens sobrenaturais], para chegar a uma teologia totalmente diferente, da qual deveria resultar o nascimento de uma nova Igreja [secularizada], adaptada à sua época.”10 É exatamente a utopia do modernismo.

Escrevia o Pe. Garrigou-Lagrange O.P.: “Para onde vai a nova teologia? Volta ao modernismo.”

De fato, escavando mais fundo sob o princípio da nova teologia, encontramos a mesma perversão da noção de verdade, que está na base do modernismo: “A verdade não é mais imutável do que o homem mesmo, pois evolui com ele, nele e por ele.”11 Razão por que o Pe. Garrigou-Lagrange O.P., que não profetizava, mas simplesmente tirava conclusões lógicas, escrevia em 1946:

“Para onde vai esta nova teologia com os novos mestres que a inspiram? Por onde senão pela via do cepticismo, da fantasia e da heresia?”12

Uma Utopia Culpável

As tentativas de conciliar a Igreja com o “mundo moderno” (ou seja, com a filosofia moderna subjetivista e imanentista e a “cultura” imbuída de subjetivismo e de imanentismo que dela emana) não são uma utopia inocente. O Magistério dos Romanos Pontífices fechou repetidamente o caminho a tal tentativa, especialmente o de Gregório XVI (Mirari vos, 1832), o de Pio IX (Syllabus, 1864), o de São Pio X (Pascendi, 1907) e, às portas do último Concílio, o de Pio XII (Humani Generis, 1950). Com esta última Encíclica, desprezada e depois desaprovada e enterrada por aqueles que ela condenava, Pio XII chamava a atenção para o clima que precedia o Concílio, mostrando “com ansiedade” e clareza os perigos da “nova teologia”, que, procurando seus fundamentos fora da filosofia perene, põe em perigo todo o edifício do dogma católico. Pio XII, sobretudo, não deixa de assinalar o desprezo do Magistério que mostra tal atitude:

“[...] a razão só poderá funcionar de modo correto e seguro se houver sido devidamente formada; quer dizer, quando estiver imbuída daquela sã filosofia que recebemos como patrimônio legado pelas gerações cristãs do passado, há tanto tempo constituída, tendo alcançado este grau superior de autoridade justamente porque o próprio magistério da Igreja submeteu suas principais afirmações, descobertas e definidas pouco a pouco por grandes pensadores, às normas da revelação divina. Esta filosofia, reconhecida e aceita pela Igreja, defende o autêntico e exato valor do conhecimento humano, os princípios metafísicos inquestionáveis — a saber, os de razão suficiente, de causalidade e finalidade — e,finalmente, a capacidade de alcançar a verdade certa e imutável.

Nesta filosofia, certamente são expostas muitas coisas que nem direta nem indiretamente tocam as matérias de fé e de costumes e que, portanto, a Igreja deixa à livre discussão dos entendidos; mas em muitas outras coisas não há a mesma liberdade, especialmente quanto aos princípios e acertos principais de que acima falamos [valor do conhecimento humano, princípios básicos da metafísica etc.] [...].

Nem a verdade nem sua exposição filosófica podem estar sendo trocadas cada dia, principalmente quando se trata dos princípios por si evidentes para a mente humana, ou das doutrinas que se apóiam na sabedoria dos séculos, em conformidade e com o apoio da divina Revelação [...].

Por isto, é lamentável que uma filosofia aceita e reconhecida pela Igreja seja hoje desprezada por alguns e imprudentemente chamada de antiquada em sua forma e racionalista, como dizem eles, em seus procedimentos [...].

Entretanto, enquanto desprezam esta filosofia, exaltam outras, antigas ou modernas, do Oriente ou do Ocidente, com o que parecem insinuar que qualquer filosofia ou pensamento pode, com algumas correções, se necessário, conciliar-se com o dogma católico. Mas isto é absolutamente falso, principalmente em se tratando de sistemas como o imanentismo, o idealismo ou o materialismo, histórico ou dialético, ou ainda o existencialismo, quando ateu ou, pelo menos, quando se opõe ao valor do raciocínio metafísico.

Não teríamos de lamentar esses desvios da verdade se todos escutassem o magistério da Igreja com o respeito que lhe é devido, mesmo em matéria filosófica. A ele incumbe, por instituição divina, não somente cuidar e interpretar o depósito da verdade divinamente revelada mas também vigiar acerca dos assuntos filosóficos, para que os dogmas católicos não sofram nenhum dano ocasionado pelas falsas doutrinas.”

Vemos aqui confirmado o que repetimos e provamos há vários anos: apesar de serem membros da hierarquia católica, os neomodernistas desobedecem ao Magistério constante e, portanto, infalível da Igreja, e a “obediência” que impuseram ao novo curso eclesial inclui a obrigação de desobedecer à Igreja.

Verdadeira e Falsa “Restauração”

Do que foi dito acima segue que a verdadeira restauração deverá ocorrer no caminho inverso ao que trouxe a ruptura com a Tradição doutrinal da Igreja:

retorno à filosofia perene, e portanto à teologia escolástica e à tradição dogmática da Igreja, em obediência às diretivas constantes do Magistério pontifício. Os neomodernistas fiéis à “linha” de De Lubac e von Balthasar hoje se apresentam como “moderados” e até “restauradores”, mas absolutamente não pretendem repudiar a “nova teologia”, da qual, queiram ou não, é filha a crise que a Igreja vive em nossos dias. Em dezembro de 1991 dizia, seguro de si mesmo, o Pe. Henrici S.J. a 30 Jours:

“Nossa linha é a do extremo centro. Nem atenção excessiva [sic] ao Magistério nem contestação. Nem direita nem esquerda. Apego à tradição [que, na linguagem de De Lubac e dos ‘novos’ teólogos, não é — como veremos — a Tradição dogmática da Igreja], na linha da nova teologia de Lyon [sede de De Lubac e de ‘outros padres fundadores’], que ensina a não oposição [leia-se identificação] entre natural e sobrenatural, entre fé e cultura, e que se tornou a teologia oficial do Vaticano II.”

“Nova teologia” que, em Humani Generis, Pio XII havia condenado como uma reunião de “falsas opiniões que ameaçam destruir os fundamentos da doutrina católica”!

É pois necessário saber o que há por trás dessa “moderação” dos neomodernistas do “extremo centro, sim, mas sempre neomodernistas.

A Igreja exige que os futuros sacerdotes sejam formados nas matérias filosóficas, ‘segundo o método, a doutrina e os princípios do Doutor Angélico’ (CIC, Cânon 1366, 2), pois ela sabe muito bem, pela experiência de muitos séculos, que o método e o sistema do Aquinate é muito importante tanto para a instrução dos principiantes como para a investigação das verdades mais escondidas; que sua doutrina ressoa em uníssono com a Revelação divina e é muito eficaz para assegurar os fundamentos da fé e obter com proveito e segurança os frutos de um são progresso (AAS 38, 1946, 387).”13

1 Ver o número anterior de Sim Sim Não Não.

2 A Influência do Agnosticismo Judeu no Meio Cristão.

3 Atualmente só existe uma tradução francesa, das Edições Fideliter,

Estrada do Waldeck, 57230, Eguelshardt, França.

4 P. 55.

5 P. 52.

6 P. 53.

7 P. 55.

8 Cf. Syllabus, proposição nº 80.

9 Vaticano I, esquema preparatório de doutrina católica.

10 P. 54.

11 São Pio X, decreto Lamentabili, proposição condenada nº 58.

12 “La Nouvelle Théologie, où va-t-elle?”, Angelicum 23, 1946, pp. 136- 154.

13 Pio XII, Humani Generis.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Antonio Gramsci morreu católico

Renato Salles

Antonio Gramsci, fundador do Partido Comunista Italiano, autor de obras como: "Os intelectuais e a organização da cultura", Concepção Dialética da História", "Cardernos do Cárcere" e principal teórico e guru do movimento comunista internacional, após a decadência do marxismo leninismo, morreu católico.


"Gramsci morreu com os sacramentos. E pediu às freiras para beijar uma imagem do menino Jesus." É uma revelação que causa muita discussão a do arcebispo Luigi De Magistris (...) "Esse fato (...) no mundo da 'foice e do martelo' preferem manter oculto, mas foi assim que ocorreu". Até o presente momento só havia se falado sobre a reaproximação de Gramsci ao catolicismo por meio de vozes esparsas, nunca confirmadas. De Magistris (...) forneceu mais de um detalhe sobre o episódio. "O meu conterrâneo, Gramsci (...) tinha no seu quarto a imagem de Santa Tereza do menino Jesus. Durante a sua última convalescência, as freiras da clínica onde estava internado levaram até ele a imagem do menino Jesus e Gramsci a beijou". "Gramsci - acrescentou De Magistris - morreu com os Sacramentos, voltando à fé da sua infância. A misericórdia de Deus nos persegue de forma santa. O Senhor não se conforma em nos perder" (...)

Fontes:
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM916814-7823-GRAMSCI+DE+COMUNISTA+A+CATOLICO+NA+HORA+DA+MORTE,00.html
http://construindoopensamento.blogspot.com/2008/11/gramsci-e-converso-ao-catolicismo-ou.html

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Carta a um Sceptico

Transcrevemos aqui uma das Cartas de Dom Jaime Balmes tiradas do seguinte livro: Cartas a Um Sceptico em Materia de Religião por D. Jayme Balmes. Traducção do Hespanhol por A. A. Leal. Livraria Internacional, Porto, Braga e Rio de Janeiro, 1876. Mantemos a grafia da época. Caso nos fosse perguntado poderiamos acrescenter o seguinte argumento: estando no limbo as crianças estão num bom lugar, se tivessem vivido mais e sido batizadas quem garante que não iriam, já adultas, viver uma vida ruim e terminariam no inferno? Confiemos na Providência que tudo dispõe da melhor forma. Ao texto:

 

Carta Decima Quinta

Meu caro amigo

A objecção que o senhor me propõe na sua ultima, apesar de não ser tão forte como o senhor imagina, confesso que, considerada superficialmente, é bastante especiosa. Tem além d’isso uma circumstancia particular, e é que se funda, ao que parece, em um principio de justiça. Isto a torna muito mais perigosa, porque o homem tem tão profundamente gravados em sua alma os principios e sentimentos de justiça, que quando póde apoiar-se n’elles crê-se authorisado para atacar tudo.

Desde já convenho com o senhor em que a justiça e a religião não podem ser inimigas, e que uma crença, fosse qual fosse, que se achasse em opposição com os eternos principios de justiça, deveria ser repellida por falsa. Admittida uma das bases sobre que o senhor levantava a difficuldade, não posso admittir a força da propria difficuldade pela simples razão de que se funda além d’isso em supposições completamente gratuitas. Não sei em que cathecismo o senhor leu que o dogma catholico ensina que as creanças mortas sem baptismo são atormentadas para sempre com o fogo do inferno; pela minha parte confesso francamente que não tinha noticia da existencia de tal dogma e que pela mesma razão não me havia podido causar o horror que o senhor experimenta. Isto me faz suppôr que o senhor se encontra com tantos outros na maior confussão d’ideas sobre esta importante e delicada materia, indicando-me a necessidade de aclarar-lh’as alguma cousa, da maneira que m’o consinta a ligeireza de discutir a que me condemna a incessante immobilidade do meu adversário.

É absolutamente falso que a Igreja ensine como dogma de fé que as creanças mortas sem baptismo sejam castigadas com o supplicio do fogo, nem com alguma outra pena chamada de sentido. Basta abrir as obras dos theologos para vêr reconhecido por todos elles que a pena de sentido applicada ás creanças não é dogma de fé; e antes pelo contrario sustentam aquelles em sua immensa maioria a opinião opposta. Ser-me-ia facil adduzir innumeraveis textos para provar esta asseveração; porém julgo-o inutil porque o senhor póde assegurar-se da verdade d’este facto empregando um momento em percorrer os indices das principaes obras theologicas e vêr as opiniões que alli se consignam.

Não ignoro que teem havido authores respeitaveis que opinam em favor da pena de sentido; porém repito que estes são em numero muito escasso, e é contra elles a immensa maioria; e sobretudo insisto em que a opinião d’aquelles authores não é um dogma da Igreja, e por conseguinte regeito as inculpações que com este motivo se dirigem contra a fé catholica. Por sabio, por santo que seja um doutor da Igreja, a sua opinião não é authoridade bastante para fundar um dogma; da doutrina d’um author ao ensino da Igreja vão a mesma distancia que da doutrina d’um homem ao ensino de Deus.

Para os catholicos a authoridade da Igreja é infallivel porque tem assegurada a assistencia do Espirito Santo; a esta authoridade recorremos em todas as nossas duvidas e difficuldades, e n’isto é que se cifra a principal differença entre nós e os protestantes. Elles appellam para o espirito privado, que por fim vem a dar nas cavillações da fraca razão, ou nas suggestões do orgulho; nós appellamos para o Espirito Divino, manifestado pela intervenção estabelecida pelo proprio Deus, que á a authoridade da Igreja.

Perguntar-me-á o senhor qual é o destino d’essas creanças privadas da gloria e não castigadas com pena de sentido; e achará talvez que a difficuldade renasce, posto que sob forma menos terrivel, pelo mero facto de não lhes outhorgar a eterna bemaventurança. Á primeira vista parece uma cousa muito dura que as creanças, incapazes como são de peccado actual, tenham de ser excluidas da gloria por não terem sido mergulhadas nas aguas regeneradoras de baptismo; mas aprofundando a questão, descobre-se que não ha n’isto injustiça nem dureza, mas sim e unicamente o resultado d’uma ordem de cousas que Deus pôde estabelecer e de que ninguem tem direito de queixar-se.

A felicidade eterna que, segundo o dogma catholico, consiste na visão intuitiva de Deus não é natural ao homem nem a nenhuma creatura. É um estado sobrenatural a que não podemos chegar senão com auxilios sobrenaturaes. Deus, sem ser injusto nem duro, podia não haver elevado nenhum creatura á visão beatifica, estabelecendo premios d’uma ordem puramente natural, já n’esta vida, já na outra. D’onde resulta que o estar em certo numero de creaturas privadas da visão beatifica não argue injustiça nem dureza nos decretos de Deus, pois que se teria podido verificar a mesma cousa com todos os seres creados; e até se deveria ter verificado se a infinita bondade do Creador não os tivesse querido levantar a um estado superior á natureza dos mesmos.

Já estou adivinhando que se me opporá a réplica de que a situação das cousas é agora muito differente, e que se é verdade que a privação da visão beatifica não haveria sido uma pena para as creaturas que não tivessem tido noticia d’ella, o é agora e muito dolorosa para os que se veem excluidos da mesma. Concordo que esta privação é uma pena do peccado original; mas não em que seja tão dolorosa como se quer suppôr. Para affirmar este ultimo caso seria preciso determinar até que ponto conhecem a privação os mesmos que a padecem e saber a disposição em que se encontram para lamentar a perda d’um bem, que com o baptismo teriam podido conseguir.

S. Thomaz observa com muita opportunidade que ha grande differença entre o effeito que deve produzir nas creanças a falta da visão beatifica e o que causa aos condemnados. N’estes houve livre arbitrio, com o qual, ajudados da graça, puderam merecer a gloria eterna; aquellas acharam-se fóra d’esta vida antes do uso da razão; a estes foi possivel alcançar aquillo de que se encontram privados: não assim as primeiras, que sem o concurso de sua liberdade, se viram trasladadas a outro mundo no qual não ha os meios para merecer a eterna bemaventurança. As creanças mortas sem baptismo acham-se em um caso similhante aos que nascem em uma condição inferior, em que não lhes é possivel gozar de certas vantagens sociaes de que desfructam outros mais afortunados. Esta differença não os afflige, e resignam-se sem difficuldade ao estado que lhes ha cabido em sorte.

No tocante ao conhecimento que as creanças não baptisadas teem de sua situação é provavel que nem sequer conheçam que haja tal visão beatifica; assim não podem affligir-se por não a possuir. É esta a opinião de S. Thomaz que affirma que estas creanças teem noticia da felicidade em geral, mas não em especial, e por tanto não lhes peza havel-a perdido: “Cognocunt quidem beatitudinem in generali, secundum communem rationem, non autem in speciali, ideo de ejus amissione non dolent.”

O estar separadas para sempre de Deus parece que ha de ser uma afflição muito grande para estas creanças, porque não podendo suppôr-se privadas de todo conhecimento do seu Author, hão de ter um vivo desejo de vêl-O e hão de sentir uma pena profunda ao achar-se faltas do dito bem para toda eternidade. Este argumento suppõe o mesmo facto que se negou mais acima, a saber, que as creanças teem conhecimento da ordem sobrenatural. S. Thomaz nega-o redondamente e diz que estão separadas de Deus perpetuamente pela perda da gloria que ignoram, porém não em quanto á participação dos bens naturaes que conhecem: “pueri in originali peccato decedentes suna quidem separati a Deo perpetuo, quantum ad ammissionem gloriae quam ignorant: non tamem quantum ad participationem naturalium bonorum, quae cognoscunt.

Alguns theologos, entre os quase se conta Ambrozio Catharino, teem chegado a affirmar que estas creanças sentem uma especie de bemaventurança natural, a qual não explicam em que consiste pela simples razão de n’estas materias só se poder discorrer por conjecturas. Sem embargo, não deixarei d’observar que esta doutrina não foi condemnada pela Igreja, sendo para notar que o mesmo S. Thomaz, tão medido em todas as suas palavras, não deixa de dizer que estas creanças se unem a Deus pela participação dos bens naturaes, e assim poderão alegrar-se tambem dos mesmos com conhecimento e amor natural: “sibi (Deo) conjungentur per participationem naturalium bonorum; et ita etiam de ipso gandere poterunt naturali cognitione et dilectione.” (2. D. 33. Q. 2. art. 2 ad. 5.)

Já vê o senhor que a cousa não é tão horrivel como imaginava, e que a Igreja não se compraz em pintar-nos entregues a espantosos tormentos as creanças que tiverem a desgraça de não receber o baptismo. A pena que estas creanças padecem compara-a mui opportunamente S. Thomaz à que soffrem os que, estando ausentes, são despojados de seus bens, mas ignorando-o elles. Com esta explicação se concilia a realidade da pena com a nenhuma afflicção do que a padece; e eis-nos aqui conduzidos a um ponto em que permanece salvo o dogma do peccado original e o da pena que segue, sem nos vermos precisados a imaginar um numero immenso de creanças atormentadas por toda a eternidade, quando pela sua parte não teem podido exercer nenhum acto pelo qual o merecessem.

Até aqui tenho-me cingido á defeza do dogma catholico e á exposição das doutrinas dos theologos, e creio ter manifestado que, limitando-se o primeiro á simples privação da visão beatifica, por effeito do peccado original não apagado pelo baptismo, está muito longe d’achar-se em contradicção com os principios de justiça, nem traz comsigo a pretendida dureza que o sehor lhe imputa. Como é natural, os theologos teem-se aproveitado d’esta latitude para emittir varias opiniões mais ou menos fundadas, sobre as quaes é difficil formar um juizo acertado, faltando-nos noticias que só a revelação poderia proporcionar-nos. Como quer que seja, parece muito rasoavel a doutrina de S. Thomaz de que as creanças poderão ter um conhecimento e amor de Deus na ordem puramente natural, sendo-lhes dado gozar d’estes bens que lhes outorgou o Creador. Sendo creaturas intelligentes e livres, não podemos suppol-as privadas do exercicio de suas faculdades, pois do contrario seria preciso considerar seus espiritos como substancias inertes; não pela sua natureza, senão por estarem ligados suas potencias da ordem intellectual e moral. E como por outra parte não se admitte que soffram pena de sentido e se affirma que não se queixem da de damno, é preciso conceder-lhes as affeições que me todo o ser resultam naturalmente do exercicio de suas faculdades. Fico sendo seu affectuosissimo, etc.

J.B.

Igualdade?

«Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João
e levou-os só a eles a um monte elevado»

(Mc 9,2): S. Tiago, testemunha da luz

Nem todos os que contemplam Cristo são igualmente iluminados por ele, mas cada um na medida que pode receber a luz. Os olhos do nosso corpo não são igualmente iluminados pelo sol; quanto mais subimos a lugares elevados, quanto mais alto contemplamos o nascer do sol, melhor nos apercebemos da luz e do calor. Igualmente o nosso espírito, quanto mais subir e se elevar para perto de Cristo, mais próximo se lhe oferecerá a luz da sua claridade, mais magnificamente e mais brilhantemente será alumiado pela sua luz. O Senhor disse de si próprio pelo profeta: «Aproximai-vos de mim, e eu me aproximarei de vós» (Zac 1,3) ...

Portanto não vamos todos a ele do mesmo modo, mas cada qual «segundo as suas próprias capacidades» (Mt 25,15). Se é com as multidões que vamos a ele, ele alimenta-nos em parábolas para que não enfraqueçamos de privação no caminho. (Mc 8,3). Se permanecemos a seus pés sem cessar, preocupando-nos apenas em ouvir a sua palavra, sem nunca nos deixarmos perturbar pelos múltiplos cuidados das obrigações (Lc 10,38s) ...; sem dúvida alguma que aqueles que se aproximam assim dele recebem muito mais a sua luz.

Mas se, como os apóstolos, sem nunca nos afastarmos, «permanecemos constantemente com ele em todas as suas provações» (Lc 22,28), então ele explica-nos em segredo o que disse às multidões, e é ainda com mais claridade que nos ilumina (Mt 13,11s). Enfim, se ele acha alguém capaz de subir com ele à montanha, como Pedro, Tiago e João, esse não é iluminado somente pela luz de Cristo, mas pela voz do próprio Pai.

 

Fonte: Homília de Orígenes, Evangelho Cotidiano

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Primeiro capítulo do livro "A vida espiritual segundo Santo Tomás de Aquino" de Monsenhor Marcel Lefebvre.

DEUS

A exemplo de Santo Tomás e seguindo-o, nossas considerações serão estabelecidas sobre a fé, sobre a Revelação, e mesmo eventualmente sobre argumentos de razão. "Justus ex fide vivit”: o justo, o santo vive da fé. Porque a fé traz em si, como que em germe, a visão beatífica, e nós fomos criados para esse fim. A fé ilumina nossa inteligência, conferindo-lhe uma sabedoria incomparável.

O primeiro assunto apresentado para estudo na Suma Teológica é Deus. É também o primeiro assunto da oração de Nosso Senhor: “Pai nosso que estais no céu”. É a primeira afirmação do Credo: “Creio em Deus...”, é o primeiro mandamento: “Adorarás a um só Deus”.

Deus é o primeiro bem do homem e é o último, sua origem e seu fim, sua felicidade de todos os dias e da eternidade. Desde os seus primeiros momentos de consciência, a alma da criança deve-se voltar para Deus e desabrochar banhada pelo grande sol de Deus, qui illuminat omnem hominem venientem in hunc mundum”: “que ilumina todo homem que vem a este mundo” (Jo. 1, 9).

Bem-aventurados os anjos que guardaram inscrito em seus corações “ quis ut Deus.”, “quem é como Deus”, e que perseveraram na provação.

Bem-aventurada a Virgem Maria, imaculada em sua Conceição, que voltou para sempre sua alma a Deus, desde a mais tenra infância.

Bem-aventurada a alma de Nosso Senhor, iluminada pela visão beatífica desde o instante da Criação.

Por que esta lentidão, por que este atraso, por que esta cegueira no conhecimento do amor de Deus, mesmo em muitos batizados?...

Esta constatação suscita lamentações de Nosso Senhor nos Salmos, nos impropérios da Sexta-feira Santa, no primeiro capítulo de São João. Pode-se dizer que a sua agonia no Jardim das Oliveiras era a comprovação desse ateísmo... O amor não é amado: “Non requirunt Deum”... “Non receperunt”, “Não procuram a Deus”, “Não O receberam”.

Este drama nos deixará indiferentes? Esta realidade da ignorância sobre Deus nos excede. O que podemos fazer? Toda a sociedade moderna leva a esta ignorância. Mas não haveria muito dessa ignorância até em nós mesmos? Fazemos um esforço para meditar em Deus, para nos aproximar desse mistério insondável do “Alpha et Omega”, do “Principium et Finis”, do Mistério do amor manifestado no Verbo Encarnado?

Santo Tomás nos convida a conhecer melhor a Deus em sua unidade, em sua Trindade, em suas obras.

Essa contemplação da Trindade bem-aventurada, que fará nossa felicidade eterna, não poderá, na fé do Espírito Santo, dar-nos um esboço, um eflúvio dessa felicidade?

Eis, abaixo, alguns estudos que podem ajudar a completar ou explicar o ensinamento da Suma Teológica de Santo Tomás:

O Mistério da Santíssima Trindade, de Pe. Emmanuel;
Jesus Cristo Ideal do Monge, cap. I, de Dom Marmion;
Les Perfections Divines, do Pe. Garrigou-Lagrange;
Commentaires de la Somme Théologique, Pe. Pegues e Pe. Hugon;
Le Noms Divins,do Pe. Lessius.

Não se trata de fazer um estudo teológico, mas de aproximar-nos um pouco da grande realidade de Deus e, diante de seus atributos e suas perfeições infinitas, nos lançarmos em adoração, em humildade, em oblação ardente imitando a Jesus Cristo e à Virgem Maria.

Um pouco mais de conhecimento da infinidade de Deus, de sua infinita caridade e misericórdia deveria fazer-nos progredir na Caridade de Deus, afastar-nos do pecado e confirmar-nos na virtude; aliás, é este o caminho que seguiram as almas santas, sob a influência do Espírito de Jesus.

A EXISTÊNCIA DE DEUS

A fé, que é a ciência mais certa a que nos referimos, ensina-nos a existência de Deus: “Credo in unum Deum Patrem Omnipotentem, creatorem coeli et terrae, visibilium et invisibilium”.

Ela nos ensina que Deus é espírito: “Deus spiritu est”, Nosso Senhor o ensinou à Samaritana. É, pois, um Espírito todo-poderoso que tudo criou.

Houve um momento em que o mundo não existia, em que somente Deus existia eternamente, em sua santidade e em sua felicidade, perfeita e infinita, não tendo nenhuma necessidade de criar. No princípio de sua oração sacerdotal, Jesus faz alusão a esta época: “E agora, Pai, glorificar-me-ei com aquela glória que eu tinha junto de ti, antes que houvesse mundo” (Jo XVII, 5).

A fé ensina-nos que a razão pode chegar à conclusão da existência de Deus, e São Pedro em sua primeira Epístola (I Pe I, 18) repreende os homens com veemência por não haverem conhecido o verdadeiro Deus que se manifesta em suas obras.

Realmente, tudo o que é, tudo o que somos proclama a existência de Deus e canta suas perfeições divinas. Todo o Antigo Testamento e, particularmente, os Salmos e os Livros Sapienciais cantam a glória do Criador. É por isso que na oração litúrgica e sacerdotal os Salmos têm um lugar primordial.

É bom meditar sobre a criação “ex nihilo sui et subjecti”, feita do nada, pela simples decisão do Criador; “qui putas se esse aliquid, cum nihil sit, ipse seducit: se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, ilude-se a si mesmo (Gal VI, 5).

Quanto mais nos aprofundamos nessa realidade, mais ficamos espantados com a onipotência de Deus e com nosso nada, com a necessidade de toda e qualquer criatura ser constantemente sustentada nesta existência, sob pena de desaparecer, de voltar ao nada. É isso o que nos ensinam tanto a fé como a filosofia.

Essa meditação e essa constatação deveriam bastar para nos lançar humildemente a uma adoração profunda, numa atitude imóvel semelhante à imobilidade do próprio Deus. Deveríamos ter uma confiança sem limites naquele que é nosso Tudo e que decidiu criar-nos e salvar-nos.

Com que devoção e sinceridade deveríamos todas as manhãs, no começo das Matinas, recitar o Salmo XCIV: “Vinde, alegremo-nos... Vinde, adoremos... Seu é o mar, pois Ele o fez, e a terra firme que suas mãos formaram, vinde adoremos e prosternemo-nos diante de Deus, choremos diante do Senhor que nos criou, porque Ele é o Senhor nosso Deus, e nós somos seu povo e as ovelhas que Ele pastoreia”.

Como não agradecer à Igreja, que põe suas palavras em nossos lábios para exprimir os mais profundos sentimentos de nossas almas de criaturas!

Se a criação é um grande mistério, é que Deus é para nós o grande Mistério e o permanecerá eternamente na visão beatífica. “Jamais alguém viu a Deus, senão aquele que vem de Deus”: somente o Verbo e o Espírito Santo vêm Deus, sendo de Deus e um só Deus com o Pai (Jo VI, 46).

Abordar os atributos e perfeições de Deus, realidade espiritual que abrange tudo, que vivifica tudo, que sustenta tudo na existência, só poderá aumentar o Mistério divino, para nossa maior satisfação, edificação e santificação.

Santo Tomás diz: “Quanto mais conhecermos perfeitamente a Deus aqui em baixo, melhor compreenderemos que Ele ultrapassa tudo o que a inteligência compreende” (II-II, 8, 3).

Vindo a fé em socorro da razão para nos convencer da existência de Deus, e abrindo-nos horizontes maravilhosos sobre a intimidade de Deus pela Revelação e, sobretudo, pela Encarnação do Verbo divino, devemos interrogá-la para saber se podemos dar a Deus um nome que será próprio de Deus e nos ajudará a melhor conhecê-lo.

Ora, é precisamente o que Deus fez, tanto no Antigo Testamento como no novo. Disse Moisés: “Eu lhes direi, o Deus de vossos pais me enviou a vós. Se eles me perguntarem qual é o seu nome, que lhes responderei? E diz Deus a Moisés: Eu sou Aquele que sou. E ele continua: É assim que responderá aos filhos de Israel: Aquele que é me envia a vós” (Ex III, 13-14); e assim também Nosso Senhor aos judeus que lhes dizem: “Vós não tendes ainda cinqüenta anos e vistes Abraão? Jesus lhes respondeu: Em verdade, em verdade vos digo, antes que Abraão fosse, eu sou” (Jo VIII, 5-9).

Nunca serão suficientemente admiradas essas respostas luminosas que correspondem, aliás, às conclusões de nossa razão. “Deus é”, Ele é “ens a se”, o ser por Ele mesmo; todos os outros seres são “ab alio”, não têm sua razão de ser por eles mesmos.

Essas afirmações simples são uma fonte de meditação e de santificação interminável. Seja o olhar sobre Deus que termina no infinito, seja a constatação dos laços da criatura para com o Criador, ou a visão do nada da criatura, estamos diante do que há de mais verdadeiro, de mais profundo e de mais misterioso em Deus e em nós.

Monsenhor Marcel Lefebvre

Fonte: Associação Cultural Santo Tomás

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O Direito de Educar

Padre Leonel Franca S.J.


A família

Um problema de ordem jurídica prende e orienta, pela sua própria natureza, qualquer reforma profunda da educação. A quem compete, título primário e essencial, o direito de educar? Eis uma questão fundamental, destas que não se podem abandonar à arbitrariedade e às flutuações da política. Onde se acham em jogo os interesses espirituais das almas, a formação moral dos caracteres, a preparação civil dos futuros cidadãos, aí a família, o Estado, a Igreja têm incontestável direito a uma intervenção inelutável. E só na harmonização racional e sincera de todos esses direitos se encontrará a chave de uma solução justa, pacífica e duradoura.
Na ordem natural, o direito primário e inalienável de educar pertença à família. É a sua própria razão de ser; destinada, pela natureza invencível e irreformável das coisas, à conservação da espécie, compete-lhe como finalidade própria criar e formar os novos homens que asseguram a vida perene da humanidade, na imortalidade das gerações que se sucedem. Autores de uma vida incompleta, os pais têm o dever estrito de leva-la ao complemento de sua perfeição natural. Ao direito essencial da criança (à) uma educação completa, física, intelectual, moral e religiosa, - corresponde, em quem lhe deu a existência, o dever e portanto também o direito e lha ministrar. A geração sem a educação seria essencialmente uma obra falha, imperfeita, sem finalidade.
Um é complemente espontâneo da outra. A premeditada por Deus comunicada imediatamente à família, é, ao mesmo tempo, o princípio da vida e o título natural do direito de formar para a vida. Aos pais incumbe, portanto, a responsabilidade indeclinável de subministrar, aos que chamaram à existência, com a alimentação e cuidados indispensáveis ao desenvolvimento do organismo, o patrimônio intelectual e moral que lhes é necessário para bem viver.
Percorram-se os códigos civis de todas as nações cultas e neles se encontrará explicitamente consagrado o direito-dever inerente à família de educar a prole. Leia-se a nova Constituição Alemã e ai se verá o art. 120, que, em formula lapidar, doutrina: “a educação física, moral e social da prole é dever supremo e direito natural do pais, sobre cuja execução vela o Estado.” Revolvam-se as sentenças recentes do Supremo Tribunal Federal da grande República Norte-Americana e entre elas se achará, expressamente excluído, como contrário às teorias fundamentais da liberdade sobre que repousa a constituição dos Estados Unidos, “o poder geral do Estado de dar uma educação uniforme às crianças, constrangendo-as a aceitar a instrução só dos professores públicos. A criança não é uma simples criatura do Estado. Os que a alimentam e lhes dirigem os destinos têm o direito, acompanhado do alto dever, de prepará-los para o desempenho de outras obrigações.”
É preciso ir à Rússia soviética para encontrar a negação cínica e funesta de um direito unanimemente reconhecido pelo consenso das nações civilizadas.

A escola
No desempenho desta nobre missão, raras vezes são insuficientes os recursos de cada família isolada. Surge então a escola como seu prolongamento natural. Pela natureza de sua origem, é ela uma instituição complementar da família, destinada a ajudar, mitigar e suprir a sua ação educativa. É só em nome dos pais e com a autoridade por eles delegada que qualquer educador pode, na ordem natural, exercer as funções do seu magistério.
Aos pais, portanto, assiste, antes de tudo, o direito de optar livremente pela escola de sua confiança, a que melhor corresponde ao seu ideal educativo e às exigências da própria consciência moral ou religiosa. Onde fosse livre ao Estado ou a qualquer pessoa, física ou moral, impor às famílias uma determinada escola ai se consumaria a violação da mais intangível das liberdades. Forçar o limiar dos lares, arrancar dos braços de seus pais uma criança de 6 ou 8 anos para enclausura-la numa escola onde se nega o que a educação doméstica afirmou, e lhe destrói o que ela construiu, é a mais intolerável opressão das consciências.
E com a violação das liberdades espirituais, a ruína do trabalho educador. Só o respeito à ordem natural das coisas pode assegurar à obra pedagógica a sua indispensável unidade, e com a unidade, o segredo de sua eficácia admitir que a escola pode imprimir à sua pedagogia uma orientação filosófica, moral e religiosa oposta à das famílias, afirmar que aos seus professores seja lícito transformar-se de colaboradores em adversários da educação paterna, é opor em antítese funesta, duas instituições complementares que a razão exige colaborem na convergência pacífica da mais imperturbável harmonia. Escola e família, inspiradas me princípios espirituais opostos, destroem-se reciprocamente com incomensurável prejuízo da criança. Na sua alma infantil, o antagonismo das duas influências, ambas prolongadas, profundas ambas, acabará por produzir o irreparável dano da ruptura psicológica do equilíbrio interior. Na inteligência, o ceticismo e a indiferença, na vontade o desanimo e a falta de energias indispensáveis aos sacrifícios do dever. Consciência em ideal e sem convicções, sem coesão e sem virilidade, vitimas amanhã entregues a tirania da primeira paixão violenta – eis os frutos naturais da oposição desastrosa entre a escola e ela.

O Estado e a Escola
Da certeza dessas conclusões se inferem outrossim as relações jurídicas que existem entre a família e a escola. Escolas pode abri-las qualquer particular – indivíduo ou associação, que para isso possua, com a competência técnica e a idoneidade moral, a confiança das famílias. Escolas pode e deve abri-las o Estado todas as vezes que as iniciativas particulares forem insuficiente às exigências da instrução. Preenchendo, porém, esta função supletiva, o Estado não se transforma em educador em detrimento dos direitos naturais e inalienáveis da família. Nada mais oposto à sua razão de ser essencial. Encarregado de velar pelo bem comum, sua missão é tutelar o exercício do direito, não usurpa-lo, é defender a liberdade dos cidadãos não confisca-la no açambarcamento de um monopólio asfixiante.
Mais ainda que na ordem econômica, os direitos do Estado são limitados em matéria educativa, pela própria natureza da sua missão. Entre a finalidade do Estado e a da educação existe, não diremos o antagonismo, mas heteronomia. A função do Estado é assegurar com a ordem jurídica um ambiente favorável, ao desenvolvimento das faculdades individuais; não lhe compete, porém, dirigir imediatamente este desenvolvimento, condicionado por uma concepção da vida que o poder público, sem degenerar em tirania, não pode impor à consciência dos cidadãos. Pela sua origem, pela sua natureza, pelos seus destinos, o homem possui um valor moral que lhe é próprio e inauferível. É uma pessoa com a sua dignidade inviolável; transforma-la em simples meio de que o Estado pode dispor discricionariamente é rebaixá-lo à inferioridade de uma coisa e simultaneamente levar o poder civil, a idolatria de uma apoteose pagã, às alturas de um absoluto, irresponsável e onipotente. O direito soberano é e não pode deixar de ser um direito-função, como se exprimem os juristas modernos, isto é, um meio de realizar o bem comum, no grupo social aqui preside e portanto um direito condicional e limitado, pelo respeito aos direitos imperecíveis da generalidade humana.
Pô-la em dúvida é ratificar o despotismo ilimitado.
Outra é a finalidade da educação; essa, sim, visa elevar o homem à plenitude do desenvolvimento de todas as suas virtualidades. Seu objetivo é um bem eminentemente pessoal. E, por isso, toda pedagogia é em própria essência separável de um concepção filosófico-religiosa da vida.
Há, portanto, uma diferença profunda de finalidades, uma heteronomia que inibe ao Estado avocar a si, numa usurpação injustificável, o monopólio da educação. E o erro ponto jurídico seria ainda agravado com uma insuficiência psicológica. Todos sabemos o complexo de sentimentos naturais que condicionam a evolução normal da criança e não se substituem pela superficialidade técnica externa. É no educador uma harmonia equilibrada de firmeza e ternura que se concretizam nos dois aspectos, paterno e materno, intimamente unidos, da autoridade doméstica. É no educando a confiança e a docilidade que, em relação aos pais, se encontra nos filhos com a espontaneidade de um instinto. Sem estes recursos, que se permitem atingir as profundidades da consciência, substitui-se a verdadeira evolução interior, orgânica e vital, do homem por um artificialismo de processos ineficazes.
Ao Estado, solicito de velar pelos interesses da educação, incumbe, portanto, o dever de respeitar as suas condições naturais, auxiliando, não eliminando, a família na sua insubstituível função educadora. Estimule, facilite, ampare as iniciativas particulares a que deve a pedagogia o melhor dos seus progressos, e a educação popular a mais benfazeja das suas contribuições. Onde forem insuficientes os recursos individuais, abra e multiplique os seus estabelecimentos de ensino que venham por à disposição fácil e acessível das famílias os meios indispensáveis ao cumprimento de sua grande missão social. As escolas oficiais, assim instituídas, por mais numerosas que sejam, não podem representar uma agressão dos poderes públicos contra os direitos intangíveis dos cidadãos. Representam apenas o desempenho leal e inteligente desta função de assistência social pela qual os governos, cônscios de sua missão, subministram aos indivíduos e aos grupos naturais, anteriores e superiores ao Estado, os meios necessários à realização das suas finalidades.

Laicidade
As escolas oficiais não podem, portanto, nem devem ser leigas, se por leiga se entende a escola que dos seus programas exclui o ensino religioso.
Quando, por motivos extracientíficos e extrapedagógicos, se tentou justificar a laicização do ensino público, afirmou-se que a missão da escola era ensinar e não educar, subministrar conhecimentos sem elevar-se à formação das almas. Toda pedagogia moderna, reatando o fio de uma longa tradição, partida por interesses políticos menos dignos, revolta-s contra semelhante concepção acanhada e mesquinha da escola. Toda pedagogia é inseparável de uma visão integral da vida. Impossível presidir à evolução do homem sem conhecer-lhe a natureza e a finalidade. E toda visão integral da vida que situa e orienta o homem na universalidade das coisas, envolve, por si mesma, uma solução religiosa da existência. Não há como romper as relações essenciais que ligam a pedagogia ao ensino religioso. “Toda educação, escreve um dos mestres da pedagogia alemã, será sempre suportada por uma mentalidade religiosa, não só porque visa a alma na sua totalidade senão também pela sua atitude em relação à vida no seu conjunto.”
“A educação, afirma por sua vez um dos grandes pensadores ingleses contemporâneos, é essencialmente religiosa” (WHITEHEAD, The aims of Education, 1929, p.23) Retirar o ensino religioso das escolas seria torna-las essencialmente incapazes de educar. O conhecimento seguro e desenvolvido da religião não representa só uma riqueza da inteligência, é ainda um elemento indispensável de formação humana.
Insurge-se ainda, e com direito, a pedagogia mais moderna contra esta separação artificial entre a escola e a vida, entre o ambiente educativo e o ambiente social que o enquadra. A criança continua a viver, nos anos de estudo, a sua vida, espontânea e completa, como a vivia no lar, como a viverá mais tarde na sociedade. Interpor um cordão sanitário que vede a entrada da vida religiosa na escola, é isolá-la com um artificialismo de estufa, de toda a atmosfera circundante, é desconhecer a profundidade e complexidade da sua vida real, é impossibilitar uma colaboração sincera e completa das atividades escolares com as instituições domésticas e sociais.
A formação moral e social do homem não poderá deixar de ressentir-se deste erro profundo de longínquas e inevitáveis conseqüências. O lacismo escola já fez as suas presas. Os estudos estatísticos mais insuspeitos e mais exatos ai estão na demonstração com a correlação constante de causa e efeito, entre a laicização do ensino e o progresso da criminalidade. Quando FOUILLE averiguou que de 100 menores citados aos tribunais de Paris, apenas dois haviam saído de escolas religiosas, evidenciou, de modo incontrastável a qualquer mediana sinceridade, o grande flagelo que para um povo representa a laicização inconsiderada dos seus estabelecimentos de ensino.
São, pois, os mais altos interesses da ordem social, de par com as imprescritíveis exigências de uma sã pedagogia, que reclamam a instrução religiosa nas escolas. Ora, o Estado não pode impor aos cidadãos, sem lhes violar a liberdade de consciência, uma concepção espiritual da vida. A César falece a competência de uma autoridade doutrinal em matéria religiosa. Atribuir-lhe fôra sancionar a mais insuportável das tiranias e colocar a orientação das consciências e o patrimônio das tradições religiosas e morais de um povo à mercê dos partidos dominantes e das flutuações da política incerta e volúvel.
A solução do importante problema encontramo-la no princípio fundamental do direito escolar assim formulado pela constituição alemã no art. 146: “Leve-se na maior consideração possível a vontade das pessoas a quem pertence o direito de educação.” A lei de 15 de julho de 1921 assim demonstra no seu artigo 1º o princípio constitucional: “Sobre a educação religiosa da criança decide o livre acordo dos pais na medida em que lhes assistem o direito e o dever de cuidar da pessoa da criança.”
A laicização da escola pública é, pois, um atentado contra a liberdade espiritual das famílias e uma injustiça na aplicação dos dinheiros públicos, recolhidos, sob formas de imposto, de todos os cidadãos e empregados, num serviço de utilidade universal, de modo a torná-lo inaproveitável à maioria dos que dele terão o direito de se beneficiar.
Para conciliar estas exigências do respeito aos direitos espirituais do povo e de uma reta distribuição da justiça social, excogitaram-se, nos diferentes países civilizados, vários regimes escolares, cuja adaptação ao nosso meio deveria ser objeto de estudos mais profundos e inspirados na mais absoluta liberdade. Adotando o regime de repartição proporcional do orçamento da instrução pública pelas escolas oficiais e particulares ou fundando escolas confessionais para os diferentes credos religiosos em que se acha dividida a população, resolveram já com maior ou menor felicidade a questão do ensino religioso quase todas as nações cultas: Alemanha, Inglaterra, Irlanda, Bélgica, Holanda, Suécia, Noruega, Dinamarca, Itália, Tcheco-Eslováquia, Polônia, Áustria, Hungria, Rumânia e Grécia.
Somos, portanto, contra a laicidade do ensino. A exigência de uma articulação essencial entre a formação do homem e uma concepção da vida, a indispensável colaboração entre a escola e o lar, a unidade prescindível da obra educativa, proclamados pela mais moderna pedagogia; a esterilidade moral do laicismo evidenciada pela observação psicológica e pela estatística; o respeito à liberdade de consciência e uma justa aplicação dos dinheiros públicos, que as ciências sociais reclamam como condições essenciais de uma paz sólida e duradoura; a conservação do patrimônio cristão, moral e religioso de um povo, de sua alma espiritual através das gerações, que a história proclama como essencial à continuidade e grandeza de sua vida; as lições irrecusáveis da legislação comparada – unem-se, numa admirável convergência de luzes, para proclamar o laicismo um regime escolar antipedagógico e anti-social, injusto e estéril, sectário e funesto.
Assegurados estes princípios fundamentais, que prendem as suas raízes na própria natureza humana, nas condições do seu desenvolvimento integral, respeito à sua dignidade inviolável de pessoa, abrimos os braços acolhedores a todas as inovações pedagógicas aconselhadas por uma ciência mais adiantada e sancionadas por uma experiência mais profunda e completa. Na grande efervescência de renovação pedagógica dos nossos dias, distinguimos, nitidamente, a questão dos fins ou do ideal educativo e a dos métodos ou meios empregados para realizá-lo. Todos os progressos reais que às ciências e à arte de educar pode trazer a contribuição da biologia, da psicologia e das ciências sociais, não só os aceitamos com reconhecimento mais provamo-los com entusiasmo.
Na questão, porém, do ideal educativo cuja determinação, por sua natureza, transcende os métodos e o alcance das ciências experimentais, reivindicamos o direito de uma crítica serena e elevada. Aos que tentam estabelecer vínculos artificiais de solidariedade entre a modernidade sadia dos métodos pedagógicos e a antiguidade sempre renascente de concepções materialistas ou naturalistas da vida, respondemos que estas idéias nem são novas, nem representam conquistas da ciência. Valem o que vale a fragilidade dos sistemas filosóficos de que são, em pedagogia, a repercussão funesta.
Na determinação do ideal educativo reclamamos a integridade de uma compreensão mais vasta. Não ouvimos só a higiene ou a biologia; consultamos, sem exclusivismos nem parcialidades, todas as ciências que têm o direito de dizer uma palavra acerca do homem, da nobreza de suas origens e da sublimidade dos seus destinos.
Sem esta visão superior e completa da existência humana, na universilidade de suas relações, só poderá haver, em educação, exageros unilaterais, supervalorização estéril da técnica, mutilações na totalidade da vida, a desfecharem por último um imenso fracasso pedagógico, em que, de envolta com a paz, o equilíbrio e a felicidade dos indivíduos, se compromete o grande patrimônio espiritual da civilização.


Conclusão
A nossa mais séria aspiração é trabalhar por uma profunda reforma pedagógica no Brasil. A escola liberal com o seu laicismo incoerente e estéril, sem ideais e sem convicções, mais talvez que para nenhum outro foi para o nosso país uma experiência desastrosa. Com a difusão do ensino não se elevou, antes baixou o padrão da nossa moralidade individual, doméstica e social. Urge reformar, mas reformar radicalmente, sem reincidir nos mesmos erros que viciaram a primeira tentativa e iriam tornar uma segunda experiência mais dolorosa que a primeira. Uma reforma pedagógica sim; mais inspirada numa compreensão mais perfeita e num equilíbrio mais justo de todos os elementos de uma questão vital para os nossos destinos. Conciliação harmônica e leal de todos os direitos; colaboração indispensável e sincera de todas as autoridades pedagógicas, - civis e espirituais; articulação inteligente da escola com a família e a sociedade; adaptação dos métodos mais aperfeiçoados sem a violência dos abalos sísmicos nem o mimetismo dos povos sem tradições; apelo à colaboração precisa da iniciativa particular, e estimulada, promovida e amparada pelos poderes públicos; - respeito na obra educativa à jerarquia essencial dos valores humanos, eis alguns dos pontos capitais do nosso programa. O desconhecimento ou descaso de qualquer destas exigências comprometeria a eficácia de todo esforço em prol da elevação da nossa cultura. Só a sua realização harmoniosa e integral lograra transformar a nossa escola neste ambiente puro, tranqüilo e elevado em que a personalidade, num desenvolvimento homogêneo, equilibrado e vital, poderá atingir a plenitude de sua perfeição humana, ideal supremo da verdadeira educação.

(originalmente em FRANCA, Leonel. A formação da Personalidade. Rio de Janeiro: AGIR, 1954, p. 54-64)

domingo, 16 de novembro de 2008

Participe do Ramalhete Espiritual em intenção da retirada de excomunhão de Dom Lefebvre e Dom Maier

Nota:

Não me lembro, de ter recebido um pedido deste jeito, vindo da CNBB ou de seus Bispos. Somos levados por esta entidade e seus representantes, diretamente a ação. Normalmente não nos pedem orações da maneira como nos pediu Dom Bernard Fellay em sua última Carta aos Benfeitores.

Poderiam nos fazer pedidos ao menos para alimentar a nossa fé, o que seria justo e salutar, mas não o fazem. Mas preferem, por exemplo, fazer o "Grito dos ecluídos", a Campanha da Fraternidade, greve de fome como fez Dom Cappio, a fazer uma Campanha permanente de orações.

O leitor certamente deve compartilhar comigo esta primeira vez, que deveria ser comum em outros tempos. Também deve imaginar como seria bom se nossos Bispos pedissem as nossas orações em prol de um objetivo comum, antes de pedir nossas ações. Atendamos ao pedido e rezemos também para que nossos Bispos, sigam o exemplo e voltem a pedir as nossas orações. Será uma grande graça o levantamento das excomunhões. 

 

Gederson

Cruzada FSSPX

 

Cruzada FSSPX2

 

http://www.fsspx-brasil.com.br/pdf%20files/FSSPX%20ramalhete%20para%20o%20Papa.pdf

O Livro das Cintilações de Defensor de Ligugé

(Trad.: Jean Lauand)

Nota: O livro das Cintilações de Defensor de Ligougé, é uma coletânea de sentenças dos Pais da Igreja. Para informações complementares clique aqui e leia a introdução escrita pelo tradutor.

Prólogo

Leitor, quem quer que tu sejas, que lês este pequeno livro, eu, que o escrevi, rogo-te que o leias com alma e acolhas com gratidão estas saborosas sentenças. Com exceção do trabalho e da boa vontade, nada há aqui de meu. Das palavras do Senhor e de seus santos, destacaram-se estas cintilações que, também elas, não se devem a meu engenho, mas unicamente à graça de Deus e a meu mestre Ursino, que me encarregou deste trabalho e ensinou-me a fazê-lo. Desejoso de obedecer, perscrutei páginas e páginas e, ao deparar uma sentença fulgurante, colhia-a com a diligência de quem encontra uma pérola ou gema. Tal como uma fonte, que se faz de muitas gotas, assim reuni testemunhos de diversos volumes para tentar compor este opúsculo. Assim como do fogo procedem centelhas, assim também fulgem, extraídas das Escrituras, estas breves sentenças neste livro de cintilações. Quem quiser lê-lo, poupar-se-á trabalho; que não se canse pelo caminho das outras páginas: aqui encontrará o que deseja. Mas, para que esta obra não seja considerada sem autor ou tida por apócrifa, a cada sentença, por meio de siglas, ajunto o nome do autor.

Ao mosteiro de S. Martinho de Ligugé, no qual recebi a tonsura, ofereço este livro. Que este oferecimento me ligue a ele pela perpetuidade, pois desde minha juventude é nele que habitam os mestres que tanto me enriqueceram com seus dons. Escrevi-o com a ajuda de Jesus, eu mesmo, e ofereci a eles para crescer em Cristo, para obedecer suas ordens e em tudo prestar-lhes serviço, o que faço com muito gosto.

Se ocorreu algum descuido, rogo-te, leitor, que não me censures com ira, mas corrige-me com benevolência. Escrevo meu nome - Defensor - não por glória vã, mas para que todo leitor se lembre de mim. Tal como o porto para o navegador, assim também para mim foi com regozijo que cheguei à última linha. Conjuro a meus leitores e imploro a meus ouvintes que rezem por mim, último de todos, para que, enquanto esteja vivo, seja cumulado da sabedoria de Deus; e, ao sair desta carne, mereça eu gozar da bem-aventurança da vida eterna.

I - O amor

1. Disse o Senhor no Evangelho: Ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos (Jo 15, 13).

2. Disse Agostinho: Onde não há amor a Deus, aí reina a cobiça carnal (Ench. 117).

3. Disse Agostinho: Quão grande é a caridade: sem ela, tudo é em vão; com ela tudo ganha sentido (In Ioh. Ev., IX, 8; PL 35, 1462).

4. Disse Agostinho: Estende ao longo do mundo inteiro o teu amor, se queres amar a Cristo, pois, por todo o mundo, espalham-se os membros de Cristo ( [1] ) (In Ioh. Ep., X, 8; PL 35, 2060).

5. Disse Agostinho: Do mesmo modo que teu corpo sem espírito, isto é, sem alma, estaria morto, assim também tua alma sem o Espírito Santo, isto é, sem amor, seria tida por morta (In Ioh. Ev., IX, 8; PL 35, 1462).

6. Disse Gregório: O amor dá as forças de que carecemos pela falta de experiência (Hom. Ev., 21, 1; PL 76, 1169).

7. Disse Gregório: A caridade tem grandeza: seu amor alcança até mesmo os inimigos (Hom. Ez. 1, 6, 19; PL 76, 840).

8. Disse Jerônimo: Não há distância que separe aqueles que estão unidos pelo amor( [2] ) (Epist. 71, 7, 2; PL 22, 672).

II - A paciência

9. Disse o Senhor no Evangelho: Pela vossa paciência, possuireis as vossas almas (Mt 5,9).

10. Disse Jerônimo: Entre os cristãos, infeliz é quem lança a ofensa e não quem a sofre ( [3] ) (Ep. 17,1; PL 22, 359).

11. Disse Jerônimo: Sofre-se mais suportando o importuno do que pela ausência de quem se ama (Ibid. 118, 2, 3; PL 22, 961).

12. Disse Gregório: A paciência verdadeira está em suportar sem alteração de ânimo os defeitos dos outros e não em guardar ressentimentos contra os que nos fazem o mal (Hom. Ev., 35).

13. Disse Gregório: A paciência verdadeira é aquela que sabe amar o sofrimento; pois, suportar odiando não é a virtude da mansidão, mas ira disfarçada (Hom. Ez., 2, 5, 14).

14. Disse Isidoro: Não pode ter paz aquele que põe sua esperança num homem.

III - O amor a Deus e ao próximo

15. Disse o Senhor no Evangelho: Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: em que vos ameis uns aos outros (Jo 13,35).

16. Disse Paulo Apóstolo: Para os que amam a Deus, tudo contribui para o bem (Rm 13,10).

17. Disse Paulo Apóstolo: Nem olho viu, nem ouvido ouviu, nem jamais ascendeu ao coração humano, o que Deus tem preparado para os que o amam (I Cor 2,9).

18. Disse João Apóstolo: Este é o mandamento que temos de Deus: que quem ama a Deus ame também a seu próximo. Pois aquele que não ama a seu irmão a quem vê, como vai amar a Deus a quem não vê? (I Jo 4,20 e 21).

19. Disse Agostinho: Nossa vida é o amor. E se o viver é amar, o ódio é a morte (En. Ps. 54, 7).

20. Disse Agostinho: Fomenta o amor em ti: só ele te conduzirá à Vida.

21. Disse Gregório: A prova de que se ama está nas obras (Hom. Ev., 30, 1).

22. Disse Gregório: Todo projeto se mede exclusivamente pelo amor (Hom. Ev., 27, 1).

23. Disse Gregório: Não se ama a Deus de verdade, se não se ama o próximo; não se ama o próximo de verdade, se não se ama a Deus (Hom. Ev., 30, 10; PL 76, 1227).

24. Disse Isidoro: Não ama a Cristo de todo o coração quem odeia um homem (Sent., II, 3).

IV - A humildade

25. Disse o Senhor no Evangelho: Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração e encontrareis repouso para vossas almas (Mt 11,29).

26. Disse Tiago Apóstolo: Humilhai-vos diante de Deus e Ele vos exaltará (Tg 4,10).

27. Disse Orígenes: Se não fores humilde e recolhido, não poderá habitar em ti a graça do Espírito Santo (In Lev., 6, 2; PG 12, 468).

28. Disse Agostinho: Deus se fez humilde; que se envergonhe o homem de ser soberbo (En. in Ps. 18, 15; PL 36, 163).

V - O perdão

29. Disse o Senhor no Evangelho: Se fores fazer tua oferenda no altar e te lembrares de que teu irmão tem algo contra ti, deixa tua oferenda diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão e, depois, vai fazer tua oferta (Mt 5, 23-24).

30. Disse Gregório: Nosso antigo inimigo não está preocupado em tirar nossos bens terrenos, mas em ferir nossa caridade (Hom. Ev., 27, 2; PL 76, 1205).

31. Disse Isidoro: Quanto mais se adia a reconciliação com o irmão, mais se adia o serenar de Deus. Em vão buscará Deus propício quem não se aplicar a rapidamente reconciliar-se com o próximo (Sent., III, 27, 7; PL 83, 702).

32. Disse Anastásio: Se não perdoas a injúria que te foi feita, é antes uma maldição sobre ti mesmo - e não uma oração - o que fazes ao rezar: Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

VI - A compunção

33. Disse o Senhor no Evangelho: Em verdade, em verdade vos digo: vós chorareis e vos lamentareis e o mundo alegrar-se-á; sereis afligidos, mas vossa tristeza transformar-se-á em alegria (Jo 16,20).

34. Disse Gregório: Quando retornamos ao Senhor, Ele nos abraça bondosamente, pois já não pode ser indigna a vida de quem lavou seus pecados com lágrimas (Hom. Ev., 33, 8).

35. Disse Gregório: Tendo-nos manchado depois das águas do Batismo, renasçamos com a água das lágrimas (Hom. Ev., 25, 10; PL 76, 1196).

36. Disse Isidoro: Para Deus, as lágrimas de penitência equivalem às águas do Batismo (De Eccl. off. II, 17, 6; PL 83, 803).

VII - A oração

37. Disse o Senhor no Evangelho: Tudo o que pedirdes na oração com fé, recebereis (Mt 21, 22).

38. Disse Jesus, filho de Sirach: A oração humilde trespassa as nuvens (Eclo 35,21).

39. Disse Jerônimo: Se é absurdo que um soldado parta sem armas para a guerra, assim também o cristão não deve fazer nada sem oração.

40. Disse Isidoro: A oração vem do coração e não dos lábios; pois Deus não leva em conta as palavras, mas o coração de quem ora. É melhor orar no silêncio do coração do que por palavras sem atenção do espírito. Se alguém ora sem falar e em silêncio, sua oração passa despercebida aos homens, mas não a Deus, que está presente em sua consciência (Sent., III, 7, 4).

41. Disse Isidoro: Nosso espírito é celeste; e contempla verdadeiramente a Deus, quando não é distraído por nenhuma preocupação terrena (Sent., III, 7, 7).

42. Disse Cipriano: Boa é a oração que vai acompanhada de jejum e de esmola (In De Dom. Orat., 32; PL 4, 540).

VIII - A confissão

43. Disse João Apóstolo: Se dissemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós. Mas, se confessamos nossos pecados, fiel e justo é Deus para perdoar e limpar-nos de todo pecado (I Jo 1,8-9).

44. Disse Agostinho: A confissão de todos as más ações é o início das boas obras (In Ioh. Ev. XII, 13; PL 35, 1491).

45. Disse Agostinho: Quem confessa seus pecados e se acusa de ter pecado faz um pacto com Deus (In Ioh. Ev. XII, 13; PL 35, 1491).

46. Disse Agostinho: O tempo (oportuno) para confessar é agora; confessa o que fizeste por palavras, por ações, de noite, de dia.

47. Disse Gregório: Quanto mais nos fechamos no silêncio, mais se alimenta o peso da dor interior (Pastor., 3, 14; PL 77, 72).

IX - A penitência

48. Disse o Senhor no Evangelho: Fazei penitência, pois aproxima-se o reino dos céus (Mt 3, 2).

49. Disse Jerônimo: Podridão da carne se trata a ferro e fogo (Ep. 117, 2; PL 22, 954).

50. Disse Jerônimo: Deus, por natureza, é misericordioso e disposto a salvar por clemência aqueles que Ele não pode salvar por justiça (In Ionam 2, 9).

51. Disse Isidoro: Penitência é questão de obras e não de meras palavras (Sent., II, 23).

52. Disse Isidoro: Há mais alegria em Deus e nos anjos por aquele que se livrou do perigo, do que por aquele que nunca conheceu o perigo do pecado; pois, quanto mais entristece a perda de algo, mais alegra reencontrá-lo (Sent., II, 14, 4).

X - O jejum

53. Disse Paulo Apóstolo: Todas as criaturas de Deus são boas e não é de rejeitar nenhum alimento, que deve ser tomado com ação de graças: ele é santificado pela Palavra (Verbum) de Deus e pela oração (I Tim 4,4-5).

54. Disse Jesus, filho de Sirach: O abstinente prolonga sua vida (Eclo 37,34).

55. Disse Jerônimo: O ventre cheio fala do jejum com facilidade (Ep. 52, 7, 2; PL 22, 533).

56. Disse Isidoro: Pelo comer, cresce a sensualidade; o jejum vence a luxúria (Syn., II, 14; PL 83, 848).

57. Disse Isidoro: Este é o jejum perfeito: quando jejua nosso homem exterior e o homem interior faz oraão (Sent., II, 44, 1; PL 83, 651).

58. Disse Isidoro: Pelo jejum, até as profundezas dos mistérios são reveladas e se manifestam os segredos dos divinos arcanos (Sent., II, 44, 2; PL 83, 651).

59. Disse Gregório: Os que praticam o jejum com arrogância, sim afligem seus corpos pela abstinência, mas são escravos do mundo por seu espírito de gula (Hom. Ev., 32, 3; PL 76, 1235).

XI - O afastamento do mundo

60. Disse o Senhor no Evangelho: Quem quer que, por amor a Meu nome, deixe casas, irmãos ou irmãs, ou pai, ou mulher, ou filhos, ou campos, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna (Mt 19,29).

61. Disse Gregório: Difícil não é entregar seus bens; difícil é entregar-se a si mesmo. É mais fácil renunciar ao que se tem do que ao que se é (Hom. Ev., 5, 2; PL 76, 1233).

XII - O temor

62. Disse o Senhor no Evangelho: Não temais aqueles que matam o corpo mas não podem matar a alma; temei, antes, Aquele que pode lançar alma e corpo na gehena (Mt 10,28).

63. Disse Gregório: Temer a Deus é não omitir nada do que devemos fazer (Mor. I, 3, 3).

XIII - A virgindade

64. Disse Jerônimo: O número cem, o primeiro mencionado, corresponde à coroa das virgens, pela virgindade. O número sessenta é o das viúvas, pelo peso da continência. O número trinta, em terceiro lugar, atesta os laços do casamento por consentimento verbal e recíproco ( [4] ) (Ep. 123,8).

XIV - A justiça

65. Disse o Senhor no Evangelho: Buscai primeiro o reino de Deus e todo o resto vos será dado por acréscimo (Mt 6,33).

66. Disse o Senhor no Evangelho: Não os sãos, mas os doentes é que têm necessidade de médico. Eu não vim chamar os justos mas os pecadores (Lc 5,31-32).

67. Disse Gregório: A justiça, se não tem flexibilidade, perverte-se em crueldade ( [5] ) (Hom. Ez., I, 3, 8; PL 76, 809).

XV - A inveja

68. Disse o Senhor no Evangelho: Não julgueis uns aos outros (Mt 7,1).

69. Disse o Senhor no Evangelho: Guardai-vos do fermento dos fariseus (Mt 16,6).

70. Disse Pedro Apóstolo: Deixai toda a maldade, todo o dolo e fingimento, as maledicências e as invejas (I Pe 2,1).

71. Disse Paulo Apóstolo: A caridade não é invejosa (I Cor 13,4).

72. Disse Paulo Apóstolo: Há os que pregam a Cristo por inveja e há os que O pregam de boa vontade (Fil 1,15).

73. Disse Salomão: A vida do corpo é um coração sadio; a podridão dos ossos é a inveja (Prov 14,30).

74. Disse Salomão: Não comas com o invejoso, não desejes seus manjares, pois, tal como o adivinho, ele julga sobre o que ignora. "Come e bebe", ele te diz, mas seu coração não está contigo (Prov 23,6-7).

75. Disse Agostinho: A inveja consome toda a virtude (Serm. ad fratres in eremo 18; PL 40, 1264).

76. Disse Agostinho: Mais do que qualquer outra coisa, são a inveja e o ciúme que deixam a alma bêbada.

77. Disse Agostinho: Onde há inveja não pode haver amor fraterno (In Ep. Ioh. V, 8; PL 35, 2016).

78. Disse Agostinho: Quem inveja, não ama; o pecado do diabo está nele, pois o diabo caiu por inveja (In Ep. Ioh. V, 8; PL 35, 2016-2017).

79. Disse Agostinho: Foi por inveja que crucificaram a Cristo. E assim, quem inveja seu irmão, crucifica a Cristo.

80. Disse Jerônimo: A inveja sempre persegue as virtudes (Ep. 108, 18, 1).

81. Disse Jerônimo: Grande é a virtude daquele que, pela humildade, supera a inveja (Ep. 60, 10, 5; PL 22, 595).

82. Disse Ambrósio: O invejoso faz do bem alheio seu próprio suplício.

83. Disse Isidoro: O que para o homem bom é de proveito, é precisamente o mesmo que faz o invejoso definhar (Sent., III, 25, 1; PL 83, 700).

84. Disse Isidoro: O invejoso é um membro do diabo: pela inveja dele, entrou a morte no mundo (Sent., III, 25, 3; PL 83, 700).

85. Disse Isidoro: A inveja morde a inteligência, queima o peito, ataca o espírito. A inveja, como uma peste, devasta o coração do homem. O amor impede que nasça a inveja. (Syn., II, 37; PL 83, 854).

XVI - O silêncio

86. Disse o Senhor no Evangelho: O homem bom, do bom tesouro de seu coração, tira o que é bom; o homem mau, o que é mau (Mt 12, 35).

XVII - A soberba

87. Disse o Senhor no Evangelho: Todo aquele que se exalta será humilhado; quem se humilha será exaltado (Lc 14,11).

88. Disse Agostinho: Devemos evitar a soberba. Se ela soube enganar até os anjos, tanto mais pode ela destruir os homens.

89. Disse Jerônimo: A culpa é grave quando à inexperiência e à negligência ajunta-se a soberba (In Mt. 25, 24; PL 26, 187).

90. Disse Jerônimo: Não há nada que o cristão deva mais evitar do que o aspecto arrogante, que atrai contra si o ódio de Deus (Ep. 76, 1, 1).

91. Disse Ambrósio: A soberba fez dos anjos, demônios; a humildade torna os homens semelhantes aos santos. A vontade soberba leva a desprezar os preceitos de Deus; a humilde, a guardá-los. Os soberbos procuram que se proclame o que nem sequer fizeram; os humildes procuram não dar a conhecer o bem que realmente praticaram (Iulian. Pomer. De vita contemplativa III, 3, 1; PL 59, 478).

92. Disse Isidoro: A rainha e mãe dos vícios capitais é a soberba; sempre que se peca, há soberba (Sent., III, 37, 8; PL 83, 639).

XVIII - A sabedoria

93. Disse o Senhor no Evangelho: Sede prudentes como serpentes e simples como pombas (Mt 10,16).

94. Disse Paulo Apóstolo: A sabedoria deste mundo é tolice perante Deus (I Cor 3,19).

95. Disse Jerônimo: É muito melhor o falar não erudito do que a mentira em eloqüente discurso (Ep. 18 A, 4, 2; PL 22, 363).

96. Disse Isidoro: Conhecemos retamente a Deus quando renunciamos a conhecê-lO perfeitamente (Sent., I, 5; PL 83, 599).

97. Disse Isidoro: Ninguém é mais culpável do que aquele que ignora Deus (Sent., I, 6; PL 83, 600).

98. Disse Isidoro: Simplicidade com ignorância chama-se tolice; simplicidade com prudência, sabedoria (Sent., I, 10; PL 83, 600).

99. Disse Isidoro: Há muitos que conhecem a Deus pelos estudos, mas não O veneram pelas ações (Syn., 2, 65; PL 83, 860).

XIX - A ira

100. Disse Salomão: A resposta doce quebra a ira; uma palavra dura excita o furor (Prov 15,1).

101. Disse Jesus, filho de Sirach: Evita rixas com o iracundo (Eclo 8,19).

102. Disse Jesus, filho de Sirach: Não há cabeça pior do que a cabeça de uma cobra; não há ira pior do que a ira do inimigo (Eclo 25,22-23).

103. Disse Jesus, filho de Sirach: Lembra-te de temer a Deus e não te enfurecerás contra teu próximo (Eclo 28, 8).

XX - A vanglória

104. Disse o Senhor no Evangelho: Não busqueis fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles; senão, não recebereis a recompensa de vosso Pai (Mt 6,1).

105. Disse Jerônimo: Quem não procura a glória não deve se ressentir da falta de glória (In Mt. 5, 12; PL 26, 35).

106. Disse Gregório: Os santos não só não desejam uma glória que não lhes compete, mas recusam até mesmo a que sabem possuir (Moral. 18, 8, 13; PL 76, 44).

XXI - A fornicação

107. Disse Jesus, filho de Sirach: Quem se junta aos fornicadores tornar-se-á iníquo (Eclo 19,2).

108. Disse Jesus, filho de Sirach: Ter uma mulher infiel é como apanhar um escorpião (Eclo 26,10).

109. Disse Isidoro: O adultério é a fornicação da carne; a idolatria, a do espírito (Sent., II, 39, 18; PL 83, 642).

110. Disse Isidoro: A luxúria da carne por todos é visível: por si, imediatamente, ela provoca vergonha (Sent., II, 38, 1; PL 83, 639).

111. Disse Isidoro: A luxúria prontamente toma conta dos ociosos; e se apodera dos desocupados (Syn., 2, 18; PL 83, 849).

XXII - A perseverança

112. Disse o Senhor no Evangelho: Quem perseverar até o fim será salvo (Mt 24,13).

113. Disse Jerônimo: Não se olha nos cristãos os inícios, mas o fim: Paulo começou mal e acabou bem; pelos começos, Judas foi louvável, mas sua perdição final o condena (Ep. 54, 6, 4; PL 22, 552).

XXIII - A segurança

114. Disse o Senhor no Evangelho: Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora (Mt 24,42).

115. Disse Jerônimo: Toda a vida do sábio é meditação sobre a morte (Ep.60,14).

XXIV - A tolice

116. Disse o Senhor no Evangelho: Todo aquele que ouve minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um tolo (Mt 7,26).

117. Disse Salomão: O tolo é ferido por seus lábios (Prov 10,8).

118. Disse Salomão: O tolo é castigado por seus lábios (Prov 10,10).

119. Disse Salomão: A boca do tolo é a perturbação do próximo (Prov 10,14).

120. Disse Salomão: O sábio cala sua sabedoria; o coração dos insensatos proclama sua tolice (Prov 12,23).

121. Disse Salomão: Tolice, alegria do tolo (Prov 15,21).

122. Disse Salomão: Melhor topar com uma ursa procurando seus filhotes do que com o fátuo apregoando sua tolice (Prov 17,12).

123. Disse Salomão: De que adianta ao tolo ter riquezas, se a sabedoria não se pode comprar? (Prov 17, 16)

124. Disse Jesus, filho de Sirach: Agüentar a conversa do tolo é como carregar um fardo pelo caminho (Eclo 21,19).

XXV - A avareza

125. Disse Agostinho: Assim como a avareza costuma levar ao inferno, o jugo de Cristo eleva ao Céu.

126. Disse Jerônimo: A avareza desconhece medida: devorando tudo, nunca se sacia.

XXVI - As virtudes

127. Disse Agostinho: A maldade se combate com a virtude; a cizânia luta com o trigo.

128. Disse Gregório: Sim, o saber é uma virtude, mas a humildade é a guardiã da virtude (Hom. Ev., 7, 4; PL 76, 1102).

129. Disse Gregório: Desejai companheiros no caminho que leva a Deus (Hom. Ev., 6, 6; PL 76, 1098).

130. Disse Isidoro: À virtude, elevamo-nos com esforço; no vício, caímos sem dificuldade (Sent., II, 36; PL 83, 637).

131. Disse Isidoro: Primeiro devem se extirpar os vícios, e só depois florescem as virtudes. Isto porque não há contato nem união da verdade com a mentira (Sent., II, 36, 6; PL 83, 637).

132. Disse Gregório: Quando é ainda por temor que praticamos o bem, não nos desvencilhamos totalmente do mal. Se o temor reprime o vício, do amor é que surgem as virtudes: fé, esperança e caridade (Moral. I, 26, 37; PL 75, 544).

XXVII - Os vícios

133. Disse Jerônimo: Não há purificação dos vícios senão pela aquisição das virtudes (In Mt. 9, 20).

134. Disse Jerônimo: Imersos em vícios, são incapazes de ver as virtudes (Cod. Lyon 600, f. 9).

135. Disse Isidoro: Renuncia de verdade ao vício quem evita a ocasião de pecar (Sent., II, 32, 4).

XXVIII - A embriaguez

136. Disse Basílio: O Senhor deu-nos o vinho para alegria do coração e não para a embriaguez.

XXIX - O dízimo

137. Disse Agostinho: O dízimo é oferenda para os pobres.

XXX - A cobiça

138. Disse o Senhor no Evangelho: Quão difícil é para os que põem sua confiança no dinheiro entrarem no reino de Deus! (Mc 10,24).

139. Disse Ambrósio: Cobiça e soberba são a tal ponto um só mal, que não se pode encontrar um soberbo que não seja cobiçoso, nem cobiça sem soberba.

140. Disse Isidoro: Os bafejados pela glória humana podem ter, por fora, o brilho do poder; mas, por dentro, são vazios, tudo não passa de inchaço de soberba (Sent., III, 59,2).

141. Disse Isidoro: Não podem ter o espírito livre para contemplar a Deus, enquanto ardem em desejos e cobiças deste mundo. Pois o olho que se encerra no pó não pode contemplar o céu (Sent., III, 41, 2; PL 83, 645).

XXXI - A correção

142. Disse Isidoro: Os justos aceitam de modo salutar a repreensão pelos seus desvios (Sent., III, 32; PL 83, 704).

143. Disse Isidoro: Aquele que não se emenda com palavras brandas deve ser repreendido com severidade. Deve-se amputar com dor os membros que não se curam com tratamento suave (Sent., III, 46, 11; PL 83, 716).

XXXII - Os que governam e ensinam

144. Disse Agostinho: Quem manda não se julgue investido do poder para dominar, mas, do amor, para servir (Regula ad servos Dei 7; PL 32, 1381).

145. Disse Jerônimo: Ao falar de Deus, deves adequar o discurso de modo a nutrir ouvintes diversos: que cada um receba o alimento de modo proporcionado a seu estômago (In Mt. 13,31).

146. Disse Jerônimo: O dever dos doutores é estender a mão a quem caiu e mostrar o caminho a quem se desviou (In Io. 4, 10; PL 25, 1151).

147. Disse Jerônimo: O orador sábio procura, em seus discursos, atingir a muitos com poucas palavras (Cod. Paris, B. N., Nouv. acq. lat. 446, f. 16).

148. Disse Jerônimo: O discurso do sacerdote deve estar temperado com o sal das Sagradas Escrituras (Ep. 52, 8, 1; PL 22, 534).

149. Disse Jerônimo: Quando se prega na igreja, deve-se despertar não o clamor, mas a contrição: que as lágrimas dos ouvintes sejam seu louvor (Hilberg I, 428, 16).

150. Disse Jerônimo: A alma da arte de ensinar é o exemplo (Ep. 69, 8, 7; PL 22, 662).

151. Disse Gregório: Quem não tem amor pelos outros não deve, de modo algum, dedicar-se ao ensino (Hom. Ev., 17, 1; PL 76, 1139).

152. Disse Gregório: Maior o cargo, maior o perigo.

153. Disse Isidoro: Não deve ser promovido a cargos de governo na Igreja quem ainda está sujeito aos vícios (Sent., III, 34; PL 83, 706).

XXXIII - A fé

154. Disse Agostinho: Para aqueles que crêem, a noite torna-se dia; para os que não têm fé, a própria luz torna-se treva. A fé tem tal poder que faz os homens andarem a pé sobre as águas.

155. Disse Agostinho: Grande é a fé, mas de nada serve se não tiver amor (In Ioh. Ev. Vi, 21).

156. Disse Gregório: De que vale estarmos unidos a nosso Redentor pela fé, se nossa conduta nos afasta dele? (Hom. Ev. 26, 9; PL 76, 1202)

XXXIV - A esperança

157. Disse Tiago Apóstolo: Aquele que duvida é semelhante à onda do mar que o vento agita e leva para lá e para cá (Tg 1,6).

XXXV - Os dons

158. Disse Gregório: O bem que recebemos na tranqüilidade manifesta-se na tribulação (Moral. Praefatio; PL 75, 519).

159. Disse Gregório: Há alguns que receberam o dom da inteligência, mas têm sensibilidade somente para as coisas da carne (Hom. Ev., 9, 1; PL 76, 1107).

160. Disse Isidoro: Embora pequemos, Deus não nos retira seus dons, a fim de que o espírito humano se alce à esperança do perdão divino (Sent., II, 5, 1; PL 83, 604).

161. Disse Isidoro: DEle procedem, junto com a graça, todos os bens (Sent., II, 5, 2).

XXXVI - A discórdia

162. Disse Gregório: Deus é na unidade e merecem Sua graça os que não se separam uns dos outros por seitas escandalosas (Hom. Ev., 22, 4; PL 76, 1176).

163. Disse Gregório: Que sacrifício de misericórdia pode oferecer quem está em discórdia com seu próximo?

XXXVII - O juramento

164. Disse o Senhor no Evangelho: Ouvistes o que foi dito aos antigos: "Não perjurarás, mas cumprirás teus juramentos ao Senhor"; eu, porém, vos digo: Não jureis em absoluto, nem pelo céu, nem pela terra (Mt 5,33-34).

165. Disse Isidoro: Jurar não é contrário à ordem de Deus, mas, jurando, corremos o risco do perjúrio. E assim, não jure nunca aquele que teme o perjúrio (Sent., II, 31, 2; PL 83, 633).

166. Disse Isidoro: Na maior parte das vezes, dispomo-nos a falar sem recorrer a juramento, mas a incredulidade dos que não crêem no que dizemos leva-nos a jurar (Sent., II, 31, 6).

XXXVIII - O pensamento

167. Disse Gregório: A vontade não disciplinada nos pensamentos passa a imperar, também, na ação.

168. Disse Gregório: Tudo o que um tanto inadvertidamente cogitamos está, por assim dizer, sendo cozinhado no espírito (Hom. Ev., 22, 8; PL 76, 1179).

169. Disse Isidoro: Dupla é a causa do pecado: de ação e de pensamento; a que se chama iniqüidade realiza-se pela ação; a outra, a injustiça, pelo pensamento (Sent., II, 25, 1).

XXXIX - A mentira

170. Disse Isidoro: O mentiroso começa sempre por dizer a verdade para, uma vez adquirida a confiança, tornar seus ouvintes propensos a acreditar em suas mentiras (Sent., II, 30, 2).

171. Disse Isidoro: Para muitos, o que é falso parece verdade porque falam, não a partir de Deus, mas de seu falso ponto de vista (Sent., II, 30, 3; PL 83, 632).

XL - Os monges

172. Disse Paulo Apóstolo: Todos aqueles que se dedicam à luta, de tudo se abstém: eles, para alcançar uma coroa perecível; nós, imperecível (I Cor 9,25).

173. Disse Jerônimo: O monge deve desejar especialmente a solidão e fugir das cidades (Ep. 46, 12, 2).

174. Disse Gregório: Monge que busca haveres não é monge (Dialog., 3, 14).

XLI - A detração

175. Disse Agostinho: Não fales mal e não ouças falar mal de ninguém.

XLII - As vontades

176. Disse Agostinho: Tudo o que Deus quer de nós é uma vontade boa.

177. Disse Gregório: Aos olhos do Senhor, uma mão nunca está vazia de oferendas, se a arca do coração está repleta de boa vontade (Hom. Ev., 5, 3; PL 76, 1094).

XLIII - As vestes

178. Disse Gregório: Ninguém procura vestes caras senão por vanglória, isto é, para ostentar maior posição que os outros: ninguém se ocupa de vestir-se bem onde ninguém o possa ver (Hom. Ev., 40, 3; PL 76, 1305).

XLIV - A misericórdia

179. Disse Cipriano: Não pode merecer a misericórdia de Deus quem não for misericordioso. Nada obterá da divina bondade com suas súplicas quem não agir com humanidade ante as súplicas do pobre (De op. et eleem.; PL 4, 606).

XLV - A compaixão para com o próximo

180. Disse Gregório: Quem acolhe a dor do sofrimento de outro carrega a cruz em espírito (Hom. Ev., 37, 5; PL 76, 1277).

181. Disse Gregório: Não há outro meio de nos tornarmos membros de nosso Redentor senão unindo-nos a Deus e compartilhando a dor do próximo (Hom. Ev., 39, 9; PL 76, 1300).

XLVI - O orgulho

182. Disse o Senhor no Evangelho: Quem se eleva será humilhado (Lc 18,14).

XLVII - A vida do homem

183. Disse o Senhor no Evangelho: Não vos preocupeis sobre o que vestireis; vossa alma é mais do que o alimento (Mt 6,25).

XLVIII - Os presentes

184. Disse o Senhor: Os presentes cegam os olhos dos sábios e alteram as palavras dos justos (Dt 16, 19).

XLIX - As esmolas

185. Disse Gregório: Quando damos aos indigentes o que lhes é necessário estamos dando o que lhes é devido e não fazendo um ato de generosidade (Pastor. 3, 21; PL 77, 87).

L - A tribulação

186. Disse o Senhor: Eu, aos que amo, repreendo e corrijo (Apoc 3,19).

187. Disse Paulo Apóstolo: É por meio de muitas tribulações que devemos entrar no reino de Deus (At 14,22).

188. Disse Agostinho: Quem não merecer ser atribulado neste mundo será torturado no inferno.

189. Disse Jerônimo: A cólera terrível de Deus é a que não se encoleriza contra os pecadores. Médico, quando deixa de aplicar tratamento, é porque desesperou (Ep. 68, 1, 5; PL 22, 652).

LI - As primícias ou oferendas

190. Disse Salomão: Os sacrifícios dos ímpios são abomináveis para o Senhor; os dos justos, aplacam-no (Prov 15,8).

LII - A tristeza

191. Disse Isidoro : Queres estar sempre longe da triste? Vive bem. Para quem guarda a consciência, a tristeza não pesa. O bem viver traz sempre consigo a alegria; já a consciência culpada sempre sofre: a alma culpada sempre está insegura (Syn., 2, 61; PL 83, 859).

LIII - A beleza

192. Disse Basílio: Cristo se compraz com a beleza da alma, não com a do corpo. Ama tu também o que agrada a Deus.

LIV - As refeições

193. Disse Jerônimo: Se fores convidado a comer com um pecador, vai, para que possas dar a quem te convidou teus alimentos espirituais (In Mt. 9, 13; PL 26, 56).

194. Disse Gregório: Enquanto o corpo se distende no prazer das refeições, o coração se abandona a uma vã alegria: sempre a loquacidade se segue aos banquetes; com o estômago cheio, a língua fica sem freio (Moral. I, 8, 10; PL 75, 532).

LV - O riso e o pranto

195. Disse Agostinho: Mais vale a tristeza de quem sofre uma injustiça do que a alegria de quem a comete (En. in Ps. 56, 14; PL 36, 671).

196. Disse Jerônimo: Se a sorte te sorri, não te tornes arrogante; se te sobrevém a desgraça, não te deprimas.

LVI - O honrar os pais

197. Disse Jerônimo: Honra teu pai, desde que ele não te separe do verdadeiro Pai; reconhece o vínculo do sangue, na medida em que ele reconheça seu Criador (Ep. 54, 3; PL 22, 551).

LVII - Os filhos

198. Disse Paulo Apóstolo: Isto é justo: obedecei a vossos pais no Senhor (Ef 6,1).

199. Disse Salomão: Quem poupa seu filho à vara, odeia-o; quem o ama, aplica-se a corrigi-lo (Prov 13,24).

LVIII - Os ricos e os pobres

200. Disse o Senhor no Evangelho: Ai de vós, ó ricos, porque já tivestes vosso consolo (Lc 6,24).

201. Disse Isidoro: A posse de bens terrenos, se não é para refazer a vida dos miseráveis, é uma tentação. Os ganhos deste mundo causam tanto mais suplícios quanto maiores eles são (Sent., III, 60; PL 83, 733).

202. Disse Isidoro: Não por muito tempo podemos estar com nossas riquezas: ou nós as abandonamos, morrendo; ou, vivendo, elas nos abandonam (Sent., III, 60, 3; PL 83, 733).

LIX - A acepção de pessoas

203. Disse Jerônimo: Justo é o julgamento em que se consideram não as pessoas, mas os atos (In Mt. 16, 27; PL 26, 121).

204. Disse Isidoro: Ao julgar, não consideres a pessoa, mas a causa (Sent., III, 53, 1).

LX - O caminho

205. Disse o Senhor no Evangelho: Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ele. Quão estreita é a porta que conduz à vida e quão poucos os que a encontram! (Mt 7,13-14)

206. Disse Paulo Apóstolo: Vede, irmãos, o modo como caminhais: não como tolos, mas como sábios (Ef 5,15).

207. Disse Gregório: Tolo é o viajante que, vendo no caminho uma pradaria agradável, esquece o caminho que empreendia (Hom. Ev., 14, 6; PL 76, 1130).

LXI - O senso

208. Disse Jesus, filho de Sirach: Honra e glória no falar do homem sensato; a língua do insensato é sua ruína (Eclo 5,15).

LXII - Os servos e os senhores

209. Disse Paulo Apóstolo: Senhores, dai a vossos servos o que é justo e eqüitativo, sabendo que também vós tendes um Senhor no Céu (Col 4,1).

210. Disse Cipriano: Sê para teu servo tal como desejas que o Senhor em relação a ti o Senhor (Adm. ad fil. 49, 17-18; PL 103, 693).

LXIII - Os bons e os maus

211. Disse Paulo Apóstolo: Nós vos rogamos, irmãos, que vos afasteis de todo irmão que não anda pelo bom caminho (II Tess 3, 6).

212. Disse Isidoro: Assim como é de desejar que os bons tenham paz entre si assim, também, que os maus se digladiem (Sent., III, 31, 2; PL 83, 703).

LXIV - A amizade e a inimizade

213. Disse Jesus, filho de Sirach: Volta-te para teus amigos e afasta-te de teus inimigos. Um amigo fiel é uma poderosa proteção; quem o encontra, encontra um tesouro. Nada se pode comparar a um amigo fiel (Eclo 6,13-15).

214. Disse Jesus, filho de Sirach: Quando tudo corre bem, não se conhece quem é amigo de verdade; em tempos de desgraça, manifesta-se quem é inimigo (Eclo 12,8).

215. Disse Jerônimo: Nos amigos não se buscam os bens, mas o querer (Ep. 68, 1; PL 22, 651).

216. Disse Jerônimo: Não há distância que separe aqueles que estão unidos pelo amor (Epist. 71, 7, 2; PL 22, 672).

217. Disse Isidoro: O amigo é verdadeiramente amado somente se é amado, não por ele mesmo, mas por Deus. Quem não sabe amar verdadeiramente ama para seu próprio proveito e não por Deus (Sent., III, 28, 53; PL 83, 702).

218. Disse Isidoro: Há alguns que quando atingem altas posições, desdenham ter por amigos aqueles que, antes, tinham por íntimos (Sent., III, 29, 6; PL 83, 703).

LXV - Os conselhos

219. Disse Jesus, filho de Sirach: Que sejam muitas as pessoas com quem tenhas boas relações; conselho, porém, toma de um em mil (Eclo 6,6).

220. Disse Jesus, filho de Sirach: Não faças nada sem conselho e não te arrependerás (Eclo 32,24).

221. Disse Jesus, filho de Sirach: Não dês conselho aos que te invejam (Eclo 37,7).

222. Disse Basílio: Em toda ação que pretendes realizar, antes considera atentamente diante de Deus se ela está de acordo com Deus. Se estiver, realiza-a; se não, arranca-a de teu espírito (Adm. ad fil. 12; PL 103, 694)

LXVI - Os mortos

223. Disse João Apóstolo: Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor (Apoc 14,13).

224. Disse Isidoro: O amor leva-nos a chorar pelos fiéis defuntos; a fé, porém, leva a não nos afligirmos por eles (Sent., III, 62, 12; PL 83, 738)

LXVII - O auxílio de Deus

225. Disse Paulo Apóstolo: Se Deus é por nós, quem será contra nós? (Rom 8,31).

226. Disse Paulo Apóstolo: Não pelo homem que quer ou que corre, mas pela misericórdia de Deus (Rom 9,16).

227. Disse Jerônimo: Feliz aquele para quem a esperança é Deus e toda ação, oração.

LXVIII - Os velhos e os jovens

228. Disse o Senhor no Evangelho: Deixai vir a mim os pequeninos, pois deles é o reino dos céus (Mt 19,14).

229. Disse Salomão: A alegria dos jovens, sua força; a dignidade dos velhos, suas cãs (Prov 16,31).

LXIX - As desavenças

230. Disse Gregório: Todos os hereges, querendo agradar a Deus, ofendem-nO (Moral., 11, 1, 1; PL 75, 953).

231. Disse Isidoro: Por nenhuma razão entres em discussão, pois as discussões conduzem ao litígio. As discussões geram as rixas. A discussão deflagra o ódio e dissolve a concórdia (Syn., II, 39; PL 83, 854).

LXX - A vida alheia

232. Disse Agostinho: Ah, quão irrepreensíveis seríamos se cuidássemos de evitar nossos próprios vícios com o mesmo empenho com que bisbilhotamos os dos outros! Mas porque esquecemos dos nossos é que nos ocupamos dos defeitos alheios.

233. Disse Jerônimo: Guarda-te de cometer o mesmo erro que te propões corrigir.

234. Disse Jerônimo: Ao investirem contra os erros alheios, manifestam os seus próprios...

235. Disse Gregório: Menos devemos nos atrever a censurar o que os outros têm no coração quanto mais conscientes estamos de que nosso olhar é incapaz de penetrar na intimidade dos pensamentos alheios (Moral. I, 9,; PL 75, 533).

LXXI - A mansidão e a temeridade

236. Disse o Senhor no Evangelho: Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração (Mt 11,29).

237. Disse Agostinho: Há alguns que, sendo inferiores por sua iniqüidade, ainda se julgam superiores a todos os homens (En. in Ps. 124, 1; PL 37, 1648).

LXXII - Os juízes e os governantes

238. Disse o Senhor no Evangelho: Não julgueis e não sereis julgados. Pois, segundo o julgamento que julgardes, sereis julgados; e com a medida com que medirdes, sereis medidos (Mt 7,1-2).

239. Disse Jerônimo: Não nos alegremos com os elogios dos homens; não temamos as críticas dos homens.

240. Disse Jerônimo: Se queremos agradar a Deus, não temamos as ameaças dos homens.

LXXIII - A simplicidade

241. Disse o Senhor no Evangelho: Sede prudentes como serpentes e simples como pombas (Mt 10,16).93.

242. Disse Jerônimo: Que o homem rústico e simples não se julgue santo porque nada sabe; e que o homem culto e instruído não pense que a santidade consiste na erudição (Ep., 52, 9, 3; PL 22, 579).

243. Disse Jerônimo: A estrutura espiritual é a articulação de: fé firme no coração, elmo da salvação na cabeça, sinal de Cristo na fronte, palavra de verdade na boca, vontade boa no espírito, amor de Deus no peito, cíngulo de pureza nas paixões, retidão no agir, sobriedade no convívio, constância na bondade, humildade no sucesso, paciência na tribulação, esperança na oração, amor à vida eterna, perseverança até o fim.

LXXIV - Os médicos

244. Disse o Senhor no Evangelho: Não os sãos, mas os doentes é que têm necessidade de médico (Lc 5,31).

245. Disse Jesus, filho de Sirach: Honra o médico, porque ele é necessário: o Altíssimo o criou. De Deus é que vem todo remédio (Eclo 38,1-2).

246. Disse Cipriano: É necessário abrir a ferida, cortá-la, expelir o pus e aplicar-lhe remédio forte. O doente, que mal suporta a dor, grita e vocifera; mas, depois, ao recobrar a saúde, agradecerá (De lapsis, 14; PL 4, 447-448).

LXXV - A ligação com Deus

247. Disse o Senhor no Evangelho: Tudo o que ligardes na terra será ligado nos céus (Mt 16,19).

248. Disse Gregório: Aqueles a quem Deus onipotente visita pela graça do arrependimento, Ele os absolve pela sentença do pastor (Hom. Ev., 26, 6; PL 76, 1200).

LXXVI - O exemplo

249. Disse Isidoro: Se tivemos disposição para imitar os iníquos no mal, por que a displicência para imitar os justos no bem? (Sent., II, 7; PL 83, 612)

LXXVII - Os discípulos

250. Disse Jerônimo: Guarda-te de ser mestre antes de ser discípulo; de ser soldado antes de ser recruta (Ep. 125, 8, 2; Hilberg III, 127, 10).

251. Disse Jerônimo: O homem de estudos e sábio, mesmo quando quer aprender algo, ensina: pelo modo sábio com que interroga (Ep. 53, 3, 7; PL 22, 543).

252. Disse Jerônimo: Há alguns, com extrema propensão a falar, que têm o atrevimento de explicar o que eles mesmos não entenderam (Ep. 7, 1; Hilberg I, 453).

253. Disse Cipriano: Aprimora seu ensino aquele que cada dia cresce e se aprofunda na arte de aprender o melhor (Ep. 74, 10; PL 3, 1135).

254. Disse Cipriano: O ensino é: guardião da esperança; reservatório da fé; traçou o caminho da salvação; exprime e realiza uma personalidade sólida; é mestre de virtude; faz permanecer sempre em Cristo, viver para Deus e atingir as promessas celestes e as divinas recompensas (De hab. virg., I; PL 4, 440-441).

LXXVIII - A tentação e o martírio

255. Disse Jerônimo: Não é só o derramamento de sangue que tem o valor de testemunho de fé, mas a perfeição do servir com amor é também um cotidiano martírio (Ep. 108, 31, 1; PL 22, 905).

256. Disse Isidoro: O diabo é uma serpente escorregadia; se não se lhe ataca a cabeça (isto é, já à primeira insinuação), ele se infiltra inteiramente, sem que reparemos, no íntimo do coração (Sent., III, 5, 14; PL 83, 663).

LXXIX - As palavras ociosas

257. Disse o Senhor no Evangelho: Eu vos digo: por toda palavra ociosa proferida pelos homens dar-se-á conta no dia do juízo. Cada um será justificado ou condenado por suas palavras (Mt 12,36-37).

258. Disse Gregório: Palavra ociosa é aquela que carece da retidão que a tornaria útil ou de uma razão de justa necessidade (Hom. Ev., 6, 6; PL 76, 1098).

LXXX - A brevidade da vida presente

259. Disse Salomão: Há tempo para nascer e tempo para morrer (Ecl 3,2).

260. Disse Jerônimo: Breve é a felicidade desta vida; pobre, a glória deste mundo; caduco e frágil, o poder temporal. Diz-me: onde estão os reis; onde, os príncipes, os imperadores, os ricos, os poderosos deste mundo? Sim, como uma sombra, passaram; como um sonho, desvaneceram-se; pode-se procurá-los, mas já não existem. As riquezas conduzem ao perigo, muitos ruíram por sua opulência; para muitos, as riquezas causaram a morte.

261. Disse Isidoro: O tecido desfaz-se fio a fio; a vida do homem consome-se dia a dia (Sent., III, 61, 3; PL 83, 736).

LXXXI - As leituras

262. Disse o Senhor no Evangelho: Quem lê, entenda (Mt 24,25).

263. Disse o Senhor no Evangelho: A quem muito foi dado, muito ser-lhe-á pedido (Lc 12,48).

264. Disse Isidoro: Quem quer sempre estar com Deus deve freqüentemente orar e freqüentemente ler. Pois, quando oramos, somos nós que falamos com Deus; quando lemos é Deus quem nos fala. Todo progresso espiritual procede da leitura e da meditação. O que ignoramos, aprendemos na leitura; o que aprendemos, conservamo-lo pela meditação (Sent., III, 8, 2; PL 83, 679)

265. Disse Isidoro: Ninguém pode conhecer o sentido das Sagradas Escrituras senão pela leitura freqüente (Sent., III, 9, 1; PL 83, 680).

Terminado com êxito. Graças a Deus. Amém.


[1] . Os cristãos - é a doutrina paulina (I Cor 12,27; Ef 4,15-16; etc.) - são membros de um corpo místico, do qual Cristo é a Cabeça.

[2] . Como nota Rochais, para boa parte das citações de Jerônimo, Defensor valeu-se de um florilégio anterior, que por vezes altera significativamente o enunciado. Também em algumas sentenças de outros autores há modificações (cfr. Rochais I, 5).

[3] . Jerônimo reafirma a tese - já presente, por exemplo, no Górgias de Platão - de que praticar uma injustiça é, acima de tudo, atentar contra si mesmo, contra sua própria integridade como homem.

[4] . Os números referem-se aos frutos da parábola (cfr. Mt 13,8).

[5] . Iustitia, si modum non habet, in crudelitatem cadit. Profunda constatação que manifesta a insuficiência da crua justiça, "sem modos", sem a flexibilidade de saber adaptar-se aos casos concretos.

Fonte: http://www.hottopos.com/videtur20/jeandefensor.htm

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