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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Missa em Juiz de Fora

A partir desta semana a Santa Missa dominical no rito Latino Gregoriano será celebrada semanalmente, às 15:30, na igreja Santa Rita de Cássia, na Rua Barão do Retiro, 388, Bonfim, Juiz de Fora, MG. O celebrante será o já conhecido reverendíssimo Padre Elílio de Faria Matos Júnior e mais informações podem ser obtidas pelo telefone (32) 3226-1368.

Deo gratias!

domingo, 26 de julho de 2009

Missa Tridentina na Capela do Colégio Arnaldo Supensa!

Atenção

Informamos que a Missa no Colégio Arnaldo (infelizmente), encontra-se suspensa. As Missas Tridentinas, continuam sendo celebradas em BH. Todos 1° e 2° Sábado (Padres de Campos) na Capela Nossa Senhora da Conceição Aparecida e todos 2° e 4° Domingos (Padre Elilio) na Capela do Colégio Monte Calvário.

Colégio Arnaldo

Colégio Arnaldo - Belo Horizonte

domingo, 21 de junho de 2009

EM DEFESA DA MISSA LATINA

missa 

DIETRICH VON HILDEBRAND

Dietrich von Hildebrand, foi um dos filósofos Cristãos mais eminentes do mundo. Professor na Universidade de Fordham, foi chamado pelo Papa Pio XII “doutor da Igreja do Século XX”. Ele é o autor de muitos livros, dentre eles A Transformação em Cristo e A Liturgia e a Personalidade.

Este texto foi transcrito do número de outubro de 1966 da revista TRIUMPH

Os argumentos para a Nova Liturgia têm sido finamente embalados, e agora podem ser apreendidos rotineiramente. A nova forma da Missa é destinada a engajar o celebrante e os fiéis numa atividade comunitária. No passado o fiel assistia à Missa num isolamento pessoal, cada adorador fazendo as suas devoções particulares, ou no melhor dos casos seguindo a celebração num missal. Hoje os fiéis podem visualizar o caráter social da celebração; estão aprendendo a apreciá-la como uma refeição comunitária. Antigamente, os sacerdotes sussurravam uma língua morta, criando uma barreira entre o sacerdote e o povo. Agora todos falam a sua língua vernácula, que tende a unir o sacerdote e o povo um ao outro. No passado o sacerdote falava a Missa com as suas costas voltadas para o povo, criando um ar de rito esotérico. Como hoje o sacerdote se volta para a assembléia, a Missa se tornou uma ocasião mais fraterna. No passado o sacerdote entoava estranhos cantos medievais. Hoje, toda a assembléia canta canções mais fáceis com letras familiares, e se experimenta até arranjos mais regionais. A essência da nova Missa, portanto é isso: está fazendo os fiéis sentirem-se mais ‘em casa’ na casa de Deus.

Além disso, afirmam-se que estas inovações têm a sanção da Autoridade: são representadas como uma resposta obediente ao espírito do Concílio Vaticano Segundo. Isto se diz, não obstante a Constituição do Concílio sobre a Liturgia não ir além de permitir a Missa vernácula em casos onde o bispo local crê ser isso desejável; a Constituição insiste plenamente na manutenção da Missa Latina, e aprova enfaticamente os cantos Gregorianos. Mas os “progressistas” litúrgicos não se impressionam com a diferença entre permitir e impor. Nem hesitam em autorizar mudanças, tais como receber a Sagrada Comunhão em pé, atitude que a Constituição nem sequer menciona. Os progressistas argumentam que estas liberdades podem ser tomadas porque a Constituição, afinal das contas, é apenas o primeiro passo num processo evolucionário. E parece que eles estão conseguindo. É difícil se encontrar uma Missa Latina hoje em dia, e nos Estados Unidos elas estão praticamente desaparecidas. Mesmo uma Missa eventual nos monastérios é feita em língua vernácula, e o glorioso canto Gregoriano é substituído pelas melodias insignificantes.

A minha preocupação não se restringe ao aspecto legal das mudanças. E eu não estou reclamando enfaticamente de que a constituição tenha permitido o uso da língua vernácula para complementar o Latim. O que deploro é que a nova Missa está substituindo a Missa Latina, e que a antiga liturgia está sendo irremediavelmente esmagada e negada pela maioria do Povo de Deus.

Eu gostaria de colocar àqueles que estão indagando várias questões neste desenvolvimento: Será que a nova Missa faz mover, mais que a antiga, o espírito humano – ela evoca o sentido da eternidade? Será que ela ajuda os nossos corações a sair das preocupações da vida diária – dos aspectos puramente naturais do mundo para o Cristo? Será que ela aumenta a reverência, uma apreciação do sagrado?

Certamente essas questões são retóricas e auto-explicativas. Eu as faço porque todos os Cristãos mais preocupados desejarão pesar a sua importância antes de chegar à conclusão sobre os méritos da nova liturgia. Qual é o papel da reverência numa vida Cristã verdadeira, e acima de tudo numa verdadeira adoração Cristã a Deus?

A reverência concede ao ser a oportunidade de falar a nós: A grandeza última do homem é ser capax Dei. A reverência é de capital importância para todos os domínios fundamentais da vida do homem. Ela pode ser chamada perfeitamente “a mãe de todas as virtudes”, pois é a atitude básica que todas as virtudes pressupõem. O gesto mais elementar de reverência é uma resposta para o seu próprio ser. Ela distingue a majestade autônoma do ser da mera ilusão ou ficção; é o reconhecimento da consistência interior e positividade do ser – da sua independência da nossa ambientação arbitrária. A reverência dá ao ser a oportunidade de se abrir, para falar para nós, para fecundar as nossas mentes. Assim a reverencia é indispensável para qualquer conhecimento adequado do ser. A profundidade e plenitude do ser, e, acima de tudo seus mistérios, nunca se revelarão a ninguém senão à mente reverente. Lembrem-se que a reverência é um elemento constitutivo da capacidade de “se maravilhar”, que Platão e Aristóteles alegaram ser condição indispensável para a filosofia. De fato, a irreverência é a principal fonte do erro filosófico. Mas, se a reverência é base necessária para todo conhecimento confiável do ser, é, além disso, indispensável para visualizar e avaliar os valores alicerçados no ser. Apenas o homem reverente que está pronto a admitir a existência de algo maior que ele mesmo, que esteja pronto para se silenciar e deixar o objeto falar para ele – que se abre – é capaz de adentrar no sublime mundo dos valores. Além disso, uma vez reconhecidas as graduações de valores, surge daí uma nova espécie de reverência – uma reverência que responde não apenas à majestade do ser como tal, mas para o valor específico de um ser específico e sua posição na hierarquia dos valores. E esta nova reverência permite a descoberta de ainda outros valores.

O homem reflete o seu caráter receptivo essencialmente como uma pessoa criada somente na atitude reverente; a grandeza última do homem é ser capax Dei. O homem possui a capacidade, em outras palavras, de visualizar algo maior que ele mesmo, ser afetado e fecundado por ele, abandonar-se para ele e por ele – numa simples resposta ao seu valor. Esta habilidade de se transcender distingue o homem de uma planta ou de um animal; este último esforça-se apenas para revelar a sua própria enteléquia. Ora, é somente o homem reverente que pode conscientemente se transcender e assim conformar-se à sua condição humana fundamental e para a sua situação metafísica.

Encontrar-nos-emos melhor com Cristo elevando-nos a Ele ou puxando-O para baixo ao nosso mundo cotidiano?

O homem irreverente, pelo contrário, se aproxima do ser, ou numa atitude de superioridade arrogante ou de uma familiaridade indelicada e convencida. Em ambos os casos, ele é estropiado; ele é um homem que se aproxima tanto de uma árvore ou uma construção que não mais a enxerga. Ao invés de se manter numa distância espiritual apropriada, e manter um silêncio reverente de tal modo que o ser possa falar a sua palavra, ele se intromete, e assim, com efeito, silencia o ser. Em nenhum outro domínio senão na religião é importante a reverência. Como vimos, ela afeta profundamente a relação do homem com Deus. Mas, além disso, ela permeia a religião inteira, especialmente a adoração de Deus. Há uma ligação íntima entre a reverência e a santidade: a reverência nos permite experimentar o sagrado, a elevarmo-nos acima do profano; a irreverência nos cega para o mundo inteiro do sagrado. A reverência, inclusive admiração – de fato, medo e tremor – é a resposta específica para o sagrado.

Rudolf Otto desenvolveu claramente o ponto no seu famoso estudo, A Idéia do Sagrado. Kierkegaard também chama a atenção para o papel essencial da reverência no ato religioso, no encontro com Deus. Os Judeus não tremiam em temor profundo quando o sacerdote levava o sacrifício para Sancta sanctorum? Isaías não foi tocado por um temor piedoso quando viu Jaweh no templo e exclamou, “Ai de mim, estou perdido! Sou um homem de lábios impuros, vivo entre um povo de lábios impuros, e, no entanto, meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos” (Isaías 6:5). As palavras de S. Pedro após a pesca milagrosa. “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador!” (Lucas 5:8), não nos testemunha que, quando a realidade de Deus se revela diante de nós, nós somos tocados pelo medo e reverência? Cardeal Newman mostrou num sermão formidável que o homem que não teme e reverência não conheceu a realidade de Deus.

Quando S. Boaventura escreve em Itinerium Mentis ad Deum que apenas um homem de desejo (como Daniel) pode compreender Deus, ele quer dizer que uma certa atitude da alma deve ser alcançada a fim de compreender o mundo de Deus, onde Ele deseja nos levar.

Este conselho é especialmente aplicável à liturgia da Igreja. O sursum corda – o elevar do nosso coração – é o primeiro requisito para a verdadeira participação na Missa. Nada mais poderia obstruir a confrontação do homem com Deus do que a noção de que nós “vamos ao altar de Deus”como se fôssemos a um encontro social prazeroso e relaxante. Eis porque a Missa Latina com canto Gregoriano, que nos eleva a uma atmosfera sagrada é vastamente superior a uma Missa vernacular com canções populares que nos deixam numa atmosfera profana, meramente natural.

O erro básico da maioria das inovações é imaginar que a nova liturgia traz o santo sacrifício da Missa mais próximo dos fiéis, que, com o despojar de seus antigos rituais a Missa agora entra na substância das nossas vidas. Pois a questão fundamental é: seria melhor encontrarmo-nos com Cristo na Missa elevando-nos a Ele, ou puxando-O abaixo para o nosso mundo vulgar e rotineiro? Os inovadores estariam substituindo uma santa intimidade com Cristo por uma familiaridade indecorosa. A nova liturgia de fato ameaça frustrar a confrontação com o Cristo, pois desencoraja a reverência em face do mistério, impede a admiração, e tudo faz para extinguir o sentido do sagrado. O que realmente interessa, certamente, não é se os fiéis se sentem em casa na Missa, mas se eles são tirados das suas vidas ordinárias para penetrar no mundo de Cristo – quer sua atitude seja a resposta de máxima reverência, quer estejam imbuídos com a realidade de Cristo.

Aqueles que falam com entusiasmo da nova liturgia acentuam o ponto de que através dos anos a Missa perdeu o seu caráter comunitário e se tornou uma ocasião para adoração individualista. A nova Missa vernacular, insistem, restaura o sentido da comunidade ao substituir devoções particulares com a participação comunitária. Porém, eles se esquecem que há diferentes níveis e tipos de comunhão com outras pessoas. O nível e a natureza de uma experiência comunitária é determinado pelo tema da comunhão, o nome ou causa para o qual os homens se reúnem. Quanto mais elevado e benigno o tema representado, mais sublime o nome e a causa para a qual os homens se reúnem e mais profunda é a comunhão. O etos e a natureza de uma experiência comunitária no caso de uma emergência nacional é obviamente radicalmente diferente de uma experiência comunitária de uma festa de coquetel. E certamente a diferença mais notável nas comunidades será encontrada entre a comunidade cujo tema é sobrenatural e uma comunidade cujo tema é meramente natural. A atualização das almas dos homens que são verdadeiramente tocados por Cristo é a base da comunidade única, uma comunhão sagrada, uma comunidade cuja qualidade é incomparavelmente mais sublime que de uma comunidade natural. A comunhão autêntica dos fiéis, cuja liturgia da Quinta-feira Santa expressa tão bem nas palavras congregavit nos in unum Christi amor é somente possível como fruto da comunhão eu-Tu com o próprio Cristo. Apenas uma relação direta com o Deus-Homem pode realizar esta união sagrada entre os fiéis.

O “nós experimentamos” despersonalizante é uma perversa teoria da comunidade

A comunhão em Cristo não tem nada de auto-asserção encontrada nas comunidades naturais. Ela respira a Redenção. Ela liberta os homens de toda auto-centralização. Entretanto, tal comunhão não despersonaliza enfaticamente o indivíduo; longe de dissolver a pessoa no desfalecimento cósmico, panteísta tão recomendado a nós nestes dias, ela atualiza o verdadeiro eu da pessoa de um modo único. Na comunidade de Cristo não pode existir o conflito entre a pessoa e a comunidade que está presente em todas as comunidades naturais. Assim esta experiência comunitária sagrada está realmente em guerra com o ‘nós experimentamos’ despersonalizante encontrado nas assembléias das missas e reuniões populares que tendem a absorver e evaporar o indivíduo. Esta comunhão em Cristo que era tão plenamente viva nos primeiros séculos Cristãos, experimentada por todos os santos e que encontrou uma expressão sem igual na liturgia agora sob ataque – esta comunhão nunca considerou a pessoa individual como um mero segmento da comunidade, ou como um instrumento para servi-la. Em relação a isso vale a pena observar que a ideologia totalitária não está sozinha no seu esforço de sacrificar o indivíduo ao coletivo; algumas das idéias cósmicas de Teilhard de Chardin, por exemplo, implicam no mesmo sacrifício coletivista. Teilhard subordina o indivíduo e sua santificação ao suposto desenvolvimento da humanidade. Num tempo em que esta perversa teoria da comunidade é abraçada até por muitos Católicos, há suficiente razões urgentes para insistir vigorosamente sobre o caráter sagrado da verdadeira comunhão em Cristo. Eu proponho que a nova liturgia seja julgada com o seguinte parâmetro: Ela contribui para a comunidade sagrada autêntica? Admitindo que ela se esforça por um caráter comunitário; será que esse caráter é desejável? É uma comunhão alicerçada na introspecção, contemplação e reverência? Qual das duas – a nova Missa ou a Missa Latina com o canto Gregoriano evoca estas atitudes da alma mais efetivamente, e assim permite a comunhão mais profunda e verdadeira? Não está claro que freqüentemente o caráter comunitário da nova Missa é puramente profano, que, como acontece em outras reuniões sociais, a sua combinação de relaxamento casual e agitação sentimental impedem uma confrontação reverente e contemplativo com o Cristo e com o mistério inefável da Eucaristia?

Sem dúvida a nossa época está impregnada pelo espírito de irreverência. É vista numa noção distorcida de liberdade que exige direitos enquanto rejeita obrigações, que exalta a auto-indulgência, que recomenda “deixe-se ir”. O habitare secuni dos Diálogos de S. Gregório – a morada na presença de Deus – que pressupõe reverência, é considerada hoje afetada, pomposa ou servil. Mas a nova liturgia não é um compromisso com este espírito moderno? De onde vem a depreciação da genuflexão? Por que a Eucaristia deveria ser recebida de pé? O ajoelhar-se não é na nossa cultura, a expressão clássica da reverência adorante? O argumento de que na refeição devemos permanecer em pé ao invés de ajoelhar é pouco convincente. Ora, esta não é uma postura natural para comer: hoje sentamos, e no tempo de Cristo, deitaríamos. Porém, mais séria é uma concepção especificamente irreverente da Eucaristia ao salientar o seu caráter como sendo uma mera refeição à custa do seu caráter único de um mistério sagrado. Enfatizar a refeição à custa do sacramento certamente significa uma tendência para obscurecer a santidade do sacrifício. Esta tendência é aparentemente determinável pela crença infeliz de que a vida religiosa tornar-se-á mais vívida, mais existencial se estiver imersa na nossa vida diária. Mas isto é correr o perigo de absorver o religioso no mundano, obliterando a diferença entre o sobrenatural e o natural. Temo que isso represente uma intrusão inconsciente do espírito naturalístico, do espírito mais plenamente expresso no imanentismo de Teilhard de Chardin.

Ora, por que a genuflexão às palavras et incarnatus est no Credo foi abolida? Não era esta uma expressão nobre e bela da reverência adorante enquanto se professa o mistério indelével da Encarnação? Qualquer que seja a intenção dos inovadores, eles certamente criaram o perigo, se somente psicológico, de diminuir a ciência e admiração dos fiéis para o mistério. Há ainda outra razão que nos faz acautelar em fazer as mudanças na liturgia e que não são estritamente necessárias. Mudanças frívolas ou arbitrárias ameaçam erodir um tipo especial de reverência: pietas. A palavra Latina, como a alemã Pietaet, não possui um equivalente em Inglês, mas pode ser entendida como um respeito consistente à tradição; o respeito que nos foi legado pelas gerações anteriores; fidelidade aos nossos antepassados e as suas obras. Notem que pietas é um tipo derivativo da reverência, e assim não deve ser confundida com a reverência primária, que descrevemos como uma resposta para o próprio mistério do ser, e uma resposta última a Deus. Segue-se que o conteúdo de uma dada tradição não corresponde ao objeto da reverência primária, não merece a reverência derivativa. Assim, se uma tradição contém elementos perversos, tais como o sacrifício de seres humanos no culto dos Astecas, então aqueles elementos não devem ser considerados com pietas. Mas este não é o caso Cristão. Aqueles que idolatram a nossa época, que vibram para tudo que é moderno simplesmente porque é moderno, que acreditam que em nossos dias o homem finalmente “amadureceu”, a estes falta pietas. O orgulho destes “nacionalistas temporais” não é apenas irrelevante, mas incompatível com a fé verdadeira. Um Católico deveria considerar a sua liturgia com pietas. Ele deveria reverenciar, e portanto, temer abandonar as orações, posturas e músicas que foram aprovadas por tantos santos através da era Cristã e legadas a nós como uma herança preciosa. Para não ir mais longe: a ilusão de que podemos substituir o canto Gregoriano com seus hinos e ritmos inspirados, por uma boa, senão melhor música, trai uma auto-confiança ridícula e falta de auto-conhecimento. Não vamos esquecer que através da história do Cristianismo o silêncio e a solidão, contemplação e introspecção, foram considerados necessários para alcançar uma verdadeira confrontação com Deus. Isto não é apenas um conselho da tradição Cristã, que deve ser respeitado por causa de pietas; é enraizado na natureza humana. A introspecção é base necessária para a verdadeira comunhão da mesma maneira que da contemplação provém base necessária para a verdadeira ação na vinha do Senhor. Um modo superficial de comunhão – a camaradagem jovial de um acontecimento social – leva-nos para a periferia. Uma comunhão Cristã verdadeira leva-nos para as profundezas espirituais.

O caminho para uma verdadeira comunhão Cristã: Reverência... Introspecção... Contemplação.

Certamente devemos deplorar devoções excessivamente individualistas e sentimentais e reconhecer que muitos Católicos as praticaram. Todavia o antídoto não é uma experiência comunitária como tal – não mais do que a cura da pseudo-contemplação é a atividade como tal. O antídoto é encorajar a verdadeira reverência, uma atitude de verdadeira introspecção e devoção contemplativa a Cristo. Somente essa atitude pode-se ter lugar numa verdadeira comunhão em Cristo. As leis fundamentais da vida religiosa que governa a imitação de Cristo, a transformação em Cristo, não mudam de acordo com os ambientes e hábitos do momento histórico. A diferença entre uma experiência comunitária superficial e uma experiência comunitária profunda é sempre a mesma. A introspecção e adoração contemplativa de Cristo – que somente a reverência torna possível – será a base necessária para uma verdadeira comunhão com outros em Cristo em qualquer era da história humana.

domingo, 14 de junho de 2009

Outra machadada na missa nova: carta de um ortodoxo à Federação Internacional Una Voce

 

Vamos todos praticar o ecumenismo do Vaticano II? Vamos ser tolerantes e abertos; liberais e modernos; dialogantes e compreensivos? Sim? Então vamos ver o que um ortodoxo pensa da «purificação das liturgias» (que é como quem diz da revolução litúrgica empreendida pelos maçons e os protestantes). Não nos esqueçamos que temos que ser ecuménicos! Precisamos ouvir o que dizem os ortodoxos para podermos empreender um ecumenismo autêntico com eles, não é?


Com a palavra um anónimo ortodoxo, um nosso irmão separado que procuraremos ouvir atentamente, para agir em conformidade com as suas expectativas e aspirações relativamente à Igreja Católica (ah pois, não são só os hereges protestantes que têm o direito a pôr e dispor na nossa doutrina e na nossa liturgia):
Carta de um anónimo ortodoxo à Federação Internacional Una Voce
Fonte:
Foederatio Internationalis Una Voce
Tradução minha – Magdália (Tradição Católica)

 


Caríssimo Sr. Presidente:
Espero que entenda que não é intenção da Igreja Ortodoxa interferir em assuntos que concernem ao Bispo de Roma.
Na medida em que a Sagrada Liturgia é a oração pública da Igreja, na qual e através da qual o Santíssimo Redentor continua a rezar e a oferecer-se ao Pai Eterno em sacrifício, a Igreja Ortodoxa admira o objectivo da Foederatio Internationalis Una Voce.


Não há dúvida de que é o sensus fidelium [nunca melhor dito!!!] que vos impulsiona a promover a forma extraordinária do Rito Romano, com o seu comprovado proveito espiritual para os actuais católicos da Igreja Romana, tal como para inúmeros santos no passado.


Devemos admitir que alguns pontos causam perplexidade e não pouca preocupação a muitos ortodoxos.
Primeiro, e contrariamente à crença popular, as mudanças litúrgicas não são inconcebíveis na Igreja Ortodoxa. Contudo, e dado que todas as mudanças litúrgicas devem sempre permitir a Nosso Senhor rezar na Sua Igreja em espírito e verdade e, por conseguinte, de modo apropriado, hão-de dar-se [essas mudanças litúrgicas] sempre de forma dinâmica e a partir da riqueza e vitalidade espiritual e intelectual (intus-legere) da sede (local ou universal) que realiza tal mudança. Não se pode, então, planear as mudanças litúrgicas; de outro modo, estas [as mudanças litúrgicas] correriam o risco de ser mais a expressão da duvidosa marca do genius temporis do que a vontade do Filho de Deus de rezar na Sua Igreja e através dela, ao Pai Eterno, in spiritu et veritate.


Em segundo lugar, o éthus teológico geral e pastoral particular que subjaz à forma tradicional do Rito Romano, é idêntico ao que informa a Divina Liturgia da Igreja Ortodoxa [muita atenção aqui, ao que vem a seguir, porque é muito importante para o ecumenismo!!! Lol]. Portanto, muitos ortodoxos temem que possam [a Igreja católica e os católicos] considerá-los como extraordinários quando se estabeleça a plena comunhão entre as duas Igrejas. [daqui se depreende que, mais atrás, quando ele fala do rito romano, refere-se à missa tradicional, e não à missa nova! De contrário, não seriam jamais considerados extraordinários. Então é a missa tradicional e não a fabricação litúrgica que é semelhante à Divina Liturgia ortodoxa. Machadada nos simpatizantes orientais que dizem que a missa nova é mais parecida com a liturgia oriental, machadada no ecumenismo vaticanesco!!!]


Não importa como cada um interprete o termo «extraordinário», com o seu significado comum ou canónico; o facto é que a Igreja Ortodoxa não considera que a sua oração pública [a sua liturgia] seja extraordinária. Deste modo, ela [a Igreja ortodoxa] aprecia todos os esforços desinteressados do Papa Bento XVI, dos cardeais Cañizares Llovera e Castrillón Hoyos, do arcebispo Ranjith e de Vossa Excelência, Sr. Presidente, no sentido de promover uma forma de ecumenismo no mais profundo sentido do termo [e agora, inimigos da Missa de sempre e amigos do ecumenismo irenista e relativista?!!!]


Como sabe, nas últimas décadas, o Ocidente, particularmente, padeceu de uma das mais graves crises culturais de todos os tempos. Quando uma crise cultural e a falta de autênticos grandes teólogos, como os padres da Igreja, convergiram num único fenómeno, a Igreja, historicamente, foi sempre renitente em efectuar mudanças que alterem a sua experiência comprovada. Mais ainda, durante estes períodos de crises, o Senhor suscita, na Sua Igreja, grandes santos: papas, bispos locais, clérigos, religiosos e leigos que propõem uma renovada vitalidade através de instituições especiais e estruturas eclesiais para apoiar a Igreja enquanto dura a crise.


A Igreja Ortodoxa tratou satisfatoriamente os seus próprios problemas em matéria litúrgica. Talvez algumas das soluções mais práticas possam ser úteis também para ajudar a Igreja Católica.
(por desejo expresso do remetente, omitiu-se o seu nome, a sua identificação)

sábado, 13 de junho de 2009

Porque o Êxodo em massa ao Protestantismo?

Por John Vennari

Quando o Papa Bento XVI veio ao Brasil em Maio passado (2007), havia notícias em todo o mundo de que um dos problemas mais críticos que ele deveria abordar na América do Sul era o do êxodo em massa dos Católicos para diversas formas de Protestantismo.

Na época, os jornais reportaram:

1) Os ministros Protestantes superavam na proporção de 2 para 1 os padres Católicos;

2) A Igreja esperava de 300 a 400 mil pessoas para a Missa ao ar livre do Papa Bento no Santuário de Aparecida, mas somente 150 mil compareceram;

3) Por volta do mesmo horário, os Protestantes faziam seu evento anual “Marcha para Jesus”, ao qual compareceram 1.5 milhões de pessoas;

Creio que foi o Cardeal Hume, da Sagrada Congregação do Clero, que disse que na América do Sul havia uma hemorragia de Católicos para o Protestantismo.

O que desejo fazer esta manhã é abordar o que acredito serem algumas das razões deste êxodo em massa estar acontecendo, como também, com todo respeito, dar algumas recomendações do que pode ser feito sobre isso.

Com relação às razões: vou listar três razões, mas não necessariamente em ordem cronológica.

A primeira razão:
Temos que reconhecer que a América do Sul tem sido alvo do Protestantismo desde os anos 50. O Padre John Harden, um teólogo Jesuíta americano, conta que em 1957, participava de um encontro do Conselho Mundial de Igrejas, em um cargo oficial para o Vaticano. Nessa reunião, as lideranças do Conselho Mundial de Igrejas incitavam os missionários Protestantes a focar agressivamente a América do Sul com uma campanha de proselitismo a fim de aumentar as conversões. O CMI estava ciente de que a América do Sul era predominantemente Católica, e o objetivo do CMI era romper a força da Igreja Católica na América Latina.

A segunda razão:
O Sr. Nelson Rockfeller, o multi-milhonário globalista e humanista, publicou uma reportagem sobre a América Latina em 1969/1970. Nessa reportagem Rockfeller diz que na América Latina a Igreja Católica NÃO era uma aliada dos Estados Unidos – e que “nós” deveríamos portanto promover várias seitas Evangélicas não-Católicas na América Latina.

E acreditem; Rockfeller foi capaz de fornecer enormes quantias de fundos para espalhar o Protestantismo na América Latina.

Portanto, essas duas informações indicam que a América Latina foi alvo de uma campanha agressiva, organizada e rica do proselitismo Protestante para enfraquecer a Igreja Católica; e para afastar almas da verdadeira Fé.

E isso nos leva à terceira razão:

Temos que reconhecer que essa campanha não poderia ter sido bem sucedida se a Igreja Católica na América do Sul opusesse forte resistência; se o clero e os laicos tivessem simplesmente desenrolado a bandeira da Igreja e travado sua própria campanha, corajosa  de contra-reforma.

Mas algo aconteceu que impediu que muitos de nossos Clérigos influentes abandonassem o conceito de Igreja militante; que muitos de nossos Clérigos tivessem vergonha de se engajarem em atividades de contra-reforma. E o mais significativo evento que efetivamente matou a verdadeira militância Católica, que matou as atividades contra-reforma, e que deixou a Igreja aberta aos saques do  Protestantismo foi o Vaticano II e o novo espírito do ecumenismo.

Este novo espírito de colaboração ecumênica com o Protestantismo efetivamente esmagou as trincheiras de proteção Católica contra os erros do Protestantismo, e os erros do naturalismo. Esse novo espírito também acabou com os pronunciamentos dos Anáthemas. Não queremos condenações, mas sim, queremos simplesmente promover os aspectos positivos da Fé.

Na verdade isso é contrário ao espírito do Próprio Cristo. Sabemos, ao ler o Evangelho, que Nosso Senhor não fez só um ou outro: Ele fez ambos: Ele pronunciou a verdade e a bondade da Fé Católica. Ele disse aos seus apóstolos: “Vão em frente e preguem a todas as nações, batizando-as em Nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Mas ele também ameaçou os excomungados: Aquele que acreditar e for batizado será salvo; aquele que não crer será condenado”.

O falecido Dr. Romano Amerio, grande teólogo do Vaticano II, que era admirado pelo Papa Bento XVI, disse o seguinte a respeito do novo espírito de não condenação dos erros:

“O estabelecimento do princípio da misericórdia em contrapartida ao da severidade, ignora o fato de que na mente da Igreja, a condenação dos erros é em si própria um ato de misericórdia, uma vez que, apontando os erros, aqueles que os estão cometendo são corrigidos e outros serão impedidos de caírem neles”.

Agora, o novo espírito ecumênico teve um efeito danoso na catequese Católica. Desde a época do Conselho, era considerado ofensivo aos Protestantes ensinar que a Igreja Católica é a única e verdadeira Igreja. Como resultado, uma das primeiras coisas que desapareceu do treinamento de nossos jovens Católicos, foi a sólida apologética Católica de que só a Igreja Católica é a única e verdadeira Igreja estabelecida por Nosso Senhor.

E, como resultado, temos agora duas gerações completas de Católicos a quem – de maneira geral – não foram ensinadas esta verdade. E atrevo-me a dizer: temos agora duas gerações completas de seminaristas a quem não foram ensinadas esta verdade.

E, com sua permissão, eu falo com experiência. Nasci em 1958. Estudei 13 anos em escola Católica – ou seja; jardim da infância, primário e colegial. Estava na escola durante o Vaticano II e as reformas subseqüentes. Nunca ouvi falar em Apologéticas Católicas até os 22 anos de idade.

Na escola nunca recebi ensinamentos que a Igreja Católica é a única e verdadeira Igreja de Jesus Cristo.

E lamento dizer que, se tivesse acreditado no que me foi ensinado em 12 anos de escola Católica, já teria perdido minha fé há muito tempo. Foi-nos ensinado um evangelho mais social: um evangelho suave e efeminado, sem dentes nem espinha dorsal.

Conheci a minha fé primeiramente através de livros antigos que meus pais tinham em casa, e depois através de intensas pesquisas e estudos.

Portanto, com o novo espírito ecumênico que foi lançado pelo Conselho, muitos Clérigos não mais se opuseram ao Protestantismo, não mais ensinaram que a Igreja Católica era a única e verdadeira Igreja estabelecida por Nosso Senhor. E, convenhamos, sem essa educação e treinamento firmes, os laicos foram abandonados sem as defesas que precisavam para resistir ao agressivo avanço do Protestantismo.

Uma Vibrante Campanha de Contra-Reforma

Agora, como recomendação do que pode ser feito, acredito que o que necessitamos desesperadamente é de uma forte campanha de ensinamentos Católicos aos laicos, que reitere a verdade de maneira descompromissada, de que a Igreja Católica é a única e verdadeira Igreja estabelecida por Cristo, e que um Católico que abandona a fé Católica para seguir uma seita Protestante não salvará sua alma. O Católico que abandona o Catolicismo pelo Protestantismo poderá – de maneira objetiva – cair sob os solenes anátemas do Concílio de Trento.

Aderir ao Protestantismo é abandonar o Sacramento da Confissão.

O Concílio de Trento prega infalivelmente: “Se alguém disser que a Penitência na Igreja Católica não é um sacramento verdadeiro e correto, instituído por Cristo Nosso Senhor para reconciliar os fiéis com Deus, todas as vezes que caem em pecado após o batismo, que ele seja excomungado”.

Aderir ao Protestantismo é abandonar a crença na Presença Real de Nosso Senhor nos Santos Sacramentos.

O Concílio de Trento prega infalivelmente: “Se alguém negar que no Sacramento da Sagrada Eucaristia estão contidos verdadeiramente, realmente e substancialmente, o corpo e o sangue junto com a alma e divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, e consequentemente o Cristo completo; mas disser que Ele está presente somente como um sinal, ou figura, ou virtude, que ele seja excomungado.

Aderir ao Protestantismo é abandonar a crença no Sagrado Sacrifício da Missa

O Concílio de Trento prega infalivelmente: “Se alguém disser que o sacrifício da missa é somente um sacrifício para louvar ou dar graças; ou que é uma mera comemoração do sacrifício consumado na cruz, mas não um sacrifício
Conciliatório; ou que somente a pessoa que o recebe o aproveita; e que não deve ser oferecido aos vivos e aos mortos pelos seus pecados, penas, satisfações, e outras necessidades; que ele seja excomungado.

Como disse, o Católico que abandona o Catolicismo pelo Protestantismo não pode evitar – de maneira objetiva – de cair sob os solenes anátemas do Concílio de Trento. Ele não salvará sua alma.

Esta é a realidade de nossa Fé Católica que deve ser ensinada, não de maneira abrupta ou beligerante, mas ensinada firme e amorosamente – sempre mostrando às pessoas o grande amor de Deus em Seu sofrimento e morte na Cruz por nós; e Seu amor em criar uma Igreja e Seu amor em dar-nos sete sacramentos. A operação da graça não muda, e as experimentadas e verdadeiras apologéticas Católicas podem ainda fazer milagres pela salvação das almas.

Portanto, quero revisar alguns pontos das apologéticas Católicas normais. As considerações que aqui faço podem ser úteis para os seus.

Quero deixar claro que nessas apologéticas, estamos falando sobre posições, e não sobre pessoas. Estamos olhando a posição Católica versus a posição Protestante. Tenho certeza que todos nós conhecemos Protestantes que são modelos de virtude natural, e tenho certeza que todos conhecemos Católicos que não vivem de acordo com as normas de bondade e justiça que nossa Fé requer. Mas pessoas não contam nas Apologéticas, somente as posições.

E começaremos olhando para o princípio fundamental Protestante “Somente a Bíblia”.

Bíblia: A Única Regra da Fé?

O Protestante acredita estar em solo firme, pois diz que acredita e aceita a Bíblia e somente a Bíblia, como única regra da Fé.

Esta é a doutrina central Protestante da Sola Scriptura – a Bíblia sozinha é a única regra de Fé. É a Bíblia e somente a Bíblia que é o Pilar e Suporte da verdade.

Portanto a primeira pergunta a fazer é: quão estável é este suporte Protestante? O Protestante está realmente em terra firme quando diz que a Bíblia sozinha é a única regra de Fé?

Há um conhecido convertido ao Catolicismo nos Estados Unidos chamado Scott Hahn – um ministro Protestante que tornou-se Católico. Parte de sua história de conversão nos dá boas respostas a esta questão (Eu pessoalmente gostaria que o Dr.Hahn tivesse se tornado um pouco mais tradicional após sua conversão, mas isso não diminui a força da história)

Dr. Hahn foi ministro Presbiteriano, que, em seus dias de seminarista, era veementemente anti-Católico. Subsequentemente, como ministro, fez um tremendo estudo das Escrituras, pois queria que seus sermões fossem impregnados das Escrituras.

Mas, quanto mais ele estudava as Escrituras, mais ele percebia que as verdades nas quais os Católicos acreditavam, particularmente manifestadas nos ensinamentos dos antigos Pais da Igreja – São Jerônimo, São Basílio, Santo Agostinho - eram firmemente enraizadas nas Sagradas Escrituras. Esses Pais da Igreja eram Católicos. Cada um deles celebrava o Santo Sacrifício da Missa!

Não vou contar toda sua história, mas quero ressaltar um evento crucial que foi decisivo para sua conversão. Foi algo que ocorreu enquanto ele lecionava.

Lá estava ele, um Ministro Presbiteriano – um Professor Presbiteriano – ensinando a jovens adultos.

E um dos mais inteligentes alunos da classe perguntou, “Dr. Hahn, o senhor sabe a maneira como nós Presbiterianos acreditamos que somente a Bíblia é a única regra da fé Cristã, e nós seguimos a Bíblia e somente a Bíblia – e não a Bíblia e a Tradição?”

Hahn disse “sim”

O aluno disse, “Bem, e em que lugar da Bíblia isso é dito?”

Hahn respondeu, “Que pergunta mais estúpida!”

Assim que falou isso Hahn disse a si mesmo, “Você nunca falou assim com um aluno antes. Você nunca respondeu a um aluno insultando-o.”

Mas a razão pela qual Hahn respondeu daquela maneira foi porque ele sabia que não tinha uma resposta.

Hahn disse, “Bem, em Timóteo 2o., 3:16”

Mas o estudante retrucou, “Não, Timóteo 2º., 3:16 diz ‘Toda Escritura, inspirada por Deus, deve ser aproveitada para ensinar, para reprovar, para corrigir, em instrução, em justiça’. Diz que as Escrituras são úteis! Não diz que só devamos acreditar na Bíblia!”

Então Hahn disse, “Bem, veja o que Nosso Senhor diz sobre a Tradição em Mateus 15”.

Mais uma vez o aluno respondeu, “Bem, nada! Nosso Senhor não estava condenando toda Tradição, mas Ele estava condenando a tradição corrupta dos Fariseus”.

Então, após mais algumas tentativas frustradas de citar as Escrituras, Hahn anunciou que a aula chegara ao final e que poderiam continuar na próxima semana.

Agora, Dr. Hahn percebeu que não havia respondido à pergunta do aluno. E o aluno sabia que sua pergunta não tinha sido respondida.

Hahn foi para casa suando frio aquela noite e pensava, “Qual é a resposta para aquela pergunta?”

Ao chegar em casa telefonou para aqueles que considerava serem os maiores estudiosos Protestantes das escrituras nos Estados Unidos. E perguntou-lhes: “Pode ser que eu tenha dormido durante esta parte do meu treinamento no seminário, mas: vocês sabem a maneira como nós Protestantes acreditamos somente na Bíblia, e não nas Escrituras e Tradições – Onde na Bíblia isso é citado?”

E cada um desses estudiosos Protestantes disse: “Que pergunta mais estúpida!”

Então cada um desses professores invocou os mesmos versículos que Hahn tinha invocado: “Bem, há Timóteo 2º., 3:16” Ao que Hahn respondia como seu aluno, “Não esse versículo só diz que as Escrituras são úteis, e não que sejam a única regra de Fé”.

Cada um dos professores também disse, “Ora, existem as palavras de Nosso Senhor em Mateus 15”.

E Hahn retorquiu, “Não, Nosso Senhor não estava condenando toda a tradição, mas somente a tradição corrupta dos Fariseus.” E disse mais, “São Paulo nos instruiu em Tessalonicences  2º., 2:14 para resistirmos e “mantermos as tradições que aprendemos, seja por palavras, ou por nossas epístolas” (Thes. 2, 2:14).

E esses grandes sábios, esses mais eminentes teólogos Protestantes ficaram sem resposta.

Foi aí que Scott Hahn percebeu que o princípio central, fundamental do Protestantismo – somente a Bíblia – não é Bíblico!

Esta é uma tremenda contradição, e uma das razões pelas quais nunca poderia ser um Protestante. O Protestantismo alega que a base de seu sistema de crença é somente a Bíblia, mas o princípio de “Somente a Bíblia” é um princípio não bíblico; é um princípio que não é encontrado em nenhum lugar da Bíblia.

Sem Base na História

Em segundo lugar, o princípio de que “somente a Bíblia como única regra de Fé”, não pode ser um verdadeiro princípio do Cristianismo pois não tem base na história do Cristianismo.

Como os primeiros cristãos aprenderam sua Fé?

Como a Fé era comunicada a eles?

Como foi que Nosso Senhor pediu aos Apóstolos para comunicarem a Fé, as verdades que devem ser acreditadas para a salvação?

Ele ordenou: “vão em frente e ensinem todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Ele disse a Pedro, “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja” (Mat. 16:18). E São Paulo ensinou claramente que é a Igreja que é o pilar e o mastro principal da verdade (Tim. 1, 3:16).

Nosso Senhor deu a Pedro a autoridade, e incumbiu os Apóstolos a pregar em Seu nome. “Como meu Pai me enviou eu também vos envio”. (João 20:21).

Nosso Senhor não escreveu livros. Tampouco disse aos seus Apóstolos: “Sentem-se e escrevam Bíblias e as espalhem sobre a terra, e que cada homem leia sua bíblia e julgue por si mesmo”, o que é a essência do Protestantismo – cada indivíduo lê a Bíblia e decide para si quais são as verdades do Cristianismo. Não! Como disse, Nosso Senhor fundou uma Igreja para pregar em Seu Nome: “Aquele que os escutam, é a Mim que está escutando, aquele que os rejeitam é a Mim que rejeitam” (Lucas 10:16).  “E aquele que não ouvir a Igreja, seja considerado pagão e pecador público”. (Mat: 18:17)

A Igreja e a Fé existiam antes do Novo Testamento. Somente cinco dos doze Apóstolos escreveu algo! A Igreja estava ensinando, administrando sacramentos, os Apóstolos estavam perdoando pecados, a Igreja fazia mártires de sete a dez anos antes que uma só letra fosse escrita num pergaminho.

A Igreja estava espalhada por todo o Império Romano antes que uma só palavra do Novo Testamento fosse escrita. Tínhamos santos e mártires Católicos antes de termos Evangelhos e Epístolas.

O primeiro Evangelho foi escrito por São Mateus, cerca de sete anos após Nosso Senhor ter deixado este mundo. O próximo foi o Evangelho de Marcos, escrito 10 anos após Cristo ter subido aos céus. O Evangelho de São Lucas foi escrito 25 anos após a Ascenção de Nosso Senhor, e o Evangelho de João foi escrito 63 anos após Nosso Senhor ter deixado esta terra. O Apocalipse foi escrito 65 anos após a Ascenção de Nosso Senhor. E tudo isso foi escrito, como reitera o Papa Leão XIII, sob a Divina Inspiração.

Sendo assim, como é que os primeiros Cristãos se tornaram Cristãos e salvaram suas almas? Lendo a Bíblia? Não, pois não havia o Novo Testamento.

Vimos que o Novo Testamento nem havia sido terminado 65 anos após Nosso Senhor Ascender ao Céu.

Mas isto não é tudo.

Por mais de trezentos anos, a Igreja não tinha todos os livros da Bíblia compilados em um só livro.

E isto nos leva diretamente à questão da Autoridade.

Pois se você me der um livro – chamado A Bíblia. E você me disser que tudo naquele livro é a infalível palavra de Deus, a primeira coisa que vou perguntar é, “Quem disse isso?”

“Quem disse isso?”

Os livros não se escrevem sozinhos. Livros de múltiplos autores não se compilam sozinhos em um grande livro, e depois se auto-proclamam terem sido escritos pela palavra de Deus.

Não! Alguém, ou algum núcleo social, a quem Deus outorgou a autoridade de ensinar; de ensinar em Seu Nome; de ensinar infalivelmente, que pode me dizer isso. Somente uma autoridade como essa pode me dizer que esse livro é a palavra infalível de Deus.

E foi a Igreja Católica, no Concílio de Cartago em 397 DC, através da orientação do Espírito Santo, que determinou de uma vez por todas, qual era o Cânone do Novo Testamento; que decidiu que livros foram divinamente inspirados e quais não foram.

Vocês se lembram que existiam vários outros “Evangelhos” e “Epístolas” em circulação; alguns escritos por homens bons e santos, mas que não foram palavras inspiradas por Deus (por exemplo, as Epístolas de São Clemente). Outros foram simples fabricações; como os chamados Evangelho de Pilatos ou o Evangelho de Nicodemos.

E foi a Igreja Católica que decidiu quais livros foram inspirados divinamente e quais não foram. Foi a Igreja Católica que juntou o Novo Testamento, agregou-o ao Velho Testamento, e entregou a Bíblia ao mundo. Foi a Igreja Católica que produziu a Bíblia, não foi a Bíblia que produziu a Igreja.

Portanto, como disse, o princípio Protestante de “Somente a Bíblia” não tem base na história. A religião Católica é a única religião que pode responder à pergunta “Quem disse isso?” – ou seja “quem disse que a Bíblia é a palavra escrita de Deus?”

E apareceu Gutenberg!

Mas o problema não pára aí. Pois se é necessário que eu leia a Bíblia para ser salvo, se a fé vem somente ao lermos a Bíblia, então a fé só vem pela intervenção da palavra impressa, que só foi inventada em meados do século 15 por Johannes Gutenberg.

Antes disso, todos os livros eram copiados manualmente. Era uma tarefa laboriosa, demorada e dispendiosa. Não era possível dar uma cópia da Bíblia a cada Católico, nem mesmo a cada família Católica.

Somente tivemos Bíblias distribuídas amplamente há pouco mais de 400 anos. Então o que acontecia com os milhões de Cristãos que viveram antes disso, que viveram toda a sua vida sem nunca terem visto uma Bíblia ou um texto impresso do Novo Testamento?

Então, a teoria de “Somente a Bíblia” – ou seja, de que seguindo só a Bíblia como caminho da salvação – pressupõe que a Bíblia deveria ter estado disponível a todos os homens desde a fundação do Cristianismo. Bem, já vimos que esse não foi o caso. Vimos que os livros do Novo Testamento foram escritos 65 anos após Nosso Senhor ter deixado a terra. E vimos que o Mundo Cristão não teve uma Bíblia completa e compilada antes de 397 DC; e que nem estavam disponíveis para distribuição em massa até meados do século 15. Portanto, o princípio “Somente a Bíblia” não tem base na história.

Conflitos com a Razão

Finalmente, o princípio de Somente a Bíblia é contrário à razão. Pois se você me der um livro e me falar que tudo o que é escrito nesse livro é a Palavra de Deus, e que devo lê-lo e acreditar Somente na Bíblia para a salvação, a primeira coisa que vou dizer-lhe é “Ótimo, então deixe-me em paz. Me dê essa Bíblia e eu decido qual é o verdadeiro sentido das Escrituras”.

Esse é essencialmente o sistema Protestante. Se você for a uma congregação Luterana, você estará vendo só a interpretação particular de Martinho Lutero sobre a Bíblia.

E se for a uma congregação Metodista, você estará vendo a interpretação particular da Bíblia por um indivíduo chamado John Wesley.

E se for a uma congregação Presbiteriana, você verá só a interpretação particular de John Knox, o fundador desse grupo.

E se você for membro de uma denominação Protestante, não há razão para que se levante e diga ao pregador; ”Irmão, eu acredito que não fales a verdade. Sua interpretação está errada! Eu encontrei o significado correto”.

E se você for muito zeloso e eloquente suficiente, e determinado, você poderá começar a pregar, e você poderá começar sua própria congregação Protestante – pois foi assim que todas elas começaram.

E percebemos que isso é consequencia da interpretação particular da Bíblia. Pois, de acordo com o sistema Protestante – que todo homem que lê a Bíblia e chega a sua própria interpretação – a conclusão lógica disso é que poderiam haver tantas religiões Protestantes tanto quanto forem os indivíduos. Para eles não há uma igreja estabelecida por Cristo para ensinar em Seu nome! Não existe uma autoridade estabelecida por Deus para dizer-me que talvez eu tenha cometido um erro!

Esta é uma das razões pelas quais eu nunca poderia ter sido um Protestante. Vejo que o princípio de “Somente a Bíblia” é contrário ao das Escrituras, não tem base histórica e é contrário à razão: pois termina em milhares de interpretações conflitantes das Escrituras, e é contrário ao que Nosso Senhor estabeleceu para o que seria Sua Igreja.

A Bíblia Me Tornou Católico!

Um dos muitos Protestantes que finalmente descobriram esta verdade foi um homem chamado Paul Whitcomb.

Paul Whitcomb era um ministro Protestante cujos intensos estudos das Sagradas Escrituras o fizeram aceitar a Igreja Católica como a única verdadeira Igreja edificada na Bíblia. Isso é explicado em um folheto já esgotado chamado A Bíblia me Tornou um Católico.

O Sr. Whitcomb estudou as Escrituras através do método “interpretação por correlação”.

O método funciona da seguinte maneira. Ele focava em determinada frase das Escrituras, como por exemplo “Filho de Deus”, e procurava nas Escrituras  cada vez que aquela frase era usada, a fim de encontrar a verdade Bíblica do significado daquela frase.

Quando usou esta interpretação por correlação para a palavra “Igreja”, foi levado a uma descoberta inesperada (resumida aqui em quatro pontos).

1) Sua primeira descoberta, disse, foi de que a “Igreja”  na Bíblia era definida como “um corpo” – e não somente um corpo humano, mas um Corpo Divino – o Corpo Místico do Próprio Cristo.

“Ele é também a Cabeça daquele corpo que é a Igreja”(Colossenses, 1:18)

“Ora, vocês são o corpo de Cristo e membros dele cada qual por sua parte” (Coríntios I, 12:27)

“Pois somos membros do seu corpo” (Efésios, 5:30)

2) O Sr. Whitcomb também descobriu que esta Igreja não era um corpo desmembrado, mas sim um corpo unificado.

“Haverá um só rebanho e um só pastor” (João, 10:16)

“Eu lhes dei a Glória que me destes, para que eles sejam um, assim como nós somos um” (João  17:22).

“Há um só corpo e um só espírito, como também uma só esperança... um só Senhor, uma só Fé, um só Batismo” (Efésios 4:4-5).

O Sr. Whitcomb percebeu claramente que este corpo – a Igreja – era constituído como único: único em membros, único em crença, único em adoração, e único em governança.

3) Então ele percebeu que esta Igreja deve ser uma Igreja de ensinamentos. E não apenas isso, mas uma Igreja de ensinamentos infalíveis:

“De Deus recebi todo o poder no céu e na terra. Portanto vão e façam de todos os povos discípulos meus, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-os a observar o que eu ordenei” (Mateus 28:18-20).

4) Percebeu que Nosso Senhor pedia a divina proteção para aquela autoridade que ensinava:

“Eu lhes disse estas coisas enquanto permaneço com vocês. Mas o Peráclito, o Espírito Santo, que o Pai vai enviar-lhes em Meu nome, ele lhes ensinará todas as coisas e lhes recordará tudo o que eu lhes disse. Quando vier o Peráclito, que eu lhes enviarei da parte do Pai, ele dará testemunho de mim, porque desde o princípio estão comigo” (João 14:25-26 – 15:26-27)

Leu também em Timóteo 1 3:15

“Enquanto lhe escrevo isso …que você saiba como se comportar na casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade”

“Após ler tudo isso, ele notou, “ Eu estava perturbado pela descoberta dessa verdade Bíblica ... pois [como Protestante] não era membro de uma Igreja que ensina, muito menos de uma Igreja que ensina a verdade infalível”.

Pois essa “igreja” nem existe no sistema Protestante.

O Sr. Whitcomb continua:

“A Igreja da qual eu era membro, como todas as outras igrejas Protestantes, ao contrário mantinha que a Bíblia é a única  distribuidora e garantia da verdade divinamente autorizada, que se alguém será salvo ele deverá aprender através da Bíblia o que deve fazer para ser salvo. De acordo com a crença Protestante, a única responsabilidade da Igreja é garantir aos “salvos”, aqueles que professam Cristo como Senhor e Salvador, um lugar onde possam se reunir na ‘comunhão da oração’”.

“Isso apesar do fato de que nos primeiros quatrocentos anos não havia uma bíblia Cristã publicada;

“Apesar do fato de que nos próximos mil anos até a invenção da imprensa escrita, havia pouquíssimas Bíblias;

“Isso apesar do fato de que aqueles que fizeram da Bíblia sua única regra de Fé inventaram centenas de regras de fé conflitantes;

“Isso apesar do fato de que a própria Bíblia afirma que muitos que a interpretam privadamente (II Pedro 3:16) a interpretarão erroneamente”.

Para encurtar a história, O Sr. Whitcomb explicou que a única “Igreja” que se encaixava na descrição de “Igreja” encontrada na Bíblia, era a Igreja Católica. (Ele também percebeu que a Bíblia não diz tudo, como João 21:25 nos diz “há muitas outras coisas que Jesus fez e que, se fossem escritas uma por uma, creio que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que seriam escritos”)

Foi a Igreja Católica, segura em sua infalível autoridade outorgada por Nosso Senhor que nos deu a Bíblia, e é somente pela autoridade da Igreja Católica que sabemos com certeza que a Bíblia é a verdadeira palavra de Deus. Foi por isso que Santo Agostinho, no século quarto falou: “Eu não acreditaria nos Evangelhos, caso a autoridade da Igreja Católica não me movesse a fazê-lo”

Isso é somente um resumo desses tópicos. Não tive tempo de desenvolver para vocês as bases bíblicas de rezar para os anjos e santos, pela devoção de Nossa Mãe Bendita, e outros aspectos da doutrina Católica. Mas desejo reiterar que uma sólida contra – reforma apologética é mais importante do que nunca.

Não imitem os Protestantes!

Também acho necessário a fim de parar o fluxo de Católicos ao Protestantismo, é importante que , em nossos esforços, não imitemos o Protestantismo ou os maneirismos Protestantes, mas sim, imitemos os santos.

E o santo em particular que estou pensando é um Santo que passou um tempo na América Latina, Santo Antonio Maria Claret, ex Arcebispo de Santiago, Cuba, reconhecido por seus milagres e leitura de almas.

Quero contar-lhes uma pequena lição que ele deu a um padre, e ocorreu em Madrid, antes do santo ir a Cuba.

Um padre chamado Dom Hermenegildo, na Espanha, era conhecido por suas eloqüentes pregações, e um dia ele pregou um sermão brilhante e inflamado. Santo Antonio Maria Claret assitiu ao sermão.

Don Hermenegildo recebeu muitos elogios por seu sermão, mas o Arcebispo Claret não o cumprimentou, mas se retirou silenciosamente.

Esse fato perturbou muito Dom Hermenegildo, e na manhã seguinte visitou Santo Antonio Maria Claret.

Dom Hermenegildo disse ao Arcebispo Claret, “Perdoe-me, Vossa Excelência, por perturbá-lo com esta visita inoportuna. Gostaria de aliviar meu coração com o senhor. Não consegui dormir a noite toda. Diga-me Arcebispo, meu sermão de ontem não o agradou? Seu silêncio foi como um aviso e uma reprovação para mim!”

Antonio Maria Claret, com a caridade de um santo, queria consolá-lo e encorajá-lo, mas também queria dar-lhe um aviso importante.

O Santo respondeu, “Diga-me, Dom Hermenegildo, você nunca pregou sobre a salvação da alma ou sobre o terrível infortúnio dos condenados?

“Não, Vossa Excelência, nunca preguei sobre esses assuntos”.

“Já pregou sobre a morte, o julgamento, sobre o inferno, sobre a necessidade da conversão, de se evitar o pecado e fazer penitência?”

“Também nunca preguei diretamente sobre esses assuntos”

“Então meu amigo, vou lhe falar com toda sinceridade, como você pediu. Seu sermão não me agradou, e tampouco posso aprovar o procedimento daqueles que em seus sermões omitem essas grandes verdades do Cristianismo e só tocam nesses assuntos como obrigação mas não para salvar almas. Não acho tais sermões nem agradáveis e nem aprovados por Nosso Senhor, Jesus Cristo.”.

Dom Hermenegildo ouviu e permaneceu calado, mas logo a população de Madrid notou uma mudança radical em seu famoso pregador. Anteriormente as pessoas aplaudiam a eloqüência de Dom Hermenegildo, mas agora choravam em pio arrependimento durante seus sermões.

Quanto a Santo Antonio Maria Claret, ele foi a Cuba em 1850, onde permaneceu por somente seis anos. Em pouco tempo ele restaurou, material e espiritualmente, a abatida Arquidiocese de Santiago. Mais que dobrou o número de paróquias: restabeleceu o seminário diocesano, de onde nenhum padre havia sido ordenado em 30 anos; levantou a moral e o zelo do clero bem como seu salário; também ajudou a formação de várias comunidades religiosas, que antes haviam sido reprimidas ou proibidas por lei.

Tenho certeza que poderíamos aprender muito mais através do cuidadoso estudo de sua vida e aplicar à presente situação.

Para terminar, acredito que uma sólida apologética de contra reforma, fidelidade à Mensagem de Nossa Senhora de Fátima, e uma aplicação da piedade e zelo missionário dos santos – como Santo Antonio Maria Claret – terá grande efeito na evangelização das pessoas e no retorno da America Latina à Fé Católica.

Fonte: http://www.fatima.org/port/crusader/cr87/cr87pg58.asp

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo




Padre Elílio de Faria Matos Júnior

- 11 de junho de 2009 -

A solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo é uma festa móvel do calendário litúrgico e ocorre sempre na primeira quinta-feira após a solenidade da Santíssima Trindade. Foi instituída em 1264 pelo Papa Urbano IV para realçar a presença real e substancial de Cristo sob as espécies consagradas e manifestar a alegria da Igreja por dom tão especial. Urbano IV encomendou a Santo Tomás de Aquino, grande teólogo da época, a elaboração da liturgia da festa. O famosíssimo hino "Tão sublime" é de autoria do santo teólogo. Aliás, por sua extraordinária sabedoria, Santo Tomás tem sido constantemente recomendado pelo Supremo Magistério da Igreja como guia seguro nos estudos filosófico-teológicos.

O sacramento da Eucaristia, com efeito, pode ser dito o sacramentum magnum ("o grande sacramento"), pois que ele encerra de modo admirável todo o mistério da Redenção de que nos fala São Paulo, aquele "mistério que ele [Deus] manteve escondido desde séculos e por inúmeras gerações e que, agora, acaba de manifestar aos seus santos" (Cl 1,26). A Igreja diz: "Exerce-se a obra de nossa redenção sempre que o sacrifício da cruz, pelo qual Cristo nossa Páscoa foi imolado (1Cor 5,7), se celebra sobre o altar" (Vaticano II, Lumen Gentium, 3).

O sacrifício perfeito oferecido uma única vez por Cristo na cruz, sacrifício de amor, de obediência e de louvor ao Pai e, por isso mesmo, capaz de apagar nossos pecados, torna-se realmente presente todas as vezes que celebramos a Santa Missa, de tal modo que, participando da eucaristia, é como se estivéssemos aos pés da cruz com Jesus em sua oferta amorosa ao Pai e aos homens. Mysterium magnum - grande mistério!

Como realçou o saudoso João Paulo II em sua memorável encíclica Ecclesia de Eucharistia, o augusto sacramento do Corpo e Sangue de Cristo comporta três dimensões: sacrifício,presença e comunhão. Sacrifício porque, como dissemos, ele torna presente e atual sobre nossos altares o mesmo e único sacrifício da cruz. Presença porque o sacrifício supõe a presença real e substancial do próprio Cristo, que é, a um só tempo, Sacerdote, Altar e Cordeiro.Comunhão porque Cristo quis associar a Igreja a esse seu sacrifício, de modo que ela se ofereça com Cristo ao Pai e receba a própria vida sobrenatural de Cristo, o que santifica a Igreja, fazendo dela verdadeiro Corpo Místico de Cristo. A comunhão se realiza em plenitude quanto recebemos o Corpo e o Sangue do Cordeiro sob as espécies consagradas.

Possamos aprofundar-nos sempre mais na contemplação deste tão grande mistério de nossa fé e colher a graça de nos tornarmos filhos no Filho e, assim, irradiar em nossas famílias e na sociedade o esplendor da "vida em abundância" (Jo 10,10) que Cristo nos trouxe.

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O Hino Adoro Te Devote

terça-feira, 9 de junho de 2009

INDULGÊNCIAS POR OCASIÃO DO ANO SACERDOTAL

PENITENCIARIA APOSTÓLICA
INDULGÊNCIAS POR OCASIÃO DO ANO SACERDOTAL
Como já foi anunciado, Bento XVI decidiu proclamar um especial Ano Sacerdotal por ocasião do 150º aniversário da morte do santo Cura d'Ars, João Maria Vianney, luminoso modelo de pastor, plenamente dedicado ao serviço do povo de Deus. Durante o Ano Sacerdotal, que terá início a 19 de Junho de 2009 e se concluirá a 19 de Junho de 2010, será concedido o dom de indulgências especiais, segundo o que
está descrito no seguinte Decreto da Penitenciaria Apostólica.


PAENITENTIARIA APOSTOLICA
URBIS ET ORBIS
D E C R E T O

Serão enriquecidos com o dom de Sagradas Indulgências, particulares exercícios de piedade, a realizar-se durante o Ano Sacerdotal proclamado em honra de São João Maria Vianney.
Aproxima-se o dia no qual se comemorarão os 150 anos do piedoso trânsito para o céu de São João Maria Vianney, Cura d'Ars, que aqui na terra foi um admirável modelo de verdadeiro Pastor ao serviço do rebanho de Cristo.
Dado que o seu exemplo é adequado a estimular os fiéis e,
principalmente, os sacerdotes a imitar as suas virtudes, o Sumo Pontífice Bento XVI estabeleceu que, para esta ocasião, de 19 de Junho de 2009 a 19 de Junho de 2010 seja celebrado em toda a Igreja um especial Ano Sacerdotal, durante o qual os sacerdotes se reforcem cada vez mais na fidelidade a Cristo com meditações piedosas, exercícios
sagrados e outras obras oportunas.
Este período sagrado terá início com a solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus, dia de santificação sacerdotal, quando o Sumo Pontífice celebrará as Vésperas na presença das sagradas relíquias de São João Maria Vianney, trazidas a Roma pelo Excelentíssimo Bispo de
Belley-Ars. O Beatíssimo Padre também concluirá o Ano Sacerdotal na Praça de São Pedro com os sacerdotes provenientes de todo o mundo, que renovarão a fidelidade a Cristo e o vínculo de fraternidade.
Os sacerdotes empenhem-se com orações e boas obras, em obter do Sumo e Eterno Sacerdote Cristo a graça de resplandecer com a Fé, a Esperança, a Caridade e outras virtudes, e mostrem com o comportamento de vida, mas também com o aspecto exterior, que estão a dedicar-se plenamente
ao bem espiritual do povo; o que, sobre todas as outras coisas, a Igreja teve sempre a peito.
Para alcançar do melhor modo a finalidade desejada, beneficiará muito o dom das Sagradas Indulgências, que a Penitenciaria Apostólica, com o presente Decreto emanado em conformidade com a vontade do Augusto Pontífice, benignamente concede durante o Ano Sacerdotal:


A. Aos sacerdotes verdadeiramente arrependidos, que em qualquer dia devotamente recitarem pelo menos as Laudes matutinas ou as Vésperas diante do Santíssimo Sacramento, exposto à pública adoração ou reposto no tabernáculo e, a exemplo de São João Maria Vianney, se oferecerem com ânimo pronto e generoso à celebração dos sacramentos, sobretudo da Confissão, concede-se misericordiosamente em Deus a Indulgência plenária, que poderá inclusive ser aplicada aos irmãos defuntos como sufrágio; se, em conformidade com as disposições vigentes, se aproximarem da confissão sacramental e do Convívio eucarístico, e rezarem segundo as intenções do Sumo Pontífice.
Além disso, aos sacerdotes concede-se a Indulgência parcial, também aplicável aos irmãos defuntos, cada vez que recitarem devotamente orações devidamente aprovadas a fim de que conduzam uma vida santa e cumpram santamente os ofícios que lhes forem confiados.

B. A todos os fiéis verdadeiramente arrependidos que, na igreja ou no oratório, assistirem devotamente ao divino Sacrifício da Missa e oferecerem, pelos sacerdotes da Igreja, orações a Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, e qualquer obra boa realizada naquele dia, a fim de os santificar e plasmar segundo o Seu coração, concede-se a
Indulgência plenária, contanto que tenham expiado os próprios pecados com a penitência sacramental e elevado orações segundo as intenções do Sumo Pontífice: nos dias em que se abre e se encerra o Ano Sacerdotal,no dia do 150º aniversário do trânsito piedoso de São João Maria Vianney, na primeira quinta-feira do mês ou em qualquer outro dia
estabelecido pelos Ordinários dos lugares, para a utilidade dos fiéis.
Será muito oportuno que, nas igrejas catedrais e paroquiais, sejam os próprios sacerdotes prepostos ao cuidado pastoral a dirigir publicamente estes exercícios de piedade, a celebrar a Santa Missa e confessar os fiéis.
Aos idosos, doentes e a todos os que por motivos legítimos não puderem sair de casa, com o ânimo desapegado de qualquer pecado e com a intenção de cumprir, assim que possível, as três condições de costume,na própria casa ou onde estiverem a viver, concede-se de igual modo a Indulgência plenária se, nos dias acima determinados, recitarem orações pela santificação dos sacerdotes e oferecerem a Deus com confiança as doenças e as dificuldades da sua vida, por intermédio de Maria, Rainha dos Apóstolos.
Enfim, concede-se a Indulgência parcial a todos os fiéis todas as vezes que recitarem devotamente cinco Pai-Nossos, Ave-Marias e Glórias, ou outra oração devidamente aprovada, em honra do Sacratíssimo Coração de Jesus, a fim de obter que os sacerdotes se conservem em pureza e santidade de vida.

O presente Decreto é válido por toda a duração do Ano Sacerdotal. Não obstante qualquer disposição contrária.
Dado em Roma, na sede da Penitenciaria Apostólica, a 25 de Abril,festa de São Marcos Evangelista, do ano da Encarnação do Senhor de 2009.


James Francis Card. Stafford Penitenciário- Mor
GianfrancoGirotti, O.F.M.,Conv. Bispo Titular de Meta,



Regente

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Carta de apoio aos Católicos de Limeira

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Caríssimos irmãos católicos de Limeira,

Ave Crvx Spes vnica!

Nós do blog Cruzados de Maria de Belo Horizonte, através deste instrumento, viemos prestar nossa solidariedade ao vosso bom combate. Tanto vocês como nós, sabemos que a porta continua estreita e que aqueles que deveriam nos ensinar o caminho para passar por esta porta,a estreitam ainda mais para nós, enquanto a alargam para todos os outros.

Lutemos sempre pela aplicação do Motu Propio Summorum Pontificum, pela Missa de Sempre e dispensemos nosso tempo para com esta gente, em oração. Pedindo a nosso Senhor que eles se preocupem mais em obedecer ao Papa (sobretudo na correção da fórmula da consagração) e demonstrem o mínimo de zelo e respeito pela liturgia que tem sofrido abusos pelo Brasil afora pela negligência destas mesmas pessoas que trazem em seus testemunhos que atualmente não é necessário obedecer nada e nem ninguém, além da própia consciência. Que Deus nosso Senhor, os ilumine e os faça sair das trevas da apostasia, pois como diz São Tiago;

“Adúlteros, não sabeis que o amor do mundo é abominado por Deus? Todo aquele que quer ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” São Tiago 4,4.

Muito ainda pode ser dito a respeito deste caso, mas deixemos a palavra com Gustavo Corção, porque também o CLERO depois do Concílio, FOGE DA IDADE MÉDIA, tal como os humanistas e cientistas do Século XVI!

Belo Horizonte, 05 de junho de 2009

CRUZADOS DE MARIA

Os humanistas e os cientistas fogem da Idade Média

Gustavo Corção

4' De que coisa se afastavam os humanistas como os cientistas do Século XVI?Aparentemente um desses movimentos aponta para um Novo Mundo, pelo dedo de Sagres, enquanto o outro aponta para o Mundo Antigo, sendo assim opostos. A eclosão renascentista não é unidirecional, não é simplesmente progressista como pensam alguns historiadores — estamos pensando no pueril entusiasmo de bom Michelet — que não se deram ao pequeno cuidado de observar o prefixo RE que se convencionou dar à Renascença e à Reforma, e que indica um conteúdo regressivo, tão importante que chegou a prevalecer nas duas denominações. Como Chesterton tão bem observou, a Renascença é mais uma volta do que um avanço. Mas volta para onde?

A chave do enigma é a cristandade medieval: foi essa Coisa que constituiu considerável massa repulsiva dos homens da nova Coisa X. Afastavam-se dela astrônomos, geógrafos, físico», caminhando em direção do futuro; e saltavam por cima dd;i ou humanistas e artistas que procuravam no mundo antigo uma natureza humana, uma escultura, uma história, anteriores a civilização medieval — anteriores, preexistentes, e por conseguiu te mais basilares para a nova antropologia e para a história nova. O essencial e comum dos dois movimentos era o desejo de ampliar os horizontes nos dois sentidos, deixando o bolsão medieval cercado e isolado em sua pequenez. Inconscientemente queriam livrar-se do cristianismo; como porém a marca era forte demais, só conseguiram tirá-lo do firmamento civilizacional mais próximo, deixando-o relegado a uma estratosfera. Mais conscientemente religioso foi o movimento da Reforma que, pe­los mesmos motivos, não podendo desligar-se do cristianismo, desligou-se da Igreja, indo buscar nos primeiros séculos do cristianismo a "dirita via ch'era smarrita", ou o que supunham ser o verdadeiro cristianismo.

Um processo de mudança da civilização é mais compreensível onde se vê, na nova experiência, a integração do passado recente e o aproveitamento, ao menos parcial, dos frutos colhi­dos na experiência anterior. Foi assim que a civilização Romana usou a Helênica; e foi assim, como já mostramos, que a Civi­lização Medieval Cristã usou as anteriores, sem visíveis demonstrações de aversão ou irritabilidade.

Agora estamos diante de um processo diferente. Dir-se-ia um movimento de desobediência provocado por uma misteriosa acumulação de ressentimentos; dir-se-ia uma adolescência conflituosa. A difundida idéia que faz da Idade Média uma idade obscura e anticientífica, e da Renascença uma idade clara e científica, é simples demais, além de não ser verdadeira. A Idade Média podia ser antifisicista, como diz Etienne Gilson, por desinteresse em relação aos problemas da física e da astronomia, mas não por uma declarada aversão. E o lento desabrochar da ciência da natureza tem sua explicação na própria índole do progresso científico, que obedece à interdependência das mais di­versas disciplinas. A astronomia, por exemplo, esteve estacionária, depois de gregos e alexandrinos, durante séculos e sécu­los, à espera da invenção das lentes e da luneta. Depois de Galileu e Copérnico, tem de se esperar o desenvolvimento das matemáticas. Com Kepler galga mais um degrau, com Newton mais dez degraus. E à medida que recebe subvenção de toda a parte, a marcha se acelera: a análise espectral no fim do século XIX permite a análise química das estrelas, e a energia nuclear, nos meados do século XX, renova a concepção geral do uni­verso. Mas é preciso entender bem essa curva do progresso: no ambiente rarefeito, demograficamente e culturalmente, a ascen­são é lenta; torna-se rápida, com aceleração parabólica, à me­dida que todos os diversos ramos progridem. Poderíamos em­pregar uma comparação. Numa cidade que possui 100 telefones, são possíveis 4950 conversações; mas na cidade de 200 tele­fones são possíveis 19.900 comunicações; por onde se vê que, dobrando o número de aparelhos, o número de conversações fica praticamente quadruplicado. Podemos aplicar êsqg critério com­binatório a um ambiente cultural. Quando cresce o número de "aparelhos" instalados (descobertas, invenções) cresce na pro­porção do quadrado, ou mais, o intercâmbio, e como esse in­tercâmbio é em regra geral fecundo, cresce também o número de novos "aparelhos".

Quanto às resistências culturais encontradas pela ciência, é extremamente pueril atribuí-las à religião cristã, que em todas as épocas produziu estudiosos e até, de certo modo, liderou a cultura científica. Acidentalmente pode o mundo cristão, por equívoco, ter queimado algum astrónomo, como acidentalmente a República Francesa guilhotinou algum químico. Não está na essência do cristianismo nenhuma idiossincrasia em relação à as­tronomia, como na sua essência a república também não se en­contra em antagonismo com a química.

No século XIII, o mestre de Santo Tomás, Santo Alberto Magno, tinha especial gosto pelas ciências naturais; a maioria dos estudantes, em Paris, nesse glorioso século, dedicava-se aos cursos de ciências naturais. Poderá alguém duvidar, com bom fundamento, que a ciência do século XIII produziria a ciência do século XX dentro do mesmo ambiente civilizacional?

O ponto aonde queremos chegar é este: não parece ra­zoável pensar que o ressentimento ou a agressividade renascen­tista tenham sido provocados por um suposto antiprogressismo medieval. Parece-nos, ao contrário, que é mais efeito o que apontam como causa; e que é mais profunda, mais religiosa, a causa da compressão bruscamente desrecalcada nos séculos XV e XVI. Não é por mero acidente, nem por força da tão falada "decadência da escolástica" que Tomás Morus e Erasmo, o rei dos humanistas da Renascença, se riam dos filósofos dn Escola. Nem é por simples coincidência que os dois movimentos, a Renascença e a Reforma, ocorrem no mesmo século.

Há no fim da Idade Média algo parecido com uma deso­bediência coletiva, cultural, e há no princípio dos Tempos Mo­dernos algo parecido com emancipação a crescimento. A tragédia reside nessa disjunção, como em tantos casos particulares se vê: o adolescente crê que reforça sua autonomia e festeja melhor sua emancipação esbofeteando ritualmente sua mãe.

O mundo moderno se esforça por negar a existência tragédia. Ao contrário, na opinião corrente, tudo se processou normalmente, e a Idade Média caiu como caem os umbigos dos animais, ou como secam os seios das mães. Alguns levam otimismo de hoje, e o pessimismo de ontem, ao ponto de dizer que a Idade Média foi um mal, um emperro, um período de trevas. Erro simétrico cometeríamos nós se só víssemos per­versão, desvio, catástrofe nos tempos modernos. Mas não po­demos deixar de ver, nesse período maravilhoso em que o ho­mem afirma seu domínio sobre os elementos, e nessa quadra em que as maiores experiências políticas são feitas na direção geral da dignidade da pessoa humana, as contradições, e os erros terríveis que inclinam o homem a procurar uma espécie de descanso numa espécie de sub-humanidade.

DOIS AMORES DUAS CIDADES

EDITORA AGIR 1967

Divulgação de Obra: "A Candeia Debaixo do Alqueire"



Em Contra Impugnantes

Aristóteles dizia que a precondição para o estabelecimento de uma verdadeira dialética é a consignação prévia de “tópicos”, ou seja: de pontos ou premissas a partir dos quais se torna possível engendrar raciocínios e deles extrair corolários. O τόπος é, literalmente, o lugar do diálogo e da confrontação das próprias idéias com as alheias e/ou contrárias. Na prática, trata-se do método científico por excelência — o que os medievais comprovaram com a sua prolífica arte da disputa (disputatio), cujo ápice se dá na obra de Santo Tomás de Aquino.

Pois muito bem: a nossa época transformou a palavra “diálogo” numa espécie de fetiche conceitual, ao fazer uso dela sem o mais remoto vestígio do rigoroso método dialético que encontramos nas obras de Sócrates, Platão, Aristóteles e, particularmente, Tomás de Aquino. Hoje — de modo inverso ao que ocorria com o τόπος aristotélico — muitas vezes as premissas, em vez de ser colocadas claramente, são retiradas para não ferir as susceptibilidades do outro “dialogante”. Com isto acaba-se por estabelecer um falso diálogo, na medida em que é varrido, para debaixo do tapete, todo e qualquer tópico presumivelmente incômodo. Um falso diálogo que, a pretexto de buscar a concórdia, deixa de lado a verdade (pois repele todas as precondições para o estabelecimento desta).

Na obra que ora apresentamos ao leitor brasileiro, o principal teólogo da Fraternidade Sacerdotal São Pio X – FSSPX na atualidade, Padre Álvaro Calderón, esgrime com o método da disputa: após enumerar, em cada artigo, uma série de objeções às teses defendidas no livro, Calderón apresenta uma resposta magistral e, depois, replica os argumentos em contrário, um a um.

Acreditamos prestar um grande serviço com a publicação no Brasil desta disputatio do Padre Calderón. Em primeiro lugar, porque a partir dela é possível divisar o cerne das questões que, desde o Concílio Vaticano II, opuseram uma parcela do Catolicismo à onda de novidades que, na prática, acarretou a mudança da liturgia da Missa, do Código de Direito Canônico e do Catecismo; e, na teoria, estabeleceu um pluralismo teológico e doutrinal cujos frutos ninguém (em sã consciência!) pode negar. Em segundo lugar, porque se estabelecem nesta obra os pontos do único diálogo com chances de ser frutuoso: o que tem como objeto formal próprio, tão-somente, a verdade — com a demarcação de todos os problemas prévios sem cuja resolução não é possível ultrapassar os limites da opinião.

O assunto deste livro é gravíssimo e as conclusões não são de molde a agradar aos paladares adocicados de um ecumenismo falsamente “dialogante”. Mas o próprio Autor, na sua Introdução, agradece de antemão a quem, por caridade, o refutar ou corrigir".

domingo, 29 de março de 2009

Carta Aberta ao Santo Padre Bento XVI

Beatíssimo Padre.



Prostrado aos pés de Vossa Santidade, venho, respeitosamente, por meio desta, manifestar-lhe minha fidelidade incondicional na qualidade de sacerdote católico incardinado na Diocese de Anápolis.

Tenho acompanhado com tristeza e indignação todos os ataques dirigidos contra Vossa Santidade, verdadeiros atos de rebeldia, por parte de pessoas que perderam a fé católica ou se deixaram enredar por falsas doutrinas e, assim, são incapazes de avaliar com justeza as medidas prudentes e zelosas de Vossa Santidade com o intuito de promover o bem da Igreja e preservar a integridade da fé católica.

Desejaria dizer a Vossa Santidade que lhe sou particularmente grato pelo motu proprio Summorum Pontificum e pelo decreto de revogação das excomunhões declaradas em 1988 contra Mons. Marcel Lefèbvre, D. Antonio de Castro Mayer e os 4 bispos então consagrados.

Com a liberdade de um filho que confia em seu pai, devo dizer a Vossa Santidade que, tendo nascido em 1962 em uma diocese do interior do Estado São Paulo, assisti à degradação da vida espiritual católica promovida pela teologia da libertação e em nome do Concílio Vaticano II: igrejas destruídas e profanadas, a liturgia completamente dessacralizada, a educação católica, garantia da transmissão dos valores perenes, abolida com o fechamento de antigos colégios, porque se dizia serem apenas instituições a serviço da burguesia e contra as classes oprimidas. Um número incalculável de publicações (cartilhas, panfletos, folhetinhos de missa) espalhou todos esses anos entre os católicos a grosseria, a imoralidade e a heresia, de modo que se gerou um ambiente insuportável. É inútil e impossível mencionar todas as calamidades que se abateram sobre os católicos, e Vossa Santidade tem pleno conhecimento da realidade.

Digo isto apenas para confessar a Vossa Santidade que, se eu e minha família preservamos a fé católica, foi graças ao combate travado por sua S. Exa. Revma. Mons. Lefèbvre. Com efeito, verificamos que ele tinha razão em convocar os católicos para lutar contra tantos desmandos e abusos.

Em 1988, quando foi assinado um protocolo de “acordo” entre a Fraternidade Sacerdotal São Pio X e a Santa Sé, no qual se previa a conveniência de que fosse sagrado um bispo eleito entre os padres da Fraternidade e, como não se superasse o obstáculo da fixação de uma data para tal sagração, pareceu-nos que Mons. Lefèbvre tinha o direito de proceder ao rito sagrado.

Decorridos tantos anos, estou convencido de que o venerável bispo agiu bem. Os frutos de sua obra são bênçãos e graças para toda a Igreja. Não tivesse ele agido com prudência e fortaleza então, certamente não existiria a Fraternidade Sacerdotal São Pedro e muitos outros institutos ligados a Ecclesia Dei Adflicta. Eu mesmo não teria sido ordenado presbítero no rito tradicional em 1996 pelo cardeal Stickler em atenção às letras dimissórias de meu antigo bispo D. Manoel Pestana Filho. E, certamente, o “progressismo católico” teria avançado muito mais como força devastadora da Vinha do Senhor.

Por isso, expresso hoje minha gratidão a Vossa Santidade e reverencio a memória dos dois bispos que ajudaram tantos católicos a conservar a fé em tempos tão atribulados.

Gostaria ainda de dizer a Vossa Santidade que são numerosíssimos os padres que o apóiam por ter, por exemplo, ordenado a correção da tradução da forma da consagração do cálice na Santa Missa e não se conformam com o descaso da hierarquia em cumprir a ordem emanada de Roma. O zelo de Vossa Santidade pelo decoro da sagrada liturgia nos conforta. Há muitos padres que desejariam seguir o exemplo de Vossa Santidade em suas paróquias, mas temem represálias da parte dos seus ordinários.

Igualmente, quero assegurar a Vossa Santidade que foi enorme a satisfação dos verdadeiros católicos com a atitude digna do arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho OC, por ter recordado que os católicos que cooperaram com a prática do aborto naquela cidade incorreram em excomunhão latae sententiae. São gestos como este que confirmam os católicos em sua fé. Foi, por outro lado, vergonhoso e lamentável ver outros bispos censurarem a atitude coerente do arcebispo D. José Cardoso Sobrinho.

Seja-me permito, finalmente, rogar a Vossa Santidade uma providência especial para proteger o Brasil, o maior país católico do mundo, de uma gravíssima ameaça que paira sobre a Terra de Santa Cruz. Vivemos há quase oito anos sob um governo socialista que tem adotado uma política anticristã na área do direito da família e da vida. O atual governo tem o propósito de introduzir a legalização geral do aborto e da união civil homossexual. Tudo isto está previsto no programa político do Partido dos Trabalhadores, partido do governo. A candidata do governo à presidência da República no próximo ano já fez declarações neste sentido. Apesar da absoluta incompatibilidade de suas propostas políticas, a referida senhora tem exercido nas concentrações carismáticas o ministério de leitora nas missas, em franca campanha política. Com efeito, isto nos desconcerta.

Quando se trata de assuntos de grande relevância moral e para a salvação das almas, não se observa da parte da hierarquia tanto empenho para não dizer que há dolorosa omissão ou cumplicidade. Atitude como a de D. Cardoso é uma gota de água pura no mar morto. Mas quando se trata de assuntos técnicos ou sócio-economicos observa-se uma indiscreta ingerência, que só redunda em descrédito da Igreja. Permito-me recordar a Vossa Santidade o episódio da transposição do rio São Francisco ou mais recentemente a absurda demarcação de território indígena em região rica em minérios (uma ameaça à soberania nacional), com apoio do Conselho Indigenista Missionário, órgão ligado à CNBB.

De maneira que, diante da gravidade da situação atual do Brasil, rogo a Vossa Santidade que, assim como Pio XII (cuja memória Vossa Santidade tem reverenciado) salvou a Itália do perigo comunista arregimentando os católicos, assim também agora ajude a salvar o Brasil da perpetuação de uma tirania socialista e anticristã, que se instaurou entre nós com os préstimos da “esquerda católica”

Rogo a bênção de Vossa Santidade sobre minha pessoa e sobre todos fiéis da Capela Santa Maria das Vitórias em Anápolis, consagrada por Dom Pestana em dezembro do ano passado. Asseguro a Vossa Santidade nossas fervorosas orações ao Imaculado Coração de Maria para que Nossa Senhora o proteja da maldade dos seus inimigos.



Anápolis, 27 de março de 2009

Festa de São João Damasceno

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

quinta-feira, 12 de março de 2009

A Folha de São Paulo e a carta de Bento XVI

Manchete de capa:
"Papa diz que falhou ao reverter excomunhão de bispos radicais"

A manchete da reportagem propriamente dita já baixa o tom e diz
"Papa reconhece falhas na reversão de excomunhão de bispos radicais"

A diferença entre "falhou ao reverter" e "falhas na reversão" é evidente para qualquer um que saiba português. Mas é lógico que a Folha não faz isto inocentemente, por acidente. O intuito da Folha em sua manchete de capa foi evidentemente de dar a entender ao leitor desavisado que o Papa reconhece que a reversão das excomunhões foi um erro. Quem confia nesse jornal está fadado a ser constantemente enganado por esse tipo de manipulação semântica, sobretudo nas manchetes.

Na reportagem propriamente dita, assinada como "Da EFE, na Cidade do Vaticano", o teor real da carta de Bento XVI é descrito, mas ainda com algumas pérolas. Após adjetivos carinhosos como "bispos ultraconservadores" e "arcebispo cismático Lefebvre", vemos o trecho

"O papa diz que a sociedade (S. Pio X) só será reintegrada à igreja se aceitar as decisões do Concílio Vaticano 2o, que nos anos 60 aboliu adotou (sic) reformas como a abolição da missa em latim e uma posição mais aberta em relação ao ecumenismo." (grifo meu)

Que interessante saber que:

- A missa em latim foi abolida.
- Que a FSSPX terá que abolir a missa em latim para ser reintegrada à Igreja.
- O Motu Proprio provavelmente deve ignorar que missa em latim está abolida. Avisem ao Papa.

Agora, sem ironia, eu ainda me pergunto se a redação da Folha tem especialistas em desinformação para fazer este tipo de serviço ou se já atingiram o nível de fazê-lo automaticamente.

Salve Maria e fiquem com Deus

-David

sábado, 24 de janeiro de 2009

"QUO PRIMUM TEMPORE"

 

ESTUDO DO PADRE RAYMOND DULAC SOBRE A BULA QUE

PROMULGOU O MISSAL ROMANO

A primeira intenção do presente estudo era apenas a de oferecer uma tradução deste documento, que tem uma enorme importância e que no entanto ainda hoje é praticamente desconhecido dos fiéis e até mesmo de muitos padres. Quantos entre estes já o leram e estudaram?... Alguns não sabem nem onde o encontrar. Ora, sem mesmo lançar mão de grande bulário, basta abrir o Missal de uso litúrgico e nas primeiras páginas o encontrarão impresso, de modo aliás não muito agradável o que facilmente pode desencorajar o leitor: nem um só parágrafo num texto que ocupa três ou quatro colunas grandes!

É preciso também reconhecer que a leitura desta Bula no original é bem difícil. Alguns termos são de custosa tradução por causa do uso jurídico que lhes dá um sentido rigorosamente preciso, por vezes fora do uso corrente.

As frases também são de uma complexidade raramente encontrada, devido às extensas enumerações com minuciosos pormenores e trechos intercalados de difícil seqüência com orações subordinadas, umas dentro de outras.

Além disso, e quanto à matéria, as decisões editadas pelo documento são de várias espécies e um leitor menos atento poderia confundi-las não sendo conhecedor da tradição canônica em matéria legislativa.

Enfim, o sentido profundo da Bula só pode ser bem apreendido se for situado na circunstância histórica que a provocou, exigindo esta por sua vez ser esclarecida pela própria história do Missal Romano desde suas origens até a época do Concílio de Trento.

Por causa destas diversas considerações achamos melhor dar à nossa tradução da Bula, uma introdução histórica e fazer no final uma exposição jurídica como esclarecimento de muitas das diretivas da Bula de São Pio V sobre o Missal Romano restaurado.

Sim, porque trata-se somente de uma restauração e não de uma reforma que teria modificado a economia do rito tradicional. O título de nossos missais de uso litúrgico, dizem claramente: Missale Restitutum, Recognitum, isto é, restituído à sua forma original, restabelecido e com este fim simplesmente revisto. Voltaremos a este ponto mas desde já devemos assinalá-lo seja pelo menos para reparar na enorme distância entre a obra de São Pio V e a que Paulo VI realizou ajudado por seus "peritos".

BREVE HISTÓRICO DO MISSAL ROMANO

Faremos um simples resumo, esforçando-nos de lembrar apenas as linhas certas e essenciais desta longa história. Os que mais profundamente a estudaram reconhecem modestamente que, em numerosos pontos, têm de se contentar com conjeturas. Não seriam estes que se aventurariam a reformar o rito usado até nossos dias sob pretexto de uma volta a um pretenso rito "primitivo" artificialmente reconstruído!

Para bem compreender a Missa Romana, tal com se apresentava aos Padres Conciliares de Trento e ao Papa São Pio V, é necessário descobrir seu devido lugar dentro da evolução geral da liturgia eucarística.

1 - Os Apóstolos tinham recebido do Senhor, na véspera de sua Paixão, o poder e o mandamento de celebrar o Sacrifício da Nova Aliança. Deveriam para isso refazer, em memória dele, ISTO que Ele mesmo tinha feito naquele dia, oferecer sob as espécies do pão e do vinho transubstanciados no Seu Corpo e no Seu Sangue em virtude de Suas palavras, a Vítima propiciatória imolada na Cruz de uma maneira sangrenta.

2 - Os mais antigos documentos, nos mostram quão os Apóstolos e seus sucessores observaram fielmente esta ordem.

Pela própria natureza das coisas e com a autoridade recebida do próprio Cristo ou do Espírito de Pentecostes, os Apóstolos deviam completar a simples repetição dos gestos da Quinta Feira Santa com um conjunto de ritos. Iam eles tornar solenes sua "comemoração" e fazer dela uma verdadeira cerimônia religiosa.

Esta cerimônia não tinha por fim somente manter um sentimento interior de fidelidade à uma lembrança cujo mérito variasse segundo as disposições subjetivas do celebrante e dos participantes. Ela iria ter os efeitos objetivos de um ATO, efeitos esses realizados em virtude da própria instituição de Jesus Cristo, que quis estar presente sob as espécies sacramentais. Uma única condição: que o padre humano se faça instrumento exato do Sacerdócio único e soberano, conformando-se por sua fé e por sua intenção à Vontade Daquele que é Senhor de seus dons:

"Fazei isto"

3 - Houve assim, na origem, em todas as igrejas locais do Oriente e do Ocidente, um rito mais ou menos uniforme, que vem atestado por alusões dos mais antigos Padres da Igreja: Doutrina dos Doze Apóstolos (Didachê), primeira Epístola de Clemente aos Coríntios, Epístola de Barnabé, cartas de Santo Inácio, de São Justino, Santo Irineu, etc.

Este rito, ainda um tanto indeterminado nos pormenores, deixando lugar a certas improvisações, iria, no correr dos três primeiros séculos, se cristalizar pouco a pouco em alguns ritos-típicos que deveriam se fixar numa determinada forma em conformidade ao gênio particular de cada povo.

4 - Assim é que, a partir do século IV, se conhecem quatro tipos gerais de liturgia eucarística’ das quais três tiveram sua formação ao redor das grandes igrejas patriarcais: Antioquia, Alexandria e Roma.

São estes os "ritos-fontes". Com um quarto, o rito dito "galicano", estão na origem dos ritos "derivados" que serão finalmente celebrados em todo o mundo católico.

O rito romano era, na origem, apenas o rito celebrado somente na cidade de Roma. Foi somente depois do século VIII que se espalhou por todo o Ocidente com algumas exceções, suplantando os outros ritos ocidentais dos quais sofrera influências e aos quais emprestara detalhes.

São estes ritos ocidentais, latinos mas não romanos, que foram reunidos sob a apelação genérica de rito galicano. Título comum que compreende tanto o rito observado na Gália quanto, com algumas variantes, na Espanha, na Bretanha, no norte da Itália e em outras regiões.

Os historiadores não estão de acordo sobre as origens desse rito, mas parece certo que o mesmo constitui um uso diferente do de Roma. Os dois de desenvolvem paralelamente, sofrendo influências recíprocas, dos séculos VI ao VIII, até o momento em que o galicano é absorvido pelo romano sob a influência de grandes missionários: Santo Agostinho, na Inglaterra (597) e São Bonifácio na Germânia (+754); sob a influência também de Carlos Magno que, desejando para seu reino uma uniformidade litúrgica, deu-lhe como base o rito observado em Roma.

Os únicos sobreviventes do rito galicano comum foram o rito dito "mozarábico", usado em toda a Espanha até o século XI e que subsiste ainda em Toledo e do rito denominado "ambroziano", ainda hoje observado em Milão.

5 - Tendo se imposto definitivamente em todo o Ocidente entre os séculos XI e XII, o rito Romano deveria no entanto sofrer em diferentes graus depois dessa data, influências locais que iriam produzir certas variantes as quais se podem a rigor qualificar como ritos mas que, na verdade, são somente formas variadas muito secundárias oriundas da mesma fonte. Assim em Lião, Treves, Salisbury, etc.

Essas formas variadas que aqui mencionamos, são mais conhecidas devido à importância das cidades, mas o estudo dos Missais da Idade Média nos mostra que quase cada uma das catedrais tinha suas particularidades litúrgicas cuja prática se estendia mais ou menos pelas regiões vizinhas.

Em que consistiram? Em acréscimos exuberantes puramente ornamentais ou piedosos: festas locais, procissões, cerimônias simbólicas, orações e cantos acrescentados, textos "recheados", Sequências, Prefácios suplementares...

A estas variedades segundo os lugares, se ajuntavam outras próprias das famílias religiosas: Carmos, Cartuxos, Dominicanos.

Mas frisamo-lo bem: nenhuma delas constituía um rito distinto. Todos pertenciam indubitavelmente ao tronco comum original do rito Romano tal como fora fixado no tempo do Papa São Gregório (590-604), se bem que com alguns acréscimos "galicanos" posteriores. Os antigos "sacramentais" romanos, o "Leonino", o "Gelasiano", o "Gregoriano", que são como ancestrais do nosso Missal e que foram escritos respectivamente entre o V e o VII séculos, nos dão uma ordenação da Missa idêntica a que São Pio V devia canonizar na sua Bula.

Segundo o liturgista inglês Fortescue:

"Desde o tempo de São Gregório, considera-se o texto, a ordem e a disposição da Missa como uma tradição sagrada à qual ninguém ousa tocar, senão em detalhes sem importância.

6 - Posta em paralelo a Missa Romana com todas as liturgias orientais, sem exceção, tanto as "cismáticas" quanto as "uniáticas", constata-se que certas cerimônias são rigorosamente idênticas quanto ao essencial: intocadas, verdadeiramente sagradas porque pertenciam à instituição de Jesus Cristo ou dos Apóstolos. Reconhecidas como essencialmente necessárias para que o padre pudesse realizar "ISTO" que o Senhor realizara na Ceia.

E verdadeiramente indispensáveis para que a Missa fosse e parecesse um sacrifício no sentido próprio e pleno do termo, isto é, uma oblação atual, pessoal, feita em nome da Igreja por um padre ordenado, da vítima imolada no Calvário; estando esta vítima realmente presente sobre o altar em virtude da consagração do pão e do vinho que os converte substancialmente no Corpo e no Sangue de Jesus Cristo pelas palavras da instituição repetidas, "em memória" Dele.

São quatro as partes imutáveis da liturgia eucarística mas com diferentes graus de importância quanto à essência do rito:

1 - O ofertório: é a dedicatória prévia do pão e do vinho, que assim se tornam "oblatas".

2 - O cânon, também chamado ação. É a "prex" dos latinos e "anáfora" para os gregos: oração consecratória que começa em forma de ação de graças para se conformar ao gesto de Nosso Senhor que "deu Graças" a Seu Pai antes de "abençoar" o pão e o vinho e de os consagrar.

Nesta oração é que estão inseridas as outras partes do rito consecratório, a saber:

- O memorial da Ceia que precede as palavras da instituição: "Tomai... isto é meu Corpo".

- Antes ou depois uma invocação mais ou menos explícita ao Espírito Santo, o epiclésio. Este é difícil de ser situado de modo exato na Missa Romana.

- Depois das palavras da instituição que consagra as oblatas, encontra-se uma oração que vem afirmar que o padre e todos os participantes ao sacrifício agem, cada um em sua posição essencialmente diferente, "em memória de Jesus Cristo como Ele próprio ordenou". É a anamnese.

3 - Segue a fração: para repetir o gesto do Senhor que "rompeu" o pão antes de distribui-lo aos Apóstolos.

A Fração é acompanhada da commixão, pela qual um fragmento do pão sagrado é mergulhado no vinho consagrado.

4 - Finalmente a comunhão. A maneira de dá-la e de recebê-la, os cânticos ou orações que a precedem, a acompanham e a sucedem variam segundo os ritos locais.

Aos quatro ritos que acabamos de descrever e que estão diretamente ligados ao ato do Sacrifício, se ajuntavam outros que os enquadravam, completando ou ornamentando sua significação religiosa e inspiração cristã. Ritos que todo o mundo reconhecia como secundários mesmo quando a fidelidade, fortalecida pelo uso, deles faria questão.

Primeiramente: O ósculo da paz. Está quase sempre presente com atribuições e maneiras variadas de fazê-lo. Em seguida: leituras, ladainhas, procissões, hinos e a homilia.

ÐÑ

Não esqueçamos a divisão do ofício entre "Missa dos catecúmenos" e "Missa dos Fiéis". E de passagem observamos que a expressão "Liturgia da Palavra" permanece totalmente desconhecida desde as origens até aos tempos do Vaticano II. Aliás é contraditória nos próprios termos: etimologicamente a palavra "liturgia" designa uma "ação". Ora, exceção feita aos tagarelas, a palavra não é um ato. Certamente quando esta palavra é divina, ela é "espírito de vida". A este título deve ter lugar eminente dentro do ato da Missa, mas ela não é este ato. Se o fosse não se poderia despedir (formalmente!) uma parte da assistência no momento preciso em que termina a execução das leituras! Isto por que? Porque não estando ainda admitidos à comunhão eucarística (os não batizados) ou tendo sido afastados ou excluídos (os penitentes) julga a Igreja que então não deviam ser admitidos à liturgia propriamente dita: que prepara formalmente para a comunhão. Provando assim que as Leituras eram nitidamente distintas de "Liturgia".

É melhor usar de franqueza: o lugar cada vez mais preponderante dado, nas Missas pós-conciliares, à "palavra", divina ou humana, é uma concessão feita aos protestantes para os quais a palavra é tudo.

Aliás, há aí um sinal revelador: a manipulação dos textos sagrados, não somente em traduções adulteradas mas também em amputações ou edulcorações do original, julgado pouco ecumênico. Vejam a Bíblia revista e corrigida pelos padres Bugnini e Roguet.

DIGRESSÕES SOBRE O OFERTÓRIO

Descrita a Missa Romana, em suas partes essenciais, tal com era celebrada por todo o Ocidente antes do Concílio de Trento (excetuando-se Milão e Toledo), devemos deter-nos a uma de suas partes : o ofertório. Veremos melhor assim num exemplo característico, a distância infinita que separa a "restituição" do antigo Missal feita por Pio V e a "reforma" de Paulo VI.

É sabido que os reformadores modernos do rito milenar canonizado pelos Padres do Concílio de Trento e por Pio V, quiseram (ou fingiram querer) "simplificar", como dizem, o Ofertório, qualificado por eles, seja de redundante "duplicação", seja de réplica aberrante da Oblação essencialmente única: a que é realizada na Consagração onde é Cristo, e Ele somente, que é oferecido ao Pai, o qual não poderia aceitar outra (dádiva) senão a do Seu Filho.

Esta reclamação teria uma aparência de verdade se os gestos e as palavras do nosso ofertório tivessem um valor absoluto subsistente nele mesmo. Ora, seu significado é inteiramente outro e expressamente ordenado a outra coisa. Tem uma realidade certa mas a realidade das coisas relativas: "esse ad".

Em verdade o que se passa nesse momento?

O pão e o vinho, ainda comuns e profanos, são trazidos ao altar e depois dados à Santíssima Trindade segundo um rito especial de oferenda. Este rito os separa do uso comum e profano, os dedica e os prepara.

Para que? Para uma outra oblação: a oblação propriamente sacrificial que será daí a pouco consumada no e pelo ato de sua própria consagração.

O ofertório, que Lutero iria procurar destruir, não tem de modo algum o sentido do gesto da gratidão humana ao seu criador pelo pão e pela uva nem o da restituição das premissas ao Senhor de todas as coisas, conforme judeus e pagãos sempre tinham feito (é como a Missa de Paulo VI parece querer "restituir", no seu novo rito ecumênico e teillardiano).

Na liturgia romana da Missa, o pão e o vinho se tornam pelo ofertório as oblatas, como são comumente designados em inúmeros textos: isto é um verdadeiro sacrifício, MAS um sacrifício preparatório, um sacrifício à espera, assim como um vir a ser.

E são estas oblatas, já reservadas, que serão em seguida santificadas, no sentido pleno do termo, que vão entrar no único sacrifício agradável a Deus: o da Ceia e do Calvário.

Mas estas oblatas só entram aí para se perderem. Se perderem como?

- Não por uma "trans-finalização" ou "trans-significação" que deixariam toda a sua natureza intacta, como o imaginam os calvino-católicos da igreja holandesa: haveria então somente uma mudança simbólica;

- Nem por uma simples transformação em sua própria matéria, tal como acontece nas mutações físico-químicas que deixam, estas sim, a matéria intacta: haveria então simples associação justaposta de dois sacrifícios sucessivos, o do padre, humano, e o de Cristo;

- Nem por uma aniquilação das duas oblatas, que apagaria então a oblação do padre, substituindo-a pura e simplesmente pela de Cristo;

Mas por uma conversão total de substância em substância.

Então e somente então, o sacrifício do homem, real atual, pessoal, está verdadeiramente confundido com aquele do Senhor; mas o rito do ofertório os tinha antecipadamente e momentaneamente distinguido. O homem trouxe sua parte e o Cristo a assumiu.

Eis aí porque, sob formas bem variadas mas sempre muito expressivas, este rito é encontrado sem exceção em todas as liturgias. E é neste sentido que podemos dizer que o mesmo faz parte "integrante" da Missa.

Integrante, no sentido filosófico do termo: parte de um ser que não constitui sua natureza mas que lhe dá o acabamento conveniente e harmonioso.

Porque, é preciso não esquecer: a "essência" da Missa não é uma essência física, mesmo se esta é profundamente real, de uma realidade que transcende infinitamente o plano dos sinais e dos símbolos. Realidade Sacramental, a do "mistério de fé". Invenção, sim, invenções de um outro mundo, cujos criadores são o Amor e a Arte.

Lembremo-nos da palavra do vinhateiro da parábola, que repartia os salários de modo tão estranho (Mat.XX,15):

"Não me é permitido fazer aquilo que eu quero?"

O que quero: o bel prazer dos músicos e dos amantes. Esferas acima dos números racionais. Quem se lembraria então de falar de "repetição"?

Dizer que o ofertório é uma "duplicação" (doublet) é visão não de liturgista, mas de sacristão. É como se dissesse que a mão esquerda é uma duplicação da direita, porque afinal se pode segurar um castiçal com uma só mão, ou se iluminar com uma só vela.

DA ANARQUIA LAICA DE LUTERO À RESTAURAÇÃO DO CONCÍLIO DE TRENTO

Tal era então a Missa romana, a que o Papa Gregório o Grande tinha celebrado, e Agostinho de Cantorbery, Ambrósio de Metz, Bernold de Constance, João Beletk, Tomás de Aquino, Durand de Mende, Gerson e uma multidão de padrezinhos do interior cujos nomes estão inscritos no Livro da Vida.

...E também o monge Martinho Lutero, durante quinze anos, antes que seu demônio de guarda lhe revelasse que esta Missa era a abominação da desolação (como ele próprio contou em narração inimaginável que seria interessante publicar novamente nesses tempos perturbados).

Mil anos de posse pacífica, feliz, a reconciliar, consolar, confortar iluminar e santificar milhões de almas através das mais variadas circunstâncias de uma história da Igreja por vezes catastrófica.

Sobre um monte, um ostensório imóvel e intacto.

Então veio Lutero com sua tropa disparatada e equívoca.

É preciso dizer, o que ainda não se fez suficientemente, que a revolução protestante foi antes de tudo uma revolução laicista e anti-sacerdotal. Se o monge agostiniano e os seus se lançaram tão furiosamente contra a economia dos Sacramentos e da Missa, é principalmente porque sua grande gana era o sacerdócio.

E atacaram o padre porque o tinham sido e queriam deixar de sê-lo. Toda sua "Teologia" de uma salvação puramente interior, sem mediação humana, fora forjada simplesmente para mascarar sua deserção. A teologia protestante da graça e da fé é uma teologia de "defroqué" que procuram assim justificar sua própria traição.

A lógica desse laicismo, deveria ter conduzido Lutero a suprimir qualquer culto exterior organizado. Escreve J.Paquier:

"Seria seu passado católico e seu bom senso, que lhe aconselharam de se contentar com uma redução e transformação do culto católico prudente, tímida, conservando muita coisa do passado?"

Não seria sobretudo, como o próprio Lutero escreveu, o cuidado de conseguir "com segurança e felicidade" (tuto et feliciter) o fim colimado procedendo por etapas, como outros entre nós o disseram desde 1963? Criar assim, sem abalos violentos nos costumes seculares dos povos, um culto novo que não seria mais sacerdotal?

Os resultados dessas táticas tateantes é o que conhecemos hoje no interior da Igreja desde o final de Vaticano II: anarquia e caos litúrgico. Ao mesmo tempo proliferação de ceias, serviços, cultos, sem regra nem controle que iria fornecer um veículo excepcional para os cismas e heresias. Era urgente unificar e purificar.

Foi o que fez o Concílio de Trento.

Aqui, como em outras matérias, os padres puseram como principal atenção à sua solicitude a obra doutrinal antes da reforma disciplinar.

Ensinar a teologia da Missa e do Sacerdócio: de uma maneira, em primeiro lugar, positiva (os "capítulos") seguida das condenações das heresias correspondentes (os anátemas dos "cânones").

Do próprio culto, o mais urgente a dizer o fora feito a propósito do Cânon, da língua litúrgica e da comunhão em uma só espécie.

Mas não era só isso: era preciso deter o processo da desagregação protestante dos ritos da Missa. Esta estava favorecida pela enorme variedade dos missais católicos e pelos abusos que os padres designavam com nitidez e que enfeixavam em 3 principais: a superstição, a irreverência e a avareza.

Já em Bolonha em 28 de novembro 1547, uma Comissão fora encarregada pelo Concílio de destacar os abusos ou erros "relativos à Missa, às indulgências, ao Purgatório e aos votos monásticos".

Mas foi sobretudo em 1562 que as preocupações ganharam precisão: uma nova Comissão de sete padres é formada em Julho, que cataloga abusos de toda sorte, redige um resumo e por fim uma lista de nove cânones que são submetidos em Setembro à discussão do Concílio.

No se tratava mais do Missal como nos projetos anteriores, onde se podia ler:

"que o sacrifício (res sacra) seja realizado segundo o mesmo rito em toda a parte e por todos, para que a Igreja de Deus tenha somente uma linguagem (unius labii sit) e que não se possa encontrar, entre nós, a menor diferença (dissentio) nessa matéria. Para que se possa chegar a este ponto desejado será talvez necessário tomar as seguintes providências: que todos os Missais, depois de terem sido purificados de orações supersticiosas e apócrifas sejam propostos a todos perfeitamente puros e nítidos (nitida) sem defeitos (íntegra); que sejam idênticos, pelos menos entre todos os padres seculares, salvaguardando os costumes legítimos não abusivos".

"Que certas rúbricas bem fixadas (certae) sejam determinadas; os celebrantes deverão observá-las de maneira uniforme, a fim de que o povo não possa ficar chocado ou escandalizado por ritos novos ou diferentes".

Para resumir: "Que os Missais sejam restaurados segundo o uso e costume antigo da Santa Igreja Romana". (2)

O Concílio se separou antes de ter podido realizar por si próprio as resoluções tomadas. Decidiu confiar a tarefa ao Santo Padre para que ele terminasse a obra "segundo o que julgasse bom e sob sua autoridade".

O Papa que era então Pio IV, instituiu para isso uma Comissão especial, mas morreu antes que os trabalhos estivessem concluídos.

Seu sucessor, Pio V, devia confirmá-la a fim de que viesse a realizar as decisões do Concílio nos próprios termos em que foram expressas:

- unificar os Missais;

- purificá-los de qualquer erro;

- reconduzir o rito romano ao tipo exemplar de sua origem;

- torná-lo obrigatório para todos e;

- respeitar, no entanto, os costumes legítimos.

A graça de realizar esta obra eminentemente religiosa fora reservada pela Divina Providência ao Papa do Santo Rosário.

O organizador da vitória de Lepanto, deveria ser, ele próprio, o restaurador do Missal.

Fonte: Capela

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