segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Primeiro capítulo do livro "A vida espiritual segundo Santo Tomás de Aquino" de Monsenhor Marcel Lefebvre.

DEUS

A exemplo de Santo Tomás e seguindo-o, nossas considerações serão estabelecidas sobre a fé, sobre a Revelação, e mesmo eventualmente sobre argumentos de razão. "Justus ex fide vivit”: o justo, o santo vive da fé. Porque a fé traz em si, como que em germe, a visão beatífica, e nós fomos criados para esse fim. A fé ilumina nossa inteligência, conferindo-lhe uma sabedoria incomparável.

O primeiro assunto apresentado para estudo na Suma Teológica é Deus. É também o primeiro assunto da oração de Nosso Senhor: “Pai nosso que estais no céu”. É a primeira afirmação do Credo: “Creio em Deus...”, é o primeiro mandamento: “Adorarás a um só Deus”.

Deus é o primeiro bem do homem e é o último, sua origem e seu fim, sua felicidade de todos os dias e da eternidade. Desde os seus primeiros momentos de consciência, a alma da criança deve-se voltar para Deus e desabrochar banhada pelo grande sol de Deus, qui illuminat omnem hominem venientem in hunc mundum”: “que ilumina todo homem que vem a este mundo” (Jo. 1, 9).

Bem-aventurados os anjos que guardaram inscrito em seus corações “ quis ut Deus.”, “quem é como Deus”, e que perseveraram na provação.

Bem-aventurada a Virgem Maria, imaculada em sua Conceição, que voltou para sempre sua alma a Deus, desde a mais tenra infância.

Bem-aventurada a alma de Nosso Senhor, iluminada pela visão beatífica desde o instante da Criação.

Por que esta lentidão, por que este atraso, por que esta cegueira no conhecimento do amor de Deus, mesmo em muitos batizados?...

Esta constatação suscita lamentações de Nosso Senhor nos Salmos, nos impropérios da Sexta-feira Santa, no primeiro capítulo de São João. Pode-se dizer que a sua agonia no Jardim das Oliveiras era a comprovação desse ateísmo... O amor não é amado: “Non requirunt Deum”... “Non receperunt”, “Não procuram a Deus”, “Não O receberam”.

Este drama nos deixará indiferentes? Esta realidade da ignorância sobre Deus nos excede. O que podemos fazer? Toda a sociedade moderna leva a esta ignorância. Mas não haveria muito dessa ignorância até em nós mesmos? Fazemos um esforço para meditar em Deus, para nos aproximar desse mistério insondável do “Alpha et Omega”, do “Principium et Finis”, do Mistério do amor manifestado no Verbo Encarnado?

Santo Tomás nos convida a conhecer melhor a Deus em sua unidade, em sua Trindade, em suas obras.

Essa contemplação da Trindade bem-aventurada, que fará nossa felicidade eterna, não poderá, na fé do Espírito Santo, dar-nos um esboço, um eflúvio dessa felicidade?

Eis, abaixo, alguns estudos que podem ajudar a completar ou explicar o ensinamento da Suma Teológica de Santo Tomás:

O Mistério da Santíssima Trindade, de Pe. Emmanuel;
Jesus Cristo Ideal do Monge, cap. I, de Dom Marmion;
Les Perfections Divines, do Pe. Garrigou-Lagrange;
Commentaires de la Somme Théologique, Pe. Pegues e Pe. Hugon;
Le Noms Divins,do Pe. Lessius.

Não se trata de fazer um estudo teológico, mas de aproximar-nos um pouco da grande realidade de Deus e, diante de seus atributos e suas perfeições infinitas, nos lançarmos em adoração, em humildade, em oblação ardente imitando a Jesus Cristo e à Virgem Maria.

Um pouco mais de conhecimento da infinidade de Deus, de sua infinita caridade e misericórdia deveria fazer-nos progredir na Caridade de Deus, afastar-nos do pecado e confirmar-nos na virtude; aliás, é este o caminho que seguiram as almas santas, sob a influência do Espírito de Jesus.

A EXISTÊNCIA DE DEUS

A fé, que é a ciência mais certa a que nos referimos, ensina-nos a existência de Deus: “Credo in unum Deum Patrem Omnipotentem, creatorem coeli et terrae, visibilium et invisibilium”.

Ela nos ensina que Deus é espírito: “Deus spiritu est”, Nosso Senhor o ensinou à Samaritana. É, pois, um Espírito todo-poderoso que tudo criou.

Houve um momento em que o mundo não existia, em que somente Deus existia eternamente, em sua santidade e em sua felicidade, perfeita e infinita, não tendo nenhuma necessidade de criar. No princípio de sua oração sacerdotal, Jesus faz alusão a esta época: “E agora, Pai, glorificar-me-ei com aquela glória que eu tinha junto de ti, antes que houvesse mundo” (Jo XVII, 5).

A fé ensina-nos que a razão pode chegar à conclusão da existência de Deus, e São Pedro em sua primeira Epístola (I Pe I, 18) repreende os homens com veemência por não haverem conhecido o verdadeiro Deus que se manifesta em suas obras.

Realmente, tudo o que é, tudo o que somos proclama a existência de Deus e canta suas perfeições divinas. Todo o Antigo Testamento e, particularmente, os Salmos e os Livros Sapienciais cantam a glória do Criador. É por isso que na oração litúrgica e sacerdotal os Salmos têm um lugar primordial.

É bom meditar sobre a criação “ex nihilo sui et subjecti”, feita do nada, pela simples decisão do Criador; “qui putas se esse aliquid, cum nihil sit, ipse seducit: se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, ilude-se a si mesmo (Gal VI, 5).

Quanto mais nos aprofundamos nessa realidade, mais ficamos espantados com a onipotência de Deus e com nosso nada, com a necessidade de toda e qualquer criatura ser constantemente sustentada nesta existência, sob pena de desaparecer, de voltar ao nada. É isso o que nos ensinam tanto a fé como a filosofia.

Essa meditação e essa constatação deveriam bastar para nos lançar humildemente a uma adoração profunda, numa atitude imóvel semelhante à imobilidade do próprio Deus. Deveríamos ter uma confiança sem limites naquele que é nosso Tudo e que decidiu criar-nos e salvar-nos.

Com que devoção e sinceridade deveríamos todas as manhãs, no começo das Matinas, recitar o Salmo XCIV: “Vinde, alegremo-nos... Vinde, adoremos... Seu é o mar, pois Ele o fez, e a terra firme que suas mãos formaram, vinde adoremos e prosternemo-nos diante de Deus, choremos diante do Senhor que nos criou, porque Ele é o Senhor nosso Deus, e nós somos seu povo e as ovelhas que Ele pastoreia”.

Como não agradecer à Igreja, que põe suas palavras em nossos lábios para exprimir os mais profundos sentimentos de nossas almas de criaturas!

Se a criação é um grande mistério, é que Deus é para nós o grande Mistério e o permanecerá eternamente na visão beatífica. “Jamais alguém viu a Deus, senão aquele que vem de Deus”: somente o Verbo e o Espírito Santo vêm Deus, sendo de Deus e um só Deus com o Pai (Jo VI, 46).

Abordar os atributos e perfeições de Deus, realidade espiritual que abrange tudo, que vivifica tudo, que sustenta tudo na existência, só poderá aumentar o Mistério divino, para nossa maior satisfação, edificação e santificação.

Santo Tomás diz: “Quanto mais conhecermos perfeitamente a Deus aqui em baixo, melhor compreenderemos que Ele ultrapassa tudo o que a inteligência compreende” (II-II, 8, 3).

Vindo a fé em socorro da razão para nos convencer da existência de Deus, e abrindo-nos horizontes maravilhosos sobre a intimidade de Deus pela Revelação e, sobretudo, pela Encarnação do Verbo divino, devemos interrogá-la para saber se podemos dar a Deus um nome que será próprio de Deus e nos ajudará a melhor conhecê-lo.

Ora, é precisamente o que Deus fez, tanto no Antigo Testamento como no novo. Disse Moisés: “Eu lhes direi, o Deus de vossos pais me enviou a vós. Se eles me perguntarem qual é o seu nome, que lhes responderei? E diz Deus a Moisés: Eu sou Aquele que sou. E ele continua: É assim que responderá aos filhos de Israel: Aquele que é me envia a vós” (Ex III, 13-14); e assim também Nosso Senhor aos judeus que lhes dizem: “Vós não tendes ainda cinqüenta anos e vistes Abraão? Jesus lhes respondeu: Em verdade, em verdade vos digo, antes que Abraão fosse, eu sou” (Jo VIII, 5-9).

Nunca serão suficientemente admiradas essas respostas luminosas que correspondem, aliás, às conclusões de nossa razão. “Deus é”, Ele é “ens a se”, o ser por Ele mesmo; todos os outros seres são “ab alio”, não têm sua razão de ser por eles mesmos.

Essas afirmações simples são uma fonte de meditação e de santificação interminável. Seja o olhar sobre Deus que termina no infinito, seja a constatação dos laços da criatura para com o Criador, ou a visão do nada da criatura, estamos diante do que há de mais verdadeiro, de mais profundo e de mais misterioso em Deus e em nós.

Monsenhor Marcel Lefebvre

Fonte: Associação Cultural Santo Tomás

4 comentários:

Alef disse...

Vejo alguns problemas neste texto, que não sei se dependem do original, da tradução ou da transcrição. Indico apenas dois:

a) Escreveu-se: «É bom meditar sobre a criação “ex nihilo sui et subjecti”, feita do nada, pela simples decisão do Criador; “qui putas se esse aliquid, cum nihil sit, ipse seducit: se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, ilude-se a si mesmo (Gal VI, 5)». Há aqui dois pequenos problemas ou gralhas. Em primeiro lugar, a citação não é de Gálatas 6:5, mas Gálatas 6:3. Em segundo lugar, a forma «putas» está errada; deveria ser «putat». Contudo, a Vulgata nem coloca «putat», mas «existimat». De resto, toda a frase deveria ser revista (talvez tenha sido citada de memória): «si quis existimat se aliquid esse, cum sit nihil, ipse se seducit».

b) Escreveu-se: «A fé ensina-nos que a razão pode chegar à conclusão da existência de Deus […]». Se pela fé sabemos que a razão pode chegar a essa conclusão, pergunta-se: então como pode aquele que não tem fé entender a racionalidade da existência de Deus? Não é isto muito estranho? Se na fé já se tem a certeza da existência de Deus, não se torna supérfluo o trabalho racional de provar tal existência?

Alef

Cruzado disse...

Caro Alef,

Salve Maria

Sua correção da citação procede, pelo menos na Vulgata Clementina e na Nova Vulgata a passagem é como colocou.

É um dogma da Fé Católica que Deus pode ser conhecido pela razão. São Paulo ensina tal doutrina. É isso que Dom Lefebvre quis dizer na passagem.

Não impede, contudo, que alguém que não tenha a Fé possa conhecer a existência de Deus pela razão. Platão e Aristóteles não tinham a Fé e conheceram, pela razão, que Deus existe.

É um trabalho supérfluo, em certo sentido, para muitos, já que são milhões que acreditam em Deus sem saber provar que Ele exista. Para os que exigem provas é que se prova. Nada de estranho.

Anônimo disse...

Platão e Aristóteles não conheceram Deus pela razão, mas sim pela sua "fé", ou seja pela sua religião. Há várias passagens em Platão onde é mencionado o respeito e louvor devido aos deuses, permitindo-nos pensar que Platão era um homem muito religioso, com uma vida espiritual, além de intelectual, activa. A distância entre o Céu e Jerusalém não há-de diferir muito da distância entre o Céu e Atenas ou entre o Céu e qualquer outra cidade importante da antiguidade.
(Luis)

Cruzado disse...

Caro Luis,

Salve Maria!

É certo que Platão não tinha a mesma religião que as pessoas "comuns" da Grécia, basta ver as freqüentes críticas à concepção homérica da religião que, em vários casos, é a concepção popular. A religião de Platão por certo teve alguma influência no seu sistema filosófico. Em todo caso, ocorre que Platão construiu um sistema racional que o levou à concepções mais elevadas de Deus do que seus contemporâneos.
É ele o inventor da palavra Teologia (República, II, 379a). Depois dele todas as escolas filosóficas gregas, excluindo os céticos, terão sistemas teológicos. Pode-se dizer que Platão é o criador da Teologia Natural, ou seja, a investigação sobre Deus apenas com a razão, sem a Revelação. Falo que Platão chegou a conhecer Deus pela razão porque ele, assim como Aristóteles, o provou racionalmente a sua existência. Um exemplo atual, mais claro até, pode ser Anthony Flew, ateu por longo tempo e agora convencido da existência de Deus, mas não do Deus cultuado pelos católicos ou judeus, mas do Deus descoberto pela razão de Aristóteles. A distância entre Jerusalém e o Céu não difere muito da de Atena e o Céu. A diferença é que Deus quis falar, através dos profetas, para os judeus e não para os atenienses ou espartanos. Os homens não diferiam muito, a diferença foi Deus que fez.

Cruzado

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