sábado, 29 de novembro de 2008

VERDADEIRA E FALSA RESTAURAÇÃO

Nota: A presente publicação tem por finalidade divulgar o livro "A nova teologia. Os que pensam que venceram". Como também divulgar a biblioteca digital do grupo permanência que disponibiliza este e outros excelentes livros.

 

O Magistério Desprezado

OS QUE PENSAM QUE VENCERAM são os neomodernistas fiéis à linha (se assim se pode dizer) dos padres fundadores da “nova teologia”, e especialmente a linha (tortuosa e confusa) traçada pelo jesuíta Henri de Lubac e pelo exjesuíta Hans Urs von Balthasar1. “Os representantes da nova teologia são exaltados como se fossem a pedra angular da Igreja”, escreveu com razão o pensador Julio Meinvielle.2

Antes de apresentar estes “santos padres” do mundo católico pós-conciliar, é oportuno mostrar, resumidamente, a essência da “nova teologia”.

O Princípio Simples de uma Heresia Completa

O sacerdote e teólogo alemão Johannes Dörmann, em seu melhor livro, A Estranha Teologia de João Paulo II e o Espírito de Assis3, escreve:

“A ‘nova teologia’ se apresenta com várias faces, mas é simples em seu princípio e por ele podem agrupar-se suas múltiplas formas sob o mesmo nome. Suas múltiplas formas têm em comum o fato de rechaçar a teologia tradicional.”4

O autor explica de forma concisa e eficaz o que significa, para o último Concílio, “rechaçar a teologia tradicional” — o Concílio considerou um dever, por motivos pastorais, renunciar à linguagem escolástica:

“É claro que os principais teólogos viram que toda a questão da teologia e da fé estava na questão da linguagem. Pois a linguagem escolástica estava indissoluvelmente ligada à filosofia escolástica, e esta, à teologia escolástica, e finalmente esta à Tradição dogmática da Igreja.”5

Por conseguinte a renúncia à linguagem escolástica conduziria, em última analise, ao adeus à Tradição divino apostólica guardada fielmente pela Igreja.

“O abandono da linguagem da escolástica pelos Padres”, escreve Dörmann, “era para eles [os teólogos dirigentes do Concílio] a condição sine qua non da ruptura com a antiguidade dogmática, para que pudessem colocar em seu lugar a ‘nova teologia’, depois de deixar de usar a ‘antiga’ e se despedir dela.”6

A Utopia

Mas como se chegou ao abandono da teologia tradicional, ou seja, da teologia católica, ligada indissoluvelmente à Tradição dogmática da Igreja?

Com “esta simples e sedutora idéia: uma ‘nova teologia’ adaptada ao caráter científico moderno e à imagem moderna do mundo e da história”7. Em outras palavras, com a velha e sempre renascente utopia da Igreja reconciliada com o “mundo moderno”, aberta ao pensamento filosófico moderno, com o qual Pio IX8 declarou que a Igreja não pode nem deve reconciliarse, em vista de seu caráter essencialmente anticristão:

“Os homens (modernos) em geral desconhecem a verdade e os bens sobrenaturais e pensam poder satisfazer-se somente com a razão humana e com a ordem natural das coisas e assim poder alcançar sua própria perfeição e felicidade.”9

Continua Dörman: “Para os membros da ‘nova teologia’ o aggiornamento significava o resultado da abertura da Igreja ao pensamento moderno [indiferente à verdade e aos bens sobrenaturais], para chegar a uma teologia totalmente diferente, da qual deveria resultar o nascimento de uma nova Igreja [secularizada], adaptada à sua época.”10 É exatamente a utopia do modernismo.

Escrevia o Pe. Garrigou-Lagrange O.P.: “Para onde vai a nova teologia? Volta ao modernismo.”

De fato, escavando mais fundo sob o princípio da nova teologia, encontramos a mesma perversão da noção de verdade, que está na base do modernismo: “A verdade não é mais imutável do que o homem mesmo, pois evolui com ele, nele e por ele.”11 Razão por que o Pe. Garrigou-Lagrange O.P., que não profetizava, mas simplesmente tirava conclusões lógicas, escrevia em 1946:

“Para onde vai esta nova teologia com os novos mestres que a inspiram? Por onde senão pela via do cepticismo, da fantasia e da heresia?”12

Uma Utopia Culpável

As tentativas de conciliar a Igreja com o “mundo moderno” (ou seja, com a filosofia moderna subjetivista e imanentista e a “cultura” imbuída de subjetivismo e de imanentismo que dela emana) não são uma utopia inocente. O Magistério dos Romanos Pontífices fechou repetidamente o caminho a tal tentativa, especialmente o de Gregório XVI (Mirari vos, 1832), o de Pio IX (Syllabus, 1864), o de São Pio X (Pascendi, 1907) e, às portas do último Concílio, o de Pio XII (Humani Generis, 1950). Com esta última Encíclica, desprezada e depois desaprovada e enterrada por aqueles que ela condenava, Pio XII chamava a atenção para o clima que precedia o Concílio, mostrando “com ansiedade” e clareza os perigos da “nova teologia”, que, procurando seus fundamentos fora da filosofia perene, põe em perigo todo o edifício do dogma católico. Pio XII, sobretudo, não deixa de assinalar o desprezo do Magistério que mostra tal atitude:

“[...] a razão só poderá funcionar de modo correto e seguro se houver sido devidamente formada; quer dizer, quando estiver imbuída daquela sã filosofia que recebemos como patrimônio legado pelas gerações cristãs do passado, há tanto tempo constituída, tendo alcançado este grau superior de autoridade justamente porque o próprio magistério da Igreja submeteu suas principais afirmações, descobertas e definidas pouco a pouco por grandes pensadores, às normas da revelação divina. Esta filosofia, reconhecida e aceita pela Igreja, defende o autêntico e exato valor do conhecimento humano, os princípios metafísicos inquestionáveis — a saber, os de razão suficiente, de causalidade e finalidade — e,finalmente, a capacidade de alcançar a verdade certa e imutável.

Nesta filosofia, certamente são expostas muitas coisas que nem direta nem indiretamente tocam as matérias de fé e de costumes e que, portanto, a Igreja deixa à livre discussão dos entendidos; mas em muitas outras coisas não há a mesma liberdade, especialmente quanto aos princípios e acertos principais de que acima falamos [valor do conhecimento humano, princípios básicos da metafísica etc.] [...].

Nem a verdade nem sua exposição filosófica podem estar sendo trocadas cada dia, principalmente quando se trata dos princípios por si evidentes para a mente humana, ou das doutrinas que se apóiam na sabedoria dos séculos, em conformidade e com o apoio da divina Revelação [...].

Por isto, é lamentável que uma filosofia aceita e reconhecida pela Igreja seja hoje desprezada por alguns e imprudentemente chamada de antiquada em sua forma e racionalista, como dizem eles, em seus procedimentos [...].

Entretanto, enquanto desprezam esta filosofia, exaltam outras, antigas ou modernas, do Oriente ou do Ocidente, com o que parecem insinuar que qualquer filosofia ou pensamento pode, com algumas correções, se necessário, conciliar-se com o dogma católico. Mas isto é absolutamente falso, principalmente em se tratando de sistemas como o imanentismo, o idealismo ou o materialismo, histórico ou dialético, ou ainda o existencialismo, quando ateu ou, pelo menos, quando se opõe ao valor do raciocínio metafísico.

Não teríamos de lamentar esses desvios da verdade se todos escutassem o magistério da Igreja com o respeito que lhe é devido, mesmo em matéria filosófica. A ele incumbe, por instituição divina, não somente cuidar e interpretar o depósito da verdade divinamente revelada mas também vigiar acerca dos assuntos filosóficos, para que os dogmas católicos não sofram nenhum dano ocasionado pelas falsas doutrinas.”

Vemos aqui confirmado o que repetimos e provamos há vários anos: apesar de serem membros da hierarquia católica, os neomodernistas desobedecem ao Magistério constante e, portanto, infalível da Igreja, e a “obediência” que impuseram ao novo curso eclesial inclui a obrigação de desobedecer à Igreja.

Verdadeira e Falsa “Restauração”

Do que foi dito acima segue que a verdadeira restauração deverá ocorrer no caminho inverso ao que trouxe a ruptura com a Tradição doutrinal da Igreja:

retorno à filosofia perene, e portanto à teologia escolástica e à tradição dogmática da Igreja, em obediência às diretivas constantes do Magistério pontifício. Os neomodernistas fiéis à “linha” de De Lubac e von Balthasar hoje se apresentam como “moderados” e até “restauradores”, mas absolutamente não pretendem repudiar a “nova teologia”, da qual, queiram ou não, é filha a crise que a Igreja vive em nossos dias. Em dezembro de 1991 dizia, seguro de si mesmo, o Pe. Henrici S.J. a 30 Jours:

“Nossa linha é a do extremo centro. Nem atenção excessiva [sic] ao Magistério nem contestação. Nem direita nem esquerda. Apego à tradição [que, na linguagem de De Lubac e dos ‘novos’ teólogos, não é — como veremos — a Tradição dogmática da Igreja], na linha da nova teologia de Lyon [sede de De Lubac e de ‘outros padres fundadores’], que ensina a não oposição [leia-se identificação] entre natural e sobrenatural, entre fé e cultura, e que se tornou a teologia oficial do Vaticano II.”

“Nova teologia” que, em Humani Generis, Pio XII havia condenado como uma reunião de “falsas opiniões que ameaçam destruir os fundamentos da doutrina católica”!

É pois necessário saber o que há por trás dessa “moderação” dos neomodernistas do “extremo centro, sim, mas sempre neomodernistas.

A Igreja exige que os futuros sacerdotes sejam formados nas matérias filosóficas, ‘segundo o método, a doutrina e os princípios do Doutor Angélico’ (CIC, Cânon 1366, 2), pois ela sabe muito bem, pela experiência de muitos séculos, que o método e o sistema do Aquinate é muito importante tanto para a instrução dos principiantes como para a investigação das verdades mais escondidas; que sua doutrina ressoa em uníssono com a Revelação divina e é muito eficaz para assegurar os fundamentos da fé e obter com proveito e segurança os frutos de um são progresso (AAS 38, 1946, 387).”13

1 Ver o número anterior de Sim Sim Não Não.

2 A Influência do Agnosticismo Judeu no Meio Cristão.

3 Atualmente só existe uma tradução francesa, das Edições Fideliter,

Estrada do Waldeck, 57230, Eguelshardt, França.

4 P. 55.

5 P. 52.

6 P. 53.

7 P. 55.

8 Cf. Syllabus, proposição nº 80.

9 Vaticano I, esquema preparatório de doutrina católica.

10 P. 54.

11 São Pio X, decreto Lamentabili, proposição condenada nº 58.

12 “La Nouvelle Théologie, où va-t-elle?”, Angelicum 23, 1946, pp. 136- 154.

13 Pio XII, Humani Generis.

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