sábado, 1 de novembro de 2008

As três vias e as três conversões - Reginald Garrigou Lagrange

Nota: Clique aqui para ler o primeiro texto.

Capítulo V

Características de cada fase da vida espiritual

 

A fase dos avançados

 

A mentalidade dos avançados deve ser descrita como a prec­edente, insistindo-se principalmente no conhecimento e no amor que eles têm a Deus. Com o conhecimento de si mesmos, desenvolve-se um conhecimento quase experimental de Deus, não mais somente no espelho das coisas sensíveis da natureza ou das parábolas, mas no espelho dos mistérios da salvação, com os quais eles vão se familiarizando cada vez mais, e que o Rosário, escola de contemplação, todos os dias põe diante dos olhos deles. Não é mais no espelho do céu estrelado, do mar ou das montanhas que eles contemplam a grandeza de Deus, não é somente no espelho das parábolas do Bom Pastor ou do Filho Pródigo, mas sim no espelho incomparavelmente superior dos mistérios da Encarnação e da Redenção (1). Segundo a terminologia de Dionisio conservada por Santo Tomás (2), a alma se eleva, por um movimento em espiral, dos mistérios da Encarnação ou Infância de Cristo, aos de sua Paixão, Ressurreição, Ascenção e Glória, e nestes mistérios ela contempla a irradiação da soberana bondade de Deus, que assim admiravelmente comunica-se a nós. Nesta contemplação mais ou menos frequente, os avançados recebem, segundo sua fidelidade e generosidade, uma abundância de luz, pelo dom da sabedoria, que os faz penetrar nestes mistérios cada vez mais, ensejando que sintam a beleza deles, tão alta e tão simples, acessível aos humildes que têm um coração puro.

Na fase precedente, o Senhor havia conquistado a sensibilidade deles; agora Ele submete profundamente sua inteligência, elevando-a acima das preocupações excessivas e das complicações de uma ciên­cia demasiadamente humana. Ele as simpliílca. espiritualizando-as.

Em consequência e muito normalmente, estes avançados, assim esclarecidos sobre os mistérios da vida de Cristo, amam a Deus, não somente fugindo do pecado mortal e do pecado venial deliberado, mas imitando as virtudes de Nosso Senhor, sua humildade, sua doçura, sua paciência, observando não apenas os preceitos essenciais a todos, mas também os conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência, ou pelo menos o espírito destes conselhos, evitando as imperfeições.

Como acontece na fase precedente, esta generosidade é recom­pensada, não mais por consolações sensíveis, mas por uma maior abundância maior de luz na contemplação e no apostolado, por vi­vos desejos da glória de Deus e da salvação das almas, por maior facilidade em rezar. Não é raro que haja aqui a oração de quietude, quando a vontade em algum momento é cativada pela atração de Deus. Neste período surge também grande facilidade para agir a serviço de Deus, para ensinar, dirigir obras, organizá-las, etc. Isto é amar a Deus, não apenas de todo coração, mas «de toda alma», em todas atividades, mas não ainda «com todas as forças» nem «com o todo o espírito», pois a alma ainda não está firmada naquela região superior que se chama espírito.

Então, o que acontece geralmente? Sucede algo semelhante ao que aconteceu aos principiantes, recompensados com consolações sensíveis; percebe-se que a alma começa a se acomodar, por um orgulho inconsciente, nesta grande facilidade de rezar ou de agir, de ensinar, de pregar. A pessoa tende a esquecer-se que estes são dons de Deus e a gozar deles com espírito próprio, que absolutamente não convém a um adorador em espírito e em verdade. Não há dúvida que ela trabalha pelo Senhor e pelas almas, mas sem esquecero bastante de si mesma; pela busca inconsciente de si e pela pressa natural, ela se manifesta esquecendo a presença de Deus; talvez creia que pôssa trazer muitos frutos, o que não é certo. A alma se torna largamente confiante de si mesma, dá-se demasiada importância, exagera talvez os próprios talentos, esquece a própria miséria, enquanto nota mais a dos outros; a pureza de intenção, o verdadeiro recolhimento, e a perfeita retidão muitas vezes fazem falta; ainda há ilusão na vida desta alma, como diz Tauler: «o fundo desta alma não é verdadeirarnente de Deus» ao qual oferece apenas a metade da atenção devida, São João da Cruz (Noite Obscura L.II., cap. 2) notou estes defeitos dos avançados, como aparecem nos puros contemplativos, que «escutam a própria fantasia, pensando nelas encontrar conversas com Deus e com os santos», ou que são seduzidos pelas ilusões do malignos. Defeitos não menos dignos de consideração, assinalados por Santo Afonso, por exemplo, encontram-se também nos homens de aposto­lado encarregados de almas. Estes defeitos dos avançados aparecem principalmente nas contradições que sofrem, nos grandes conflitos de opinião, quando às vezes, mesmo nesta fase da via espiritual, algumas vocações se perdem. Torna-se então claro que não se observa convenientemente a presença de Deus e que procurando-O, a alma ainda procura bastante a si mesma. Daí a necessidade de uma terceira purificação do espírito, bem forte, a fim de limpar até o fundo as faculdades superiores.

Sem esta terceira conversão, ninguém poderá entrar na via de união que é a fase adulta da via espiritual.

Esta nova crise foi descrita por São João da Cruz (Noite Obscura L. II., caps. 3 e seguintes), em toda sua agudeza e profundidade, tal como dá nos grandes contemplativos que, habitualmente, sofrem não para serem purificados mas também pelas almas pelas quais ofereceram a Deus. Esta provação se encontra de modo um pouco diferente nos homens de apostolado, muito generosos, que muitas vezes chegam a uma alta perfeição. Esta provação, porém, é frequentemente menos visível neles porque fica misturada aos grandes sofrimentos do apostolado.

Em que consiste essencialmente esta crise? A alma se sente então como despojada. não apenas das consolações sensíveis, mas também das luzes que havia recebido sobre os mistérios da salvação, de seus ardentes desejos, daquela facilidade de agir, de ensinar, de pregar, em que se comprazia por um secreto orgulho, considerando-se superior aos outros. É este o tempo de uma grande aridez, não ap­enas sensível mas espiritual, durante a oração e o ofício divino. Não é raro que surjam fortes tentações, não mais especialmente contra a castidade e a paciência, mas contra as virtudes da parte mais elevada da alma, contra a fé, a esperança e a caridade para com o próximo, e até mesmo contra a caridade para com Deus, que lhes parece cruel por assim provar as almas num tal cadinho. Nesta fase da vida so­brevêm grandes dificuldades no apostolado: calúnias, obstáculos, fracassos. Com frequência, acontece também que o apóstolo sofra calúnias e ingratidão de almas que beneficiou durante longo tempo; isto deve conduzi-lo a amá-las ainda mais, somente por Deus e nEle. Esta crise ou purificação passiva do espírito é, assim, comparável a uma morte mística, à morte do velho homem segundo as palavras de São Paulo: «nosso velho homem foi crucificado com Jesus Cristo, para que o corpo do pecado fosse destruído» (Rom.6,6), É necessário «despojar-vos do velho homem corrompido por cobiças enganado­ras, e vos renovar em vosso espírito e vossos pensamentos, revestin­do-vos do novo homem criado por Deus na justiça e na santidade da verdade» (Ef. 4 22).

Tudo isso é coerente e se situa na lógica do desenvolvimento da vida sobrenatural. «Algumas vezes, diz São João da Cruz, nas dificuldades da purificação a alma se sente ferida e acabrunhada por um forte amor. Trata-se de um ardor que se acende no espírito, quando a alma sobrecarregada de penas é vivissimamente inflamada pelo amor divino». O fogo do amor de Deus é igual ao que progres­sivamente desseca a madeira, a penetra, a inflama e a transforma em si mesmo (3). As provações deste período são permitidas por Deus para conduzir os avançados a uma fé mais elevada, a uma esperança mais firme, a um amor mais puro; pois é absolutamente necessário que o fundo da alma seja de Deus e apenas para Ele. Compreende-se então o sentido das palavras da Escritura: «O Senhor prova os justos como o ouro no cadinho e os recebe como uma hóstia de holocausto» (Sb.3, 6). «Os justos clamam ao Senhor e Ele os escuta; livra-os de todas as suas angústias. Deus está perto daqueles que têm o coração aflito... São frequentes as atribulações dos justos, mas o Senhor os liberta» (SI. 30, 18-23).

Esta crise, como a precedente, não acontece sem perigo; ela pede uma grande magnanimidade, vigilância, uma fé muitas vezes heróica, urna esperança contra toda esperança que, de fato, se trans­forma em perfeito abandono. Pela terceira vez o Senhor trabalha a alma, porém agora mais profundamente, de tal modo que a alma parece desorientada por causa destas aflições espirituais, de que fre­quentemente falaram os Profetas, em particular Jeremias, no capí­tulo 3 das Lamentações.

Aquele que atravessa esta crise realmente ama a Deus não ap­enas de todo o seu coração e de toda sua alma mas, conforme a gradação da Escritura (Deut.6. 5; Luc. 10,27), com todas as suas forças, e está pronto a amá-Lo «com todo o seu espírito» e a se tornar «um adorador em espírito e em verdade», de certo modo fixado naquela parte superior da alma que tudo deve dirigir em nós.

Extraído do livro, "As três vias e as três conversões", Reginald Garrigou Lagrange, Editora Permanência

Notas:

1) Ocasionalmenle, o avançado contempla também a bondade divina na natureza e nas parábolas evangélicas, mas isto não é próprio de seu estado, agora ele está familiarizado com os mistérios da salvação. Mas nem por isso ele atinge, senão raramente e de modo fugaz, o movimento circular ou a contemplação dos perfeitos, que se detêm na bondade divina por ela mesma.

2)ll-Ilaeq.180a.6.

3) O progresso do conhecimento e do amor a Deus que caracteriza a purificação, é que a distingue dos sofrimentos que, sob certos aspectos, a ele se parecem, por exemplo, os da neurastenia. Estes últimos, porém, nada têm de purificador, mesmo que possam ser suportados por amor a Deus e em espírito de abandono. Do mesmo modo, os sofrimentos que nos vêm como consequência de nossa falta de virtude, de uma sensibilidade não disciplinada e exasperada, também não são purificadores por si mesmos, apesar de também poderem ser aceitos como uma humilhação salutar, consequência de nossas faltas e para reparação delas.

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