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sábado, 29 de novembro de 2008

VERDADEIRA E FALSA RESTAURAÇÃO

Nota: A presente publicação tem por finalidade divulgar o livro "A nova teologia. Os que pensam que venceram". Como também divulgar a biblioteca digital do grupo permanência que disponibiliza este e outros excelentes livros.

 

O Magistério Desprezado

OS QUE PENSAM QUE VENCERAM são os neomodernistas fiéis à linha (se assim se pode dizer) dos padres fundadores da “nova teologia”, e especialmente a linha (tortuosa e confusa) traçada pelo jesuíta Henri de Lubac e pelo exjesuíta Hans Urs von Balthasar1. “Os representantes da nova teologia são exaltados como se fossem a pedra angular da Igreja”, escreveu com razão o pensador Julio Meinvielle.2

Antes de apresentar estes “santos padres” do mundo católico pós-conciliar, é oportuno mostrar, resumidamente, a essência da “nova teologia”.

O Princípio Simples de uma Heresia Completa

O sacerdote e teólogo alemão Johannes Dörmann, em seu melhor livro, A Estranha Teologia de João Paulo II e o Espírito de Assis3, escreve:

“A ‘nova teologia’ se apresenta com várias faces, mas é simples em seu princípio e por ele podem agrupar-se suas múltiplas formas sob o mesmo nome. Suas múltiplas formas têm em comum o fato de rechaçar a teologia tradicional.”4

O autor explica de forma concisa e eficaz o que significa, para o último Concílio, “rechaçar a teologia tradicional” — o Concílio considerou um dever, por motivos pastorais, renunciar à linguagem escolástica:

“É claro que os principais teólogos viram que toda a questão da teologia e da fé estava na questão da linguagem. Pois a linguagem escolástica estava indissoluvelmente ligada à filosofia escolástica, e esta, à teologia escolástica, e finalmente esta à Tradição dogmática da Igreja.”5

Por conseguinte a renúncia à linguagem escolástica conduziria, em última analise, ao adeus à Tradição divino apostólica guardada fielmente pela Igreja.

“O abandono da linguagem da escolástica pelos Padres”, escreve Dörmann, “era para eles [os teólogos dirigentes do Concílio] a condição sine qua non da ruptura com a antiguidade dogmática, para que pudessem colocar em seu lugar a ‘nova teologia’, depois de deixar de usar a ‘antiga’ e se despedir dela.”6

A Utopia

Mas como se chegou ao abandono da teologia tradicional, ou seja, da teologia católica, ligada indissoluvelmente à Tradição dogmática da Igreja?

Com “esta simples e sedutora idéia: uma ‘nova teologia’ adaptada ao caráter científico moderno e à imagem moderna do mundo e da história”7. Em outras palavras, com a velha e sempre renascente utopia da Igreja reconciliada com o “mundo moderno”, aberta ao pensamento filosófico moderno, com o qual Pio IX8 declarou que a Igreja não pode nem deve reconciliarse, em vista de seu caráter essencialmente anticristão:

“Os homens (modernos) em geral desconhecem a verdade e os bens sobrenaturais e pensam poder satisfazer-se somente com a razão humana e com a ordem natural das coisas e assim poder alcançar sua própria perfeição e felicidade.”9

Continua Dörman: “Para os membros da ‘nova teologia’ o aggiornamento significava o resultado da abertura da Igreja ao pensamento moderno [indiferente à verdade e aos bens sobrenaturais], para chegar a uma teologia totalmente diferente, da qual deveria resultar o nascimento de uma nova Igreja [secularizada], adaptada à sua época.”10 É exatamente a utopia do modernismo.

Escrevia o Pe. Garrigou-Lagrange O.P.: “Para onde vai a nova teologia? Volta ao modernismo.”

De fato, escavando mais fundo sob o princípio da nova teologia, encontramos a mesma perversão da noção de verdade, que está na base do modernismo: “A verdade não é mais imutável do que o homem mesmo, pois evolui com ele, nele e por ele.”11 Razão por que o Pe. Garrigou-Lagrange O.P., que não profetizava, mas simplesmente tirava conclusões lógicas, escrevia em 1946:

“Para onde vai esta nova teologia com os novos mestres que a inspiram? Por onde senão pela via do cepticismo, da fantasia e da heresia?”12

Uma Utopia Culpável

As tentativas de conciliar a Igreja com o “mundo moderno” (ou seja, com a filosofia moderna subjetivista e imanentista e a “cultura” imbuída de subjetivismo e de imanentismo que dela emana) não são uma utopia inocente. O Magistério dos Romanos Pontífices fechou repetidamente o caminho a tal tentativa, especialmente o de Gregório XVI (Mirari vos, 1832), o de Pio IX (Syllabus, 1864), o de São Pio X (Pascendi, 1907) e, às portas do último Concílio, o de Pio XII (Humani Generis, 1950). Com esta última Encíclica, desprezada e depois desaprovada e enterrada por aqueles que ela condenava, Pio XII chamava a atenção para o clima que precedia o Concílio, mostrando “com ansiedade” e clareza os perigos da “nova teologia”, que, procurando seus fundamentos fora da filosofia perene, põe em perigo todo o edifício do dogma católico. Pio XII, sobretudo, não deixa de assinalar o desprezo do Magistério que mostra tal atitude:

“[...] a razão só poderá funcionar de modo correto e seguro se houver sido devidamente formada; quer dizer, quando estiver imbuída daquela sã filosofia que recebemos como patrimônio legado pelas gerações cristãs do passado, há tanto tempo constituída, tendo alcançado este grau superior de autoridade justamente porque o próprio magistério da Igreja submeteu suas principais afirmações, descobertas e definidas pouco a pouco por grandes pensadores, às normas da revelação divina. Esta filosofia, reconhecida e aceita pela Igreja, defende o autêntico e exato valor do conhecimento humano, os princípios metafísicos inquestionáveis — a saber, os de razão suficiente, de causalidade e finalidade — e,finalmente, a capacidade de alcançar a verdade certa e imutável.

Nesta filosofia, certamente são expostas muitas coisas que nem direta nem indiretamente tocam as matérias de fé e de costumes e que, portanto, a Igreja deixa à livre discussão dos entendidos; mas em muitas outras coisas não há a mesma liberdade, especialmente quanto aos princípios e acertos principais de que acima falamos [valor do conhecimento humano, princípios básicos da metafísica etc.] [...].

Nem a verdade nem sua exposição filosófica podem estar sendo trocadas cada dia, principalmente quando se trata dos princípios por si evidentes para a mente humana, ou das doutrinas que se apóiam na sabedoria dos séculos, em conformidade e com o apoio da divina Revelação [...].

Por isto, é lamentável que uma filosofia aceita e reconhecida pela Igreja seja hoje desprezada por alguns e imprudentemente chamada de antiquada em sua forma e racionalista, como dizem eles, em seus procedimentos [...].

Entretanto, enquanto desprezam esta filosofia, exaltam outras, antigas ou modernas, do Oriente ou do Ocidente, com o que parecem insinuar que qualquer filosofia ou pensamento pode, com algumas correções, se necessário, conciliar-se com o dogma católico. Mas isto é absolutamente falso, principalmente em se tratando de sistemas como o imanentismo, o idealismo ou o materialismo, histórico ou dialético, ou ainda o existencialismo, quando ateu ou, pelo menos, quando se opõe ao valor do raciocínio metafísico.

Não teríamos de lamentar esses desvios da verdade se todos escutassem o magistério da Igreja com o respeito que lhe é devido, mesmo em matéria filosófica. A ele incumbe, por instituição divina, não somente cuidar e interpretar o depósito da verdade divinamente revelada mas também vigiar acerca dos assuntos filosóficos, para que os dogmas católicos não sofram nenhum dano ocasionado pelas falsas doutrinas.”

Vemos aqui confirmado o que repetimos e provamos há vários anos: apesar de serem membros da hierarquia católica, os neomodernistas desobedecem ao Magistério constante e, portanto, infalível da Igreja, e a “obediência” que impuseram ao novo curso eclesial inclui a obrigação de desobedecer à Igreja.

Verdadeira e Falsa “Restauração”

Do que foi dito acima segue que a verdadeira restauração deverá ocorrer no caminho inverso ao que trouxe a ruptura com a Tradição doutrinal da Igreja:

retorno à filosofia perene, e portanto à teologia escolástica e à tradição dogmática da Igreja, em obediência às diretivas constantes do Magistério pontifício. Os neomodernistas fiéis à “linha” de De Lubac e von Balthasar hoje se apresentam como “moderados” e até “restauradores”, mas absolutamente não pretendem repudiar a “nova teologia”, da qual, queiram ou não, é filha a crise que a Igreja vive em nossos dias. Em dezembro de 1991 dizia, seguro de si mesmo, o Pe. Henrici S.J. a 30 Jours:

“Nossa linha é a do extremo centro. Nem atenção excessiva [sic] ao Magistério nem contestação. Nem direita nem esquerda. Apego à tradição [que, na linguagem de De Lubac e dos ‘novos’ teólogos, não é — como veremos — a Tradição dogmática da Igreja], na linha da nova teologia de Lyon [sede de De Lubac e de ‘outros padres fundadores’], que ensina a não oposição [leia-se identificação] entre natural e sobrenatural, entre fé e cultura, e que se tornou a teologia oficial do Vaticano II.”

“Nova teologia” que, em Humani Generis, Pio XII havia condenado como uma reunião de “falsas opiniões que ameaçam destruir os fundamentos da doutrina católica”!

É pois necessário saber o que há por trás dessa “moderação” dos neomodernistas do “extremo centro, sim, mas sempre neomodernistas.

“A Igreja exige que os futuros sacerdotes sejam formados nas matérias filosóficas, ‘segundo o método, a doutrina e os princípios do Doutor Angélico’ (CIC, Cânon 1366, 2), pois ela sabe muito bem, pela experiência de muitos séculos, que o método e o sistema do Aquinate é muito importante tanto para a instrução dos principiantes como para a investigação das verdades mais escondidas; que sua doutrina ressoa em uníssono com a Revelação divina e é muito eficaz para assegurar os fundamentos da fé e obter com proveito e segurança os frutos de um são progresso (AAS 38, 1946, 387).”13

1 Ver o número anterior de Sim Sim Não Não.

2 A Influência do Agnosticismo Judeu no Meio Cristão.

3 Atualmente só existe uma tradução francesa, das Edições Fideliter,

Estrada do Waldeck, 57230, Eguelshardt, França.

4 P. 55.

5 P. 52.

6 P. 53.

7 P. 55.

8 Cf. Syllabus, proposição nº 80.

9 Vaticano I, esquema preparatório de doutrina católica.

10 P. 54.

11 São Pio X, decreto Lamentabili, proposição condenada nº 58.

12 “La Nouvelle Théologie, où va-t-elle?”, Angelicum 23, 1946, pp. 136- 154.

13 Pio XII, Humani Generis.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Primeiro capítulo do livro "A vida espiritual segundo Santo Tomás de Aquino" de Monsenhor Marcel Lefebvre.

DEUS

A exemplo de Santo Tomás e seguindo-o, nossas considerações serão estabelecidas sobre a fé, sobre a Revelação, e mesmo eventualmente sobre argumentos de razão. "Justus ex fide vivit”: o justo, o santo vive da fé. Porque a fé traz em si, como que em germe, a visão beatífica, e nós fomos criados para esse fim. A fé ilumina nossa inteligência, conferindo-lhe uma sabedoria incomparável.

O primeiro assunto apresentado para estudo na Suma Teológica é Deus. É também o primeiro assunto da oração de Nosso Senhor: “Pai nosso que estais no céu”. É a primeira afirmação do Credo: “Creio em Deus...”, é o primeiro mandamento: “Adorarás a um só Deus”.

Deus é o primeiro bem do homem e é o último, sua origem e seu fim, sua felicidade de todos os dias e da eternidade. Desde os seus primeiros momentos de consciência, a alma da criança deve-se voltar para Deus e desabrochar banhada pelo grande sol de Deus, “qui illuminat omnem hominem venientem in hunc mundum”: “que ilumina todo homem que vem a este mundo” (Jo. 1, 9).

Bem-aventurados os anjos que guardaram inscrito em seus corações “ quis ut Deus.”, “quem é como Deus”, e que perseveraram na provação.

Bem-aventurada a Virgem Maria, imaculada em sua Conceição, que voltou para sempre sua alma a Deus, desde a mais tenra infância.

Bem-aventurada a alma de Nosso Senhor, iluminada pela visão beatífica desde o instante da Criação.

Por que esta lentidão, por que este atraso, por que esta cegueira no conhecimento do amor de Deus, mesmo em muitos batizados?...

Esta constatação suscita lamentações de Nosso Senhor nos Salmos, nos impropérios da Sexta-feira Santa, no primeiro capítulo de São João. Pode-se dizer que a sua agonia no Jardim das Oliveiras era a comprovação desse ateísmo... O amor não é amado: “Non requirunt Deum”... “Non receperunt”, “Não procuram a Deus”, “Não O receberam”.

Este drama nos deixará indiferentes? Esta realidade da ignorância sobre Deus nos excede. O que podemos fazer? Toda a sociedade moderna leva a esta ignorância. Mas não haveria muito dessa ignorância até em nós mesmos? Fazemos um esforço para meditar em Deus, para nos aproximar desse mistério insondável do “Alpha et Omega”, do “Principium et Finis”, do Mistério do amor manifestado no Verbo Encarnado?

Santo Tomás nos convida a conhecer melhor a Deus em sua unidade, em sua Trindade, em suas obras.

Essa contemplação da Trindade bem-aventurada, que fará nossa felicidade eterna, não poderá, na fé do Espírito Santo, dar-nos um esboço, um eflúvio dessa felicidade?

Eis, abaixo, alguns estudos que podem ajudar a completar ou explicar o ensinamento da Suma Teológica de Santo Tomás:

— O Mistério da Santíssima Trindade, de Pe. Emmanuel;
— Jesus Cristo Ideal do Monge, cap. I, de Dom Marmion;
— Les Perfections Divines, do Pe. Garrigou-Lagrange;
— Commentaires de la Somme Théologique, Pe. Pegues e Pe. Hugon;
— Le Noms Divins,do Pe. Lessius.

Não se trata de fazer um estudo teológico, mas de aproximar-nos um pouco da grande realidade de Deus e, diante de seus atributos e suas perfeições infinitas, nos lançarmos em adoração, em humildade, em oblação ardente imitando a Jesus Cristo e à Virgem Maria.

Um pouco mais de conhecimento da infinidade de Deus, de sua infinita caridade e misericórdia deveria fazer-nos progredir na Caridade de Deus, afastar-nos do pecado e confirmar-nos na virtude; aliás, é este o caminho que seguiram as almas santas, sob a influência do Espírito de Jesus.

A EXISTÊNCIA DE DEUS

A fé, que é a ciência mais certa a que nos referimos, ensina-nos a existência de Deus: “Credo in unum Deum Patrem Omnipotentem, creatorem coeli et terrae, visibilium et invisibilium”.

Ela nos ensina que Deus é espírito: “Deus spiritu est”, Nosso Senhor o ensinou à Samaritana. É, pois, um Espírito todo-poderoso que tudo criou.

Houve um momento em que o mundo não existia, em que somente Deus existia eternamente, em sua santidade e em sua felicidade, perfeita e infinita, não tendo nenhuma necessidade de criar. No princípio de sua oração sacerdotal, Jesus faz alusão a esta época: “E agora, Pai, glorificar-me-ei com aquela glória que eu tinha junto de ti, antes que houvesse mundo” (Jo XVII, 5).

A fé ensina-nos que a razão pode chegar à conclusão da existência de Deus, e São Pedro em sua primeira Epístola (I Pe I, 18) repreende os homens com veemência por não haverem conhecido o verdadeiro Deus que se manifesta em suas obras.

Realmente, tudo o que é, tudo o que somos proclama a existência de Deus e canta suas perfeições divinas. Todo o Antigo Testamento e, particularmente, os Salmos e os Livros Sapienciais cantam a glória do Criador. É por isso que na oração litúrgica e sacerdotal os Salmos têm um lugar primordial.

É bom meditar sobre a criação “ex nihilo sui et subjecti”, feita do nada, pela simples decisão do Criador; “qui putas se esse aliquid, cum nihil sit, ipse seducit: se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, ilude-se a si mesmo (Gal VI, 5).

Quanto mais nos aprofundamos nessa realidade, mais ficamos espantados com a onipotência de Deus e com nosso nada, com a necessidade de toda e qualquer criatura ser constantemente sustentada nesta existência, sob pena de desaparecer, de voltar ao nada. É isso o que nos ensinam tanto a fé como a filosofia.

Essa meditação e essa constatação deveriam bastar para nos lançar humildemente a uma adoração profunda, numa atitude imóvel semelhante à imobilidade do próprio Deus. Deveríamos ter uma confiança sem limites naquele que é nosso Tudo e que decidiu criar-nos e salvar-nos.

Com que devoção e sinceridade deveríamos todas as manhãs, no começo das Matinas, recitar o Salmo XCIV: “Vinde, alegremo-nos... Vinde, adoremos... Seu é o mar, pois Ele o fez, e a terra firme que suas mãos formaram, vinde adoremos e prosternemo-nos diante de Deus, choremos diante do Senhor que nos criou, porque Ele é o Senhor nosso Deus, e nós somos seu povo e as ovelhas que Ele pastoreia”.

Como não agradecer à Igreja, que põe suas palavras em nossos lábios para exprimir os mais profundos sentimentos de nossas almas de criaturas!

Se a criação é um grande mistério, é que Deus é para nós o grande Mistério e o permanecerá eternamente na visão beatífica. “Jamais alguém viu a Deus, senão aquele que vem de Deus”: somente o Verbo e o Espírito Santo vêm Deus, sendo de Deus e um só Deus com o Pai (Jo VI, 46).

Abordar os atributos e perfeições de Deus, realidade espiritual que abrange tudo, que vivifica tudo, que sustenta tudo na existência, só poderá aumentar o Mistério divino, para nossa maior satisfação, edificação e santificação.

Santo Tomás diz: “Quanto mais conhecermos perfeitamente a Deus aqui em baixo, melhor compreenderemos que Ele ultrapassa tudo o que a inteligência compreende” (II-II, 8, 3).

Vindo a fé em socorro da razão para nos convencer da existência de Deus, e abrindo-nos horizontes maravilhosos sobre a intimidade de Deus pela Revelação e, sobretudo, pela Encarnação do Verbo divino, devemos interrogá-la para saber se podemos dar a Deus um nome que será próprio de Deus e nos ajudará a melhor conhecê-lo.

Ora, é precisamente o que Deus fez, tanto no Antigo Testamento como no novo. Disse Moisés: “Eu lhes direi, o Deus de vossos pais me enviou a vós. Se eles me perguntarem qual é o seu nome, que lhes responderei? E diz Deus a Moisés: Eu sou Aquele que sou. E ele continua: É assim que responderá aos filhos de Israel: Aquele que é me envia a vós” (Ex III, 13-14); e assim também Nosso Senhor aos judeus que lhes dizem: “Vós não tendes ainda cinqüenta anos e vistes Abraão? Jesus lhes respondeu: Em verdade, em verdade vos digo, antes que Abraão fosse, eu sou” (Jo VIII, 5-9).

Nunca serão suficientemente admiradas essas respostas luminosas que correspondem, aliás, às conclusões de nossa razão. “Deus é”, Ele é “ens a se”, o ser por Ele mesmo; todos os outros seres são “ab alio”, não têm sua razão de ser por eles mesmos.

Essas afirmações simples são uma fonte de meditação e de santificação interminável. Seja o olhar sobre Deus que termina no infinito, seja a constatação dos laços da criatura para com o Criador, ou a visão do nada da criatura, estamos diante do que há de mais verdadeiro, de mais profundo e de mais misterioso em Deus e em nós.

Monsenhor Marcel Lefebvre

Fonte: Associação Cultural Santo Tomás

terça-feira, 11 de novembro de 2008

As três vias e as três conversões - Reginald Garrigou Lagrange

Nota: Clique aqui para ler o primeiro texto e aqui para ver o segundo.

Capítulo V

Características de cada fase da vida espiritual

 

3) A fase dos perfeitos

Qual será o estado da alma dos perfeitos depois desta purifica­ção que, para eles, foi como uma terceira conversão? Eles conhecem a Deus de um modo como que experimental e quase contínuo; não somente nas horas de oração ou do ofício divino, mas ainda no meio das ocupações exteriores, jamais esquecem a presença de Deus. Enquanto no início o homem, ainda egoísta, pensa constantemente em si mesmo e sem perceber, reduz tudo a si, o perfeito pensa constantemente em Deus, na sua glória, na salvação das almas e instintivamente para aí faz tudo convergir. A razão disso está em que ele não contempla mais a Deus somente no espelho das coisas sensíveis, das parábolas ou dos mistérios da vida de Cristo, atitude que não pode durar o inteiro espaço de cada dia; mas na penumbra da fé ele con­templa a bondade divina em si mesma, um pouco assim como vemos constantemente a luz difusa que nos circunda e de cima ilumina to­das as coisas. É, segundo a terminologia de Dionísio, mantida por Santo Tomás (II-II q 180. A6), o movimento da contemplação, não mais direta ou em espiral, mas circular, semelhante ao vôo da águia, que depois de muito se elevar, gosta de traçar muitas vezes o mesmo círculo e planar quase imóvel, observando o horizonte.

Esta contemplação tão simples afasta as imperfeições resul­tantes da pressa natural, da busca inconsciente de si mesmo, da falta do habitual recolhimento.

Estes perfeitos se conhecem a si mesmos, não mais apenas em si, mas em Deus, seu princípio e fim; examinam-se pensando naquilo que está inscrito acerca de sua existência no livro da vida, e não cessam de ver a infinita distância que os separa de seu Criador; daí vem sua humildade. Esta contemplação quase experimental de Deus procede do dom de sabedoria, e por causa de sua simplicidade pode ser quase contínua; perdura no meio do trabalho intelectual, das conversas, das ocupações exteriores. Seria bem diferente se este conhecimento de Deus viesse da sua contemplação no espelho das parábolas ou dos mistérios do Cristo.

Em suma, como o egoísta pensando sempre em si, ama a si mesmo mal, a propósito de tudo, pelo contrário, o perfeito, com pensamento sempre em Deus, ama-O constantemente, não mais ap­enas fugindo do pecado ou imitando as virtudes de Nosso Senhor mas, como diz São Paulo; «aderindo a Ele, fruindo dEle, e deseja partir para estar sempre com Cristo» (12). É o puro amor a Deus e às almas em Deus; é o zelo apostólico, mais ardente do que nunca, mas humilde, paciente e suave. Verdadeiramente, este é o amar a Deus, não apenas «de lodo o coração, de toda a alma. de todas as forças», mas «de todo espírito», pois o perfeito não se eleva apenas de vez em quando àquela região superior de si mesmo; ao contrário, ele está estabelecido nela; está espiritualizado, sobrenaturalizado, tornou-se realmente «um adorador em espírito e em verdade». Quase sempre estas almas conservam a paz, mesmo no meio das mais penosas e imprevistas circunstâncias e muitas vezes a transmitem aos mais perturbados. Foi o que fez Santo Agostinho dizer que a beatitude dos pacíficos corresponde ao dom de sabedoria que, com a caridade, predomina nestas almas, das quais são exemplos eminentes, depois da santa alma de Cristo, a da bemaventurada Virgem Maria. ' Assim se manifesta, a nosso pensar, a legitimidade da tradicional divisão das três fases da vida espiritual como a compreenderam Santo Tomás, Santa Catarina de Sena, Tauler e São João da Cruz. A passagem de uma fase para a outra se explica muito logicamente pela necessidade de uma purificação que, de fato, aparece mais ou menos clara. Não existem quadros artificialmente justapostos de forma mecânica, é um desenvolvimento vital, onde cada etapa tem sua razão de ser. Se nem sempre a coisa foi assim compreendida, é porque não foram notados devidamente os defeitos dos principiantes, mesmo os mais generosos, nem também os dos avançados; daí que não se percebe a necessidade de uma segunda e mesmo de uma terceira conversão; esquece-se que cada uma destas purificações necessárias é mais ou menos bem suportada, com o que se introduz a alma num degrau mais ou menos perfeito da via iluminativa ou da via unitiva (13).

Quem não der bastante atenção à necessidade destas purificações, não poderá ter uma ideia justa do que deve ser o estado da alma dos avançados e dos perfeitos. Sobre a necessidade de uma nova conversão o próprio São Paulo falava aos Colosssenses (3,10): «Não digais mentiras entre vós, porque já vos despojastes do vel­ho homem com suas obras e vos revestistes do novo homem, que renovando-se sem cessar segundo a imagem daquele que o criou, atinge então o conhecimento perfeito... Revesti-vos principalmente da caridade, que é o vínculo da perfeição».

 

Notas:

1) lI-IIae q.24 a.9. Na verdade, responderia eu ao Sr. R Bremond, esta adesão a Deus. ato direto que está no princípio dos atos deduzidos e meditados do perfeito, contém a solução do problema do puro amor a Deus conciliado com um legítimo amor de si mesmo, pois é verdadeiramente se amar em Deus, amando-o mais do que a si mesmo.

2) O carmelita Phílippe de Ia Sainte Trinité, no prólogo de sua Summa Theologiae Mysticae (edição de 1874, pg. 17), também coloca a purificação passiva dos sentidos como transição entre a via purgativa e a via iluminativa, e a purificação passiva do espírito, como disposição à via unitiva. Nisto, como em muitas outras coisas. Th. VaJlgornera O. P. o seguiu e até o copiou literalmente. Antoine du Saint Esprit O.C.D. fez o mesmo, resumindo-o em seu Directorium Mysticum.

sábado, 1 de novembro de 2008

As três vias e as três conversões - Reginald Garrigou Lagrange

Nota: Clique aqui para ler o primeiro texto.

Capítulo V

Características de cada fase da vida espiritual

 

A fase dos avançados

 

A mentalidade dos avançados deve ser descrita como a prec­edente, insistindo-se principalmente no conhecimento e no amor que eles têm a Deus. Com o conhecimento de si mesmos, desenvolve-se um conhecimento quase experimental de Deus, não mais somente no espelho das coisas sensíveis da natureza ou das parábolas, mas no espelho dos mistérios da salvação, com os quais eles vão se familiarizando cada vez mais, e que o Rosário, escola de contemplação, todos os dias põe diante dos olhos deles. Não é mais no espelho do céu estrelado, do mar ou das montanhas que eles contemplam a grandeza de Deus, não é somente no espelho das parábolas do Bom Pastor ou do Filho Pródigo, mas sim no espelho incomparavelmente superior dos mistérios da Encarnação e da Redenção (1). Segundo a terminologia de Dionisio conservada por Santo Tomás (2), a alma se eleva, por um movimento em espiral, dos mistérios da Encarnação ou Infância de Cristo, aos de sua Paixão, Ressurreição, Ascenção e Glória, e nestes mistérios ela contempla a irradiação da soberana bondade de Deus, que assim admiravelmente comunica-se a nós. Nesta contemplação mais ou menos frequente, os avançados recebem, segundo sua fidelidade e generosidade, uma abundância de luz, pelo dom da sabedoria, que os faz penetrar nestes mistérios cada vez mais, ensejando que sintam a beleza deles, tão alta e tão simples, acessível aos humildes que têm um coração puro.

Na fase precedente, o Senhor havia conquistado a sensibilidade deles; agora Ele submete profundamente sua inteligência, elevando-a acima das preocupações excessivas e das complicações de uma ciên­cia demasiadamente humana. Ele as simpliílca. espiritualizando-as.

Em consequência e muito normalmente, estes avançados, assim esclarecidos sobre os mistérios da vida de Cristo, amam a Deus, não somente fugindo do pecado mortal e do pecado venial deliberado, mas imitando as virtudes de Nosso Senhor, sua humildade, sua doçura, sua paciência, observando não apenas os preceitos essenciais a todos, mas também os conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência, ou pelo menos o espírito destes conselhos, evitando as imperfeições.

Como acontece na fase precedente, esta generosidade é recom­pensada, não mais por consolações sensíveis, mas por uma maior abundância maior de luz na contemplação e no apostolado, por vi­vos desejos da glória de Deus e da salvação das almas, por maior facilidade em rezar. Não é raro que haja aqui a oração de quietude, quando a vontade em algum momento é cativada pela atração de Deus. Neste período surge também grande facilidade para agir a serviço de Deus, para ensinar, dirigir obras, organizá-las, etc. Isto é amar a Deus, não apenas de todo coração, mas «de toda alma», em todas atividades, mas não ainda «com todas as forças» nem «com o todo o espírito», pois a alma ainda não está firmada naquela região superior que se chama espírito.

Então, o que acontece geralmente? Sucede algo semelhante ao que aconteceu aos principiantes, recompensados com consolações sensíveis; percebe-se que a alma começa a se acomodar, por um orgulho inconsciente, nesta grande facilidade de rezar ou de agir, de ensinar, de pregar. A pessoa tende a esquecer-se que estes são dons de Deus e a gozar deles com espírito próprio, que absolutamente não convém a um adorador em espírito e em verdade. Não há dúvida que ela trabalha pelo Senhor e pelas almas, mas sem esquecero bastante de si mesma; pela busca inconsciente de si e pela pressa natural, ela se manifesta esquecendo a presença de Deus; talvez creia que pôssa trazer muitos frutos, o que não é certo. A alma se torna largamente confiante de si mesma, dá-se demasiada importância, exagera talvez os próprios talentos, esquece a própria miséria, enquanto nota mais a dos outros; a pureza de intenção, o verdadeiro recolhimento, e a perfeita retidão muitas vezes fazem falta; ainda há ilusão na vida desta alma, como diz Tauler: «o fundo desta alma não é verdadeirarnente de Deus» ao qual oferece apenas a metade da atenção devida, São João da Cruz (Noite Obscura L.II., cap. 2) notou estes defeitos dos avançados, como aparecem nos puros contemplativos, que «escutam a própria fantasia, pensando nelas encontrar conversas com Deus e com os santos», ou que são seduzidos pelas ilusões do malignos. Defeitos não menos dignos de consideração, assinalados por Santo Afonso, por exemplo, encontram-se também nos homens de aposto­lado encarregados de almas. Estes defeitos dos avançados aparecem principalmente nas contradições que sofrem, nos grandes conflitos de opinião, quando às vezes, mesmo nesta fase da via espiritual, algumas vocações se perdem. Torna-se então claro que não se observa convenientemente a presença de Deus e que procurando-O, a alma ainda procura bastante a si mesma. Daí a necessidade de uma terceira purificação do espírito, bem forte, a fim de limpar até o fundo as faculdades superiores.

Sem esta terceira conversão, ninguém poderá entrar na via de união que é a fase adulta da via espiritual.

Esta nova crise foi descrita por São João da Cruz (Noite Obscura L. II., caps. 3 e seguintes), em toda sua agudeza e profundidade, tal como dá nos grandes contemplativos que, habitualmente, sofrem não para serem purificados mas também pelas almas pelas quais ofereceram a Deus. Esta provação se encontra de modo um pouco diferente nos homens de apostolado, muito generosos, que muitas vezes chegam a uma alta perfeição. Esta provação, porém, é frequentemente menos visível neles porque fica misturada aos grandes sofrimentos do apostolado.

Em que consiste essencialmente esta crise? A alma se sente então como despojada. não apenas das consolações sensíveis, mas também das luzes que havia recebido sobre os mistérios da salvação, de seus ardentes desejos, daquela facilidade de agir, de ensinar, de pregar, em que se comprazia por um secreto orgulho, considerando-se superior aos outros. É este o tempo de uma grande aridez, não ap­enas sensível mas espiritual, durante a oração e o ofício divino. Não é raro que surjam fortes tentações, não mais especialmente contra a castidade e a paciência, mas contra as virtudes da parte mais elevada da alma, contra a fé, a esperança e a caridade para com o próximo, e até mesmo contra a caridade para com Deus, que lhes parece cruel por assim provar as almas num tal cadinho. Nesta fase da vida so­brevêm grandes dificuldades no apostolado: calúnias, obstáculos, fracassos. Com frequência, acontece também que o apóstolo sofra calúnias e ingratidão de almas que beneficiou durante longo tempo; isto deve conduzi-lo a amá-las ainda mais, somente por Deus e nEle. Esta crise ou purificação passiva do espírito é, assim, comparável a uma morte mística, à morte do velho homem segundo as palavras de São Paulo: «nosso velho homem foi crucificado com Jesus Cristo, para que o corpo do pecado fosse destruído» (Rom.6,6), É necessário «despojar-vos do velho homem corrompido por cobiças enganado­ras, e vos renovar em vosso espírito e vossos pensamentos, revestin­do-vos do novo homem criado por Deus na justiça e na santidade da verdade» (Ef. 4 22).

Tudo isso é coerente e se situa na lógica do desenvolvimento da vida sobrenatural. «Algumas vezes, diz São João da Cruz, nas dificuldades da purificação a alma se sente ferida e acabrunhada por um forte amor. Trata-se de um ardor que se acende no espírito, quando a alma sobrecarregada de penas é vivissimamente inflamada pelo amor divino». O fogo do amor de Deus é igual ao que progres­sivamente desseca a madeira, a penetra, a inflama e a transforma em si mesmo (3). As provações deste período são permitidas por Deus para conduzir os avançados a uma fé mais elevada, a uma esperança mais firme, a um amor mais puro; pois é absolutamente necessário que o fundo da alma seja de Deus e apenas para Ele. Compreende-se então o sentido das palavras da Escritura: «O Senhor prova os justos como o ouro no cadinho e os recebe como uma hóstia de holocausto» (Sb.3, 6). «Os justos clamam ao Senhor e Ele os escuta; livra-os de todas as suas angústias. Deus está perto daqueles que têm o coração aflito... São frequentes as atribulações dos justos, mas o Senhor os liberta» (SI. 30, 18-23).

Esta crise, como a precedente, não acontece sem perigo; ela pede uma grande magnanimidade, vigilância, uma fé muitas vezes heróica, urna esperança contra toda esperança que, de fato, se trans­forma em perfeito abandono. Pela terceira vez o Senhor trabalha a alma, porém agora mais profundamente, de tal modo que a alma parece desorientada por causa destas aflições espirituais, de que fre­quentemente falaram os Profetas, em particular Jeremias, no capí­tulo 3 das Lamentações.

Aquele que atravessa esta crise realmente ama a Deus não ap­enas de todo o seu coração e de toda sua alma mas, conforme a gradação da Escritura (Deut.6. 5; Luc. 10,27), com todas as suas forças, e está pronto a amá-Lo «com todo o seu espírito» e a se tornar «um adorador em espírito e em verdade», de certo modo fixado naquela parte superior da alma que tudo deve dirigir em nós.

Extraído do livro, "As três vias e as três conversões", Reginald Garrigou Lagrange, Editora Permanência

Notas:

1) Ocasionalmenle, o avançado contempla também a bondade divina na natureza e nas parábolas evangélicas, mas isto não é próprio de seu estado, agora ele está familiarizado com os mistérios da salvação. Mas nem por isso ele atinge, senão raramente e de modo fugaz, o movimento circular ou a contemplação dos perfeitos, que se detêm na bondade divina por ela mesma.

2)ll-Ilaeq.180a.6.

3) O progresso do conhecimento e do amor a Deus que caracteriza a purificação, é que a distingue dos sofrimentos que, sob certos aspectos, a ele se parecem, por exemplo, os da neurastenia. Estes últimos, porém, nada têm de purificador, mesmo que possam ser suportados por amor a Deus e em espírito de abandono. Do mesmo modo, os sofrimentos que nos vêm como consequência de nossa falta de virtude, de uma sensibilidade não disciplinada e exasperada, também não são purificadores por si mesmos, apesar de também poderem ser aceitos como uma humilhação salutar, consequência de nossas faltas e para reparação delas.

domingo, 26 de outubro de 2008

As três vias e as três conversões - Reginald Garrigou Lagrange

Capítulo V

Características de cada fase da vida espiritual

"Justum deduxit Dominus per vias rectas

O Senhor conduz o justo por caminhos retos"

(Sab. X,10)

Vimos as concepções que foram propostas para as três fases da vida espiritual, e especialmente aquela que se apresenta como a mais tradicional. Após haver dito qual a analogia que existe entre estas três fases da vida da alma e as do corpo (infância, adolescência e idade adulta), fizemos notar particularmente como a transição de uma fase espiritual para a outra se faz por momentos dificeís, que relembram aquilo que, na ordem natural, sedá com a crise que acontece aos quatorze ou quinze anos e a da primeira liberdade do adolescente que chega à idade adulta, por volta dos vinte e um anos. Vimos, também, como estas diferentes fases da vida interior correspondem às que se notam na vida dos Apóstolos.

Queremos agora, sob este ângulo de visão e segundo princípios de Santo Tomás e São João da Cruz, descrever brevemente o que constitui cada uma destas três fases dos principiantes, dos avançados e dos perfeitos, a fim de mostrar os momentos sucessivos de uma evolução verdadeiramente normal que, ao mesmo tempo, corresponde à divisão das duas partes da alma (os sentidos e o espírito) e à natureza da graça das virtudes e dos dons, que vivifica a alma cada vez mais, eleva suas faculdades inferiores e superiores, até que o fundo da alma (1) seja purificado de todo egoísmo ou amor próprio e assim se torne todo de DEUS, verdadeiramente e em ilusão. Como veremos, há nisto uma admirável sequência lógica; é a lógica da vida, cuja necesidade é comandada pelo fim último;

<<>>

A fase dos principiantes

A primeira conversão é a passagem do estado de pecado ao estado de graça, quer pelo batismo, quer pela contrição e pela absolvição, se a inocência batismal não houver sido conservada. No Tratado da Graça, a teologia explica detalhadamente o que é a justificação nos adultos, como e porque ela requer, sob o influxo graça, os atos de fé, de esperança, de caridade e de contrição detestação do pecado cometido (2). Esta purificação pela infusão da graça habitual e a remissão dos pecados é, num sentido, o tipo o esboço das purificações futuras, que também comportarão atos de 3 de esperança, de caridade e de contrição. Muitas vezes, esta primeira conversão acontece após uma crise mais ou menos dolorosa, na qual a pessoa se separa progressivamente do espírito do mundo, como o filho pródigo, para voltar a Deus. É o Senhor quem dá o primeiro passo em nossa direção, como sempre ensinou a Igreja em oposição ao semipelagianismo (3), é Ele que nos inspira o bom movimento,' boa vontade inicial, que é o começo da salvação. Para isso, pela graça atual e pela provação, de certo modo Ele trabalha nossa alma antes de nela depositar a semente divina; faz nela um primeiro sulco, sobre o qual voltará mais tarde aprofundando-o cada vez mais, a fim de extirpar as raizes más que tenham ficado, como o vinhateiro que liberta a videira já crescida de tudo o que possa impedir seu desenvolvimento

Depois desta primeira conversão, se a alma em estado de graça não recai mais em pecado, ou se pelo menos logo se levanta afim de caminhar para a frente (4), então estará na via purgativa dos principiantes.

A mentalidade ou estado de alma do principiante pode ser descrita, observando nele sobretudo o que há de essencial na ordem do bem: o conhecimento de Deus e de si mesmo e o amor a Deus. É certo que há principiantes particularmente favorecidos, como os grandes santos que, logo no início, tiveram um grau de graça bem mais elevado do que muitos dos principiantes; assim também, sob o ponto de vista natural, existem prodígios infantis que, todavia, continuam crianças, e então sabe-se em que consiste geralmente a mentalidade daqueles que se iniciam. Começam a conhecer-se a si mesmos, a ver sua miséria, sua indigência e a cada dia devem examinar atentamente a própria consciência a fim de se corrigirem. Ao mesmo tempo, começam a conhecer a Deus no espelho das coisas sensíveis, das coisas da natureza ou das parábolas, por exemplo nas do Filho Pródigo, da Ovelha Perdida e do Bom Pastor. É o movi­mento certo de elevação a Deus, lembrando a andorinha que se eleva da terra para o céu com gritos (5). Neste estado há um amor de Deus proporcionado; os principiantes verdadeiramente generosos amam o Senhor com um santo temor do pecado, temor que os faz fugir do pecado mortal e até do pecado venial deliberado e isto pela morti­ficação dos sentidos e das paixões desregradas, isto é, da concupis­cência da carne e a dos olhos e do orgulho.

Depois de certo tempo desta generosa luta, os principiantes de hábito recebem, como recompensa, consolações sensíveis na oração e também no estudo das coisas divinas. O Senhor faz assim a con­quista da sua sensibilidade, pela qual sobretudo vivem eles; o Senhor os afasta das coisas perigosas e os atrai para si. Neste momento o principiante generoso já ama a Deus «de todo o coração», mas ainda não de toda sua alma ou com todas as suas forças, nem de todo o seu entendimento. Os autores espirituais falam frequentemente do leite da consolação que então lhes é dado. O próprio São Paulo diz (I Cor., 3,2): «Não é como a homens espirituais que vos pude falar, rnas sim como a homens carnais, como a crianças em Cristo. Eu lhes dei leite para be­ber, não alimento sólido, pois ainda não sois capazes de o absorver».

Mas então, o que é que acontece geralmente? Quase todos os principiantes, ao receberem estas consolações sensíveis, comprazem-se demasiadamente nelas, como se elas fossem um fim e não um meio. Dentro de pouco tempo elas se tornam um obstáculo, oca­sião de gula espiritual, de curiosidade no estudo das coisas divinas, de orgulho inconsciente, manifestado quando o principiante fala de­las a todo momento, sob pretexto de apostolado, como se ele já as dominasse. Reaparecem - diz São João da Cruz (Noite Obscura, L.I caps.l a 7) - os sete pecados capitais, não mais sob sua forma gros­seira, mas na ordem das coisas espirituais, como novos obstáculos à verdadeira e sólida piedade.

Em consequência, tem-se nada de mais lógico e mais vital como transição, uma segunda conversão é necessária, aquela descrita por São João da Cruz sob a denominação de purificação passiva dos sentidos, «comum ao maior número de principiantes» (Noite Obscura. Li cap. 8), para introduzi-los «na via íluminativa dos avançados, em que Deus nutre a alma pela contemplação infusa (id, cap. 14). Esta purificação se manifesta por uma aridez sensível e prolongada, na qual o principiante é privado das consolações sensíveis em que tanto se comprazia. Se nesta aridez houver um vivo desejo de Deus, de seu reino em nós e o temor de o ofender, caracteriza-se um segundo sinal da existência de uma purificação feita por Deus. E mais ame se a este vivo desejo de Deus juntar-se a dificuldade na oração ou de fazer considerações múltiplas e raciocinadas e passara prevalecer uma inclinação simples a olhar para o Senhor com amor (Noite Obscura, cap. 9). Este é o terceiro sinal, que indica estar consumada a segunda conversão e que a alma está elevada a uma forma de vida superior, precisamente a via iluminativa.

Se a alma suporta bem esta purificação, sua sensibilidade submete cada vez mais ao espírito; a alma está curada da gula espiritual, da soberba que a levaria a posar como mestra nos assuntos espirituais; aprende assim a melhor conhecer sua própria indigência. Não é raro que então apareçam outras dificuldades purificadoras, exemplo, no estudo, na prática dos diversos deveres de estado, nas relações com as pessoas às quais a alma estava demasiado apegada e que o Senhor algumas vezes afasta repentina e dolorosamente. Neste período, surgem com muita frequência fortes tentações contra a castidade e a paciência, permitidas por Deus a fim de que, por uma vigorosa reação, estas virtudes, que têm sua sede na sensibilidade, se fortifiquem e se fixem realmente em nós. Também podem aparecer doenças para nos provar.

Nesta crise, o Senhor trabalha novamente a alma, aprofunda ainda mais o sulco que havia feito no momento da justificação ou primeira conversão; Ele extirpa as raízes ruins e os restos do pecado <<relíquias peccati>>.

Certamente esta crise não ocorre sem perigo, exatamente como na ordem natural a crise dos catorze ou quinze anos. Alguns nessa ocasião se mostram infiéis à sua vocação. Muitos não atravessam esta prova de modo a poderem entrar na via Íluminativa dos avançados e ficam num certo estado de tibieza; com propriedade, diga-se que não são mais verdadeiros principiantes, mas antes almas retardadas ou enfraquecidas. Em certo sentido, nelas se realizam as palavras da Sagrada Escritura: «não perceberam o tempo da visita do Senhor» (6) na hora da sua segunda conversão. Estas almas, principalmente se estão na vida sacerdotal ou religiosa, não tendem à perfeição tanto como deveriam; sem perceber, elas também paralisam muitas outras e se tornam um penoso obstáculo àquelas que verdadeiramente queriam avançar. Assim, muitas vezes a oração comum em vez de se tornar contemplativa se materializa, tornando-se mecânica; em vez de transportar as almas, são as almas que a carregam; infelizmente pode chegar até a se tornar anticontemplativa.

Ao contrário, naqueles que atravessam esta crise com proveito, (segundo São João da Cruz (Noite obscura L.i cap. 14), ela aparece como o começo da contemplação infusa dos mistérios da fé, acompanhada pelo vivo desejo da perfeição. Então, principalmente sob a luz do dom da sabedoria (7), o principiante que se torna um avançado e entra na via iluminativa conhece muito melhor sua própria miséria, a futilidade das coisas do mundo, da procura das honras e das dignidades; ele se desliga destes obstáculos; é preciso que «dê o passo», como diz o Pé. Lallemant, para entrar na via iluminaíiva. É como uma vida nova que começa, como uma criança que se torna adolescente.

É verdade que esta purificação passiva dos sentidos, mesmo para aqueles que nela entram, é mais ou menos manifesta e também mais ou menos bem suportada. São João da Cruz (Noite Obscura, L I, j cap. 9 fim) já o notou, quando fala daqueles que se mostram menos generosos: «Para eles, a noite de secura dos sentidos é frequentemente interrompida. De vez em quando ela aparece e desaparece; algumas vezes a meditação dedutiva é impossível, outras vezes torna-se facílima... Eles não chegam nunca a frustrar os sentidos de modo a fazer abandonar as considerações e os argumentos; não têm esta graça senão de forma intermitente». Pode-se dizer que têm uma via iluminativa diminuída. São João da Cruz o explica melhor mais adiante (8), atribuindo esta circunstância a falta de generosidade por parte deles: «É preciso explicar aqui porque há tão poucos que conseguem este elevado estado de perfeição e de união com Deus. Não é porque Deus queira limitar esta graça a um pequeno numere de almas superiores, seu desejo é que a alta perfeição seja comum a todos... Ele envia pequenas provações a uma alma e esta se mostra fraca, fugindo imediatamente a todo sofrimento, sem querer aceitar dor alguma... Deus então deixa de atuar para purificar esta alma.., que quer ser perfeita recusando-se deixa-se levar pelo caminho das provações que forma os perfeitos».

Tal é a transição mais ou menos generosa a uma forma de vida superior. Até aqui foi fácil ver a sequência lógica e vital das fases pelas quais a alma deve passar. Não se trata de uma justaposição mecânica de fases sucessivas, mas sim do desenvolvimento orgânico da vida.

Extraído do livro, "As três vias e as três conversões", Reginald Garrigou Lagrange, Editora Permanência

Notas:

1)Esta expressão, preferida por Tauler, tem o mesmo sentido que «cume da alma». É apenas a metáfora que muda, conforme sejam consideradas as coisas sensíveis, como exteriores ou como interiores.

2) Cf. o Concilio de Trento, sessão VI cap. 6 (Denzinger n° 798), e Santo Tomás, l-Ilaeq.113 a.l até a.8 inclusive.

3) Cf. Concilio de Orange (Denzinger n°s 176, 178 eseg.).

4) Santo Tomás explica (IJIa q.89 a.5 ad 3) que o ressurgimento é proporcional ao fervor da contrição; quer dizer, se alguém possuía dois talentos antes de pecar mor­talmente e tem apenas uma contrição suficiente, mas relativamente fraca, talvez só recupere um talento (Resurgit in minore caritate); para que recobre o mesmo grau de graça e de caridade que havia perdido, será necessária uma contrição mais fervorosa e proporcional à falta e ao grau da graça perdida.

5) Algumas vezes, o principiante considera também a bondade divina nos mis­térios da salvação, mas ainda não está familiarizado com eles, pois isto não é próprio de seu estado.

6) Lucas 19,44; Jeremias 50, 31; SI.94, 8; Hebr.3, 8; 15, 4e7.

7) Cf. Sanlo Tomás II-II ae q.9 a.4.

8) Viva Chama, 2 estrofe, verso V - item Cântico Espiritual. IV P, estrofe 39, desde o começo.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O FIM, OS MEIOS E A EXECUÇÃO





R. Garrigou-Lagrange

Muitos erros práticos na vida espiritual provêm do fato de esquecermos de considerar que em tudo é preciso primeiramente querer o fim e que este fim só se realiza ou se obtém em último lugar. Como diz muitas vezes Santo Tomás: “o fim é o primeiro na ordem da intenção e último na ordem da execução” (Ia. IIae., q. 1, a. 4). O doente quer a saúde mais do que os remédios mas só após empregar os remédios é que recobra a saúde desejada. O arquiteto concebe a Igreja que quer construir em toda sua altura mas ele tem, evidentemente, que começar pelas fundações e não pelas abóbadas. Na ordem material, só os loucos é que se afastam deste bom senso elementar. Mas na ordem espiritual é fácil se afastar dele sem se notar. Muitos parecem querer começar pelas abóbadas e flechas e não pelos alicerces, a construção do edifício espiritual ou, para empregar outra imagem, parecem querer voar sem ter asas.

Desejaríamos recordar neste artigo qual é o alcance do princípio que acabamos de lembrar, para o itinerário espiritual. Será este um modo de completar praticamente o que muitas vezes dissemos sobre o caminho normal da santidade onde é preciso, contrariamente aos quietistas, evitar tanto a presunção como a preguiça espiritual, não avançando nem muito cedo nem muito tarde mas, como deseja o Senhor, fortiter e suaviter.

* * *

A intenção do fim deve preceder, é claro, a consideração e a escolha dos meios e por mais forte razão a execução deles.

Quais devem ser desde o começo da vida espiritual as qualidades desta intenção?

A intenção do fim deve ser reta, pura, elevada e eficaz e isto desde o começo de nossa viagem até o fim; sem o que os atos que devem ser praticados não teriam nem retidão nem eficácia.

Deve ser reta, segundo a direção da reta razão, esclarecida pela fé. Em outros termos, ela deve-se voltar com toda pureza para o fim que o próprio Senhor nos assinala. Jesus nos diz no Sermão da Montanha (Mt 6, 22): “Se teus olhos são simples, todo o teu coração será luminoso; mas se teus olhos forem maus, todo teu corpo será tenebroso”. Da mesma maneira, se nossa intenção é reta e pura, toda nossa vida, inspirada nela, terá luz.

A intenção deve ser elevada: “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça e tudo mais vos será dado por acréscimo” (Mt 6, 33). Nós devemos desejar primeiro nosso fim sobrenatural, a vida da eternidade, a possessão inamissível de Deus pela visão beatífica e a glória que deve vir dele. Nossa intenção deve ser pois muitíssimo elevada; por meio dela devemos constantemente tender para Deus sem limitar nossa aspiração a um determinado grau da glória pois não sabemos qual nos foi reservado. Devemos tender também para a plena perfeição cristã, que é realizável aqui na terra, como para o prelúdio normal da vida eterna. É por isto que Nosso Senhor começou seu primeiro sermão da montanha falando aos homens a respeito das bem-aventuranças. Não há objeto mais elevado e mais oposto às máximas da sabedoria humana. “Bem-aventurados os pobres, os mansos, os que choram, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os de coração puro, bem-aventurados os pacíficos, os que sofrem perseguição pela justiça”. Estas bem-aventuranças, diz Santo Tomás depois de Santo Agostinho, são os atos mais elevados das virtudes e dos dons[1], e no entanto Nosso Senhor fala delas desde o início de sua pregação, para mostrar às almas o fim para o qual elas devem tender, o ideal a que elas devem aspirar. Pela mesma razão Santo Tomás começa a exposição da teologia moral pelas questões do fim último e da bem-aventurança no Céu. O fim, que é o último na ordem da execução deve ser, com efeito, o primeiro na ordem da intenção.

Em terceiro lugar a intenção deve ser eficaz e deve até se tornar cada vez mais eficaz sem o que não empregaremos os meios, algumas vezes penosos, que são necessários para obter esse fim; recuaremos diante da cruz. Muitos se contentam com um amor de admiração pelo fim entrevisto, amor que não passa de uma veleidade. Nosso Senhor nos diz sobre isto (Mt 7, 21): Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Não basta um idealismo belo que nada realiza.

Mas também se enganaria no sentido inverso quem, querendo ser muito prático, dissesse: “A via purgativa me basta” e não quisesse aspirar mais alto. A via purgativa, como a mortificação, não passa de um meio em vista à união com Deus, que é preciso primeiramente desejar eficazmente; sem o que não teríamos a coragem de praticar efetivamente as virtudes da via purgativa, a renúncia, com a qual pretenderíamos contentar-nos.

O fim sendo o primeiro na ordem da intenção, a perfeição cristã não diminuída deve ser, desde o começo da vida espiritual, vivamente desejada, querida por uma vontade reta, pura, elevada e eficaz e à medida que avançamos, estas qualidades de intenção devem aumentar com a caridade que deve sempre crescer aqui na terra em nossas almas pelos nossos méritos e pela freqüente comunhão.

* * *

Após a intenção do fim, é preciso passar à consideração e à escolha dos meios, e depois à execução. Esta consideração deve descer da apreciação do fim desejado para a apreciação dos meios que lhe são subordinados, até aos meios mais ínfimos porém indispensáveis, que devemos empregar todos os dias na prática de nossos deveres de estado, alguns às vezes muito modestos segundo o lugar onde a Providência nos colocou. É preciso, aqui, não negligenciar a consideração do que São Francisco de Sales chama as pequenas virtudes que são como flores da caridade sem as quais as relações com o próximo se tornam tensas e quase impossíveis: doçura, afabilidade, prontidão no prestar serviço, em interpretar acontecimentos com bons olhos, etc... É preciso não se contentar com vagas generalidades sobre o fim proposto; não é suficiente dizer: “É preciso fazer tudo pelo amor de Deus”; é preciso ver, cada dia, em que consistem nossos deveres de estado, que são um dos grandes meios de santificação para nós, de conformidade com a vontade de Deus. É preciso não negligenciar os deveres de estado por uma piedade idealista e sentimental, mal entendida, que não passará de uma fantasia piedosa. É preciso descer portanto até o detalhe dos meios a empregar para se santificar na vida quotidiana, pois os atos humanos são atos contingentes e particulares, postos hic et nunc, em circunstâncias muito determinadas. Aqui, é preciso estar atento a todas as direções da obediência, e a prudência deve aproveitar tudo que pode assegurar a retidão de nossa marcha para frente, no meio em que nos encontramos, no relacionamento com nossos superiores e com nossos iguais. Deste ponto de vista não há nada de pequeno na vida cristã: os atos mais simples, necessários para a prática dos deveres de estado mais elementares, têm alguma coisa de grandioso em relação ao fim último sobrenatural e à caridade que nos deve inspirar em vista deste fim. Compreende-se assim que a perfeição não consiste em fazer coisas brilhantes, extraordinárias, mas em fazer extraordinariamente bem as coisas ordinárias da vida cristã: assistir bem à santa missa, preparar-se seriamente para a santa comunhão, fazer bem a ação de graças, e viver deste tesouro da vida divina, praticando nossos deveres com uma intenção sempre mais pura e mais firme, apesar das dificuldades e atropelos, com o que Nosso Senhor chama “fome e sede de justiça de Deus”.

* * *

Enfim, assim como a consideração dos meios deve descer até os meios mais ínfimos, a execução deve-se elevar destes meios até o fim a conquistar. A execução deve ser uma ascensão contínua que começa pelos meios inferiores indispensáveis, que se deve ensinar aos principiantes, sob pena de comprometer-lhes o futuro espiritual, do mesmo modo como, para ir fazer uma visita a um personagem importante, veste-se uma roupa conveniente para a ocasião ou para reparar um doutorado na Universidade, é preciso fazer a inscrição e seguir os cursos.

Aqui, nesta ascensão, é preciso não se precipitar e querer chegar ao termo mais rápido do que convém. Em nossa época de vida efervescente é muito comum levar as inteligências e as vontades à maturidade antes da hora, como que pondo numa estufa frutos que amadureceriam antes da estação. Mas um fruto amadurecido à força não se conserva por muito tempo e logo estará passado.

* * *

Que nos diz Nosso Senhor para nos curar de tal defeito? Notemos que ele começou sua pregação pelas bem-aventuranças para nos mostrar o altíssimo fim ao qual devemos tender: “Procurai primeiro o reino de Deus e sua justiça e todo o resto vos será dado por acréscimo”. (Mt 6, 33) Mas quando se trata de passar a execução, de começar a caminhada em direção a tão alto fim, entrevisto e desejado, Nosso Senhor, sobretudo formando os Apóstolos, insiste na humildade. Nosso Senhor, que não cessa de elevar seus corações, lhes diz também: “Se não vos tornardes semelhantes a uma criancinha, não entrareis no reino dos céus” (Mt 18, 3) Lembremo-nos em que ocasião estas palavras foram pronunciadas. São Marcos nos conta que Jesus, caminhando com os apóstolos pela Galiléia, lhes anunciava uma Paixão mas os apóstolos não compreendiam suas palavras e temiam interrogá-lo. “E chegaram a Cafarnaum”, diz São Marcos (9, 32). Quando estavam já em casa, perguntou-lhes Jesus: “De que faláveis vós outros pelo caminho?”. Mas eles se calaram porque pelo caminho haviam discutido entre si qual deles seria o maior. Sentando-se, pois, ele chamou os doze e lhes disse: “Se alguém quer ser o primeiro seja o último de todos e o servo de todos”. Está bem clara, na linguagem simples e elevada de Jesus, a oposição entre a ordem da intenção e a da execução: para atingir este fim tão alto que é a santidade é preciso começar pela humildade. Quanto mais algo for o edifício espiritual, mais profundos devem ser os alicerces. E além disso não basta cavar os alicerces de uma vez por todas no começo da obra mas será preciso cavar mais profundamente, aqui e ali à medida que cresce o edifício, para a humildade crescer com a caridade. É isto que Jesus quer dizer aos Apóstolos: “E tomando um menino, diz São Marcos, pô-lo no meio deles; depois de o abraçar, disse-lhes:— Todo aquele que recebe um desses meninos em meu nome, a mim é que recebe; todo o que me recebe, não recebe a mim mas Àquele que me enviou”.

São Lucas (9, 46) conta também que os Apóstolos não compreenderam então que Jesus lhe anunciava sua Paixão: “Veio-lhes então o pensamento de qual deles seria o maior. Mas Jesus, conhecendo os pensamentos de seus corações, tomou um menino, pô-lo junto de si e lhes disse: — Todo o que recebe esse menino em meu nome, a mim recebe; e quem recebe a mim recebe Aquele que me enviou; pois quem dentre vós todos é o menor, esse é o maior”. São Mateus (18, 4) dá-nos a explicação dessas últimas palavras: “Todo aquele pois que se humilha como esse menino, esse será o maior no reino dos céus”. A criancinha está isenta de orgulho, de malícia, de concupiscência, de rancor, esquece logo o mal que lhe fazem; depois, é simples e consciente de sua fraqueza, pede socorro a seu pai e a sua mãe.

Assim deve ser o cristão diante de Deus para entrar no reino dos céus; isento de orgulho, simples, consciente de sua fraqueza. É aos humildes que Deus dá a sua graça. Assim também nós somos levados a nos inclinar para a criancinha, a ajudá-la e dar-lhe tudo que podemos, enquanto que nos afastamos da criança pretensiosa que perdeu sua graça e a simplicidade da infância em troca de uma vaidade ridícula.

O cristão quando é verdadeiramente humilde, começa e continua como deve sua viagem para a eternidade; sem precipitação alguma, ele chegará muito alto. Ele não deseja de modo desregrado sua própria excelência, não se estima como digno de grandes coisas; mais ele é humilde, mais ele ama a Deus e deseja glorificá-lo, desprezando sua própria excelência, cuja procura diminuiria em si o esplendor da glória divina.

Este princípio de infância espiritual foi ensinado por todos os santos, especialmente os fundadores da Ordem, na formação de seus discípulos. O Senhor, nos últimos tempos, nos lembrou de uma maneira singularmente eloqüente e persuasiva este espírito na pessoa de Santa Teresa do Menino Jesus. Esta necessidade se fazia sentir. Nossa época não conhecia mais, por causa de sua presunção e de seu frenesi, estas qualidades da verdadeira infância sem as quais não se terá nunca as qualidades da adolescência nem as de uma idade mais avançada. Ao mesmo tempo em que ela nos lembra a humildade, Santa Teresa do Menino Jesus nos diz toda a confiança filial que devemos ter em Deus e tudo o que Ele está pronto a nos dar para nos prender mais intimamente a Ele. Ela nos mostra admiravelmente as graças sempre novas de luz e de amor que se encontram no caminho normal da santidade.

Para isso não se trata de receber a verdade somente do modo intelectual assim como se escuta com atenção uma conferência interessante. É preciso que a alma inteira, inteligência e vontade, receba a verdade e o bem que lhe são propostos em uma doutrina que, como o dom da sabedoria, [3] é ao mesmo tempo especulativa e prática, doutrina de vida.

É preciso recebê-la humildemente, pelos intermediários que Deus quis que fossem os nossos e que têm a graça de estado para nos esclarecer. Receber “como uma criancinha”, diz Nosso Senhor, com simplicidade, pondo em seguida em prática o que nos foi dito; pois, nesse caso, é pela prática que se vai à teoria, no sentido de que é pela prática das virtudes que nos preparamos para receber a contemplação verdadeiramente viva e saborosa dos mistérios da salvação.

Assim recebe aquele que entrou nesta infância espiritual da qual falava Jesus aos seus discípulos e que é o antípoda das criancices de uma vã e tola pretensão. A presunção, querendo-se elevar muito depressa, não atinge nem mesmo os degraus inferiores da escala espiritual. O espírito de infância de que fala Jesus, ao contrário, predispõe a chegar em tempo normal à verdadeira maturidade que só virá na hora marcada por Deus.

Há, pois, uma grande diferença entre um intelectual apressado em se instruir e um contemplativo. Nosso Senhor alude a isto dizendo: “Eu vos dou graças, Pai, porque escondestes estas coisas aos prudentes e sábios e as revelastes aos pequeninos”.

São José, que não era um intelectual foi certamente um dos maiores contemplativos de todos os tempos; quem pode descrever o aumento de caridade, de inteligência e de sabedoria que ele recebia do Verbo de Deus feito homem, quando, no silêncio da casa de Nazaré, ele o contemplava com amor! O Santo Cura d’Ars que tampouco era um intelectual, também foi, em sua aldeia, um grande contemplativo. Nada via do imenso bem que realizava todos os dias mas via se elevar cada vez mais o ideal do sacerdócio, e dele se julgava sempre mais afastado.

Para ser contemplativo, é preciso não ter a alma inflada de orgulho, é preciso ser simples e humilde em relação a Deus, como uma criança. “Deus superbis resistit humilibus autem dat gratiam” (Tg 4, 6). É aos humildes que Deus dá sua graça e os faz humildes para os cumular de graça. Então seu reino se estabelece verdadeiramente nestas almas, nestas inteligências, nestas vontades, nestes corações.

* * *

Finalmente se realiza o ideal entrevisto e desejado no primeiro dia, segundo o princípio que citamos no começo: em tudo é preciso primeiramente considerar e querer o fim, que só se realizará em último lugar. É preciso não negligenciar os meios inferiores, indispensáveis para a prática cotidiana de nossos deveres de estado, às vezes muito modestos; é preciso não saltar por cima dos degraus mas acelerar lentamente e finalmente se chega ao fim. Com dizia um santo diretor: “Quando trabalhamos assim para o bom Deus chegamos a fazer mais e menos do que tínhamos sonhado”; menos porque sobram sempre lacunas que esperávamos preencher mais ligeiro, e que o Senhor deixa para nos manter humildes; mas também avançando seriamente, fazemos mais do que havíamos sonhado, pois o bom Deus, por sua graça, fecunda nossos esforços além de nossas esperanças. “Deus, qui dives est in misericordia... convivificavit nos in Christo, et conresuscitavit et conculis supervenientibus abundantes divitias gratiæ suæ in bonitate super nos in Christo Jesu” (Ef 2, 4). “Deus que é rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, mesmo quando estávamos mortos pelos pecados, nos convivificou em Cristo (por cuja graças fostes salvos); e com ele nos ressuscitou e fez sentar nos céus com Cristo Jesus, para mostrar, nos séculos futuros, a infinita riqueza da sua graça, por sua bondade para conosco em Jesus Cristo”.

Uma vida bela, diz-se, é um pensamento da juventude realizado na idade madura, e realizado muitas vezes sem que saibamos, porque a alma voltada para Deus, não se volta mais para si mesma.

Evitamos assim dois tropeços: o dos idealistas que nada realizam, ou fazem só a aparência do bem, e o daqueles que se dizem práticos e perdem de vista a altura do fim a atingir.

Os idealistas no mais das vezes, se contentam em conceber o ideal e admirá-lo; quando procuram realizá-lo não pensam, como deviam, nos meios inferiores e no entanto indispensáveis. Esquecem que para fazer uma bela estátua de Cristo, não é suficiente se ter um belo modelo, é preciso também ver se a argila que se vai usar não é nem muito úmida nem muito seca. Estando atentos apenas à forma e não à matéria, podem muitas vezes fazer monstros, aplicando uma forma belíssima a um objeto que está longe de ter a disposição necessária para recebe-la. Ou ainda fazem uma imitação no campo da espiritualidade, dando aos iniciantes uma direção que convém aos adiantados.

Por outro lado a atenção dada aos meios às vezes ínfimos, porém necessários, não deve nos deixar cair em minúcias, como acontece com o espírito esmiuçador que, sob o pretexto de ser muito prático, perde de vista a elevação do fim a atingir. Falando desses meios ínfimos, o tom e o acento devem lembrar a grandeza do fim; é preciso sentir, na prática das virtudes morais, o sopro e o élan das virtudes teologais que devem inspirá-las, o espírito de fé, de confiança e de amor de Deus.

É por isso que convém ler livros ascéticos escritos por espirituais que, como o autor da Imitação, não esquecem que a ascese é ordenada à mística, como coroamento normal, que as almas generosas alcançarão na hora querida pelo Senhor.

Assim são resolvidas muitas dificuldades e evitam-se muitos erros práticos em espiritualidade. Não nos intrometemos, como os quietistas, nas vias místicas nem simulamos, antes da hora, o repouso da contemplação. Esta é infusa e só Deus pode dá-la. Mas Ele tem o hábito de concedê-la às almas verdadeiramente humildes e generosas que, fazendo cada coisa a seu tempo, não negligenciaram as virtudes pequenas, a prática exata de seus deveres de estado, e que, pela comunhão quotidiana, cada dia mais fervorosa, pela aceitação sobrenatural da cruz, se encaminham para a intimidade da união divina.

Então, no crepúsculo da vida, a realização se encontra com a intenção primeira. Esta, desde o começo, devia ser reta, pura, elevada e eficaz; essas qualidades não cessaram de aumentar nela; ultrapassou-se o idealismo e chegou-se a um santo realismo que não foi obtido pela diminuição do ideal mas pela fidelidade constante Àquele único que pode, como Ele o disse, dar a vida e a dar com abundância: Veni ut vitam habeant, et abundantius habeant (Jo 10, 10).

(Trad: Anna Luiz Fleichman. "Perfection Chretienne et Contemplation", págs. 779ss, vol. II. Revista Permanência, Set.-Out. 77)

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