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domingo, 21 de junho de 2009

Sobre a Importância do Latim

Vídeo com entrevista ao Prof. Carlos Nougué sobre a importância da língua latina.

EM DEFESA DA MISSA LATINA

missa 

DIETRICH VON HILDEBRAND

Dietrich von Hildebrand, foi um dos filósofos Cristãos mais eminentes do mundo. Professor na Universidade de Fordham, foi chamado pelo Papa Pio XII “doutor da Igreja do Século XX”. Ele é o autor de muitos livros, dentre eles A Transformação em Cristo e A Liturgia e a Personalidade.

Este texto foi transcrito do número de outubro de 1966 da revista TRIUMPH

Os argumentos para a Nova Liturgia têm sido finamente embalados, e agora podem ser apreendidos rotineiramente. A nova forma da Missa é destinada a engajar o celebrante e os fiéis numa atividade comunitária. No passado o fiel assistia à Missa num isolamento pessoal, cada adorador fazendo as suas devoções particulares, ou no melhor dos casos seguindo a celebração num missal. Hoje os fiéis podem visualizar o caráter social da celebração; estão aprendendo a apreciá-la como uma refeição comunitária. Antigamente, os sacerdotes sussurravam uma língua morta, criando uma barreira entre o sacerdote e o povo. Agora todos falam a sua língua vernácula, que tende a unir o sacerdote e o povo um ao outro. No passado o sacerdote falava a Missa com as suas costas voltadas para o povo, criando um ar de rito esotérico. Como hoje o sacerdote se volta para a assembléia, a Missa se tornou uma ocasião mais fraterna. No passado o sacerdote entoava estranhos cantos medievais. Hoje, toda a assembléia canta canções mais fáceis com letras familiares, e se experimenta até arranjos mais regionais. A essência da nova Missa, portanto é isso: está fazendo os fiéis sentirem-se mais ‘em casa’ na casa de Deus.

Além disso, afirmam-se que estas inovações têm a sanção da Autoridade: são representadas como uma resposta obediente ao espírito do Concílio Vaticano Segundo. Isto se diz, não obstante a Constituição do Concílio sobre a Liturgia não ir além de permitir a Missa vernácula em casos onde o bispo local crê ser isso desejável; a Constituição insiste plenamente na manutenção da Missa Latina, e aprova enfaticamente os cantos Gregorianos. Mas os “progressistas” litúrgicos não se impressionam com a diferença entre permitir e impor. Nem hesitam em autorizar mudanças, tais como receber a Sagrada Comunhão em pé, atitude que a Constituição nem sequer menciona. Os progressistas argumentam que estas liberdades podem ser tomadas porque a Constituição, afinal das contas, é apenas o primeiro passo num processo evolucionário. E parece que eles estão conseguindo. É difícil se encontrar uma Missa Latina hoje em dia, e nos Estados Unidos elas estão praticamente desaparecidas. Mesmo uma Missa eventual nos monastérios é feita em língua vernácula, e o glorioso canto Gregoriano é substituído pelas melodias insignificantes.

A minha preocupação não se restringe ao aspecto legal das mudanças. E eu não estou reclamando enfaticamente de que a constituição tenha permitido o uso da língua vernácula para complementar o Latim. O que deploro é que a nova Missa está substituindo a Missa Latina, e que a antiga liturgia está sendo irremediavelmente esmagada e negada pela maioria do Povo de Deus.

Eu gostaria de colocar àqueles que estão indagando várias questões neste desenvolvimento: Será que a nova Missa faz mover, mais que a antiga, o espírito humano – ela evoca o sentido da eternidade? Será que ela ajuda os nossos corações a sair das preocupações da vida diária – dos aspectos puramente naturais do mundo para o Cristo? Será que ela aumenta a reverência, uma apreciação do sagrado?

Certamente essas questões são retóricas e auto-explicativas. Eu as faço porque todos os Cristãos mais preocupados desejarão pesar a sua importância antes de chegar à conclusão sobre os méritos da nova liturgia. Qual é o papel da reverência numa vida Cristã verdadeira, e acima de tudo numa verdadeira adoração Cristã a Deus?

A reverência concede ao ser a oportunidade de falar a nós: A grandeza última do homem é ser capax Dei. A reverência é de capital importância para todos os domínios fundamentais da vida do homem. Ela pode ser chamada perfeitamente “a mãe de todas as virtudes”, pois é a atitude básica que todas as virtudes pressupõem. O gesto mais elementar de reverência é uma resposta para o seu próprio ser. Ela distingue a majestade autônoma do ser da mera ilusão ou ficção; é o reconhecimento da consistência interior e positividade do ser – da sua independência da nossa ambientação arbitrária. A reverência dá ao ser a oportunidade de se abrir, para falar para nós, para fecundar as nossas mentes. Assim a reverencia é indispensável para qualquer conhecimento adequado do ser. A profundidade e plenitude do ser, e, acima de tudo seus mistérios, nunca se revelarão a ninguém senão à mente reverente. Lembrem-se que a reverência é um elemento constitutivo da capacidade de “se maravilhar”, que Platão e Aristóteles alegaram ser condição indispensável para a filosofia. De fato, a irreverência é a principal fonte do erro filosófico. Mas, se a reverência é base necessária para todo conhecimento confiável do ser, é, além disso, indispensável para visualizar e avaliar os valores alicerçados no ser. Apenas o homem reverente que está pronto a admitir a existência de algo maior que ele mesmo, que esteja pronto para se silenciar e deixar o objeto falar para ele – que se abre – é capaz de adentrar no sublime mundo dos valores. Além disso, uma vez reconhecidas as graduações de valores, surge daí uma nova espécie de reverência – uma reverência que responde não apenas à majestade do ser como tal, mas para o valor específico de um ser específico e sua posição na hierarquia dos valores. E esta nova reverência permite a descoberta de ainda outros valores.

O homem reflete o seu caráter receptivo essencialmente como uma pessoa criada somente na atitude reverente; a grandeza última do homem é ser capax Dei. O homem possui a capacidade, em outras palavras, de visualizar algo maior que ele mesmo, ser afetado e fecundado por ele, abandonar-se para ele e por ele – numa simples resposta ao seu valor. Esta habilidade de se transcender distingue o homem de uma planta ou de um animal; este último esforça-se apenas para revelar a sua própria enteléquia. Ora, é somente o homem reverente que pode conscientemente se transcender e assim conformar-se à sua condição humana fundamental e para a sua situação metafísica.

Encontrar-nos-emos melhor com Cristo elevando-nos a Ele ou puxando-O para baixo ao nosso mundo cotidiano?

O homem irreverente, pelo contrário, se aproxima do ser, ou numa atitude de superioridade arrogante ou de uma familiaridade indelicada e convencida. Em ambos os casos, ele é estropiado; ele é um homem que se aproxima tanto de uma árvore ou uma construção que não mais a enxerga. Ao invés de se manter numa distância espiritual apropriada, e manter um silêncio reverente de tal modo que o ser possa falar a sua palavra, ele se intromete, e assim, com efeito, silencia o ser. Em nenhum outro domínio senão na religião é importante a reverência. Como vimos, ela afeta profundamente a relação do homem com Deus. Mas, além disso, ela permeia a religião inteira, especialmente a adoração de Deus. Há uma ligação íntima entre a reverência e a santidade: a reverência nos permite experimentar o sagrado, a elevarmo-nos acima do profano; a irreverência nos cega para o mundo inteiro do sagrado. A reverência, inclusive admiração – de fato, medo e tremor – é a resposta específica para o sagrado.

Rudolf Otto desenvolveu claramente o ponto no seu famoso estudo, A Idéia do Sagrado. Kierkegaard também chama a atenção para o papel essencial da reverência no ato religioso, no encontro com Deus. Os Judeus não tremiam em temor profundo quando o sacerdote levava o sacrifício para Sancta sanctorum? Isaías não foi tocado por um temor piedoso quando viu Jaweh no templo e exclamou, “Ai de mim, estou perdido! Sou um homem de lábios impuros, vivo entre um povo de lábios impuros, e, no entanto, meus olhos viram o rei, o Senhor dos exércitos” (Isaías 6:5). As palavras de S. Pedro após a pesca milagrosa. “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador!” (Lucas 5:8), não nos testemunha que, quando a realidade de Deus se revela diante de nós, nós somos tocados pelo medo e reverência? Cardeal Newman mostrou num sermão formidável que o homem que não teme e reverência não conheceu a realidade de Deus.

Quando S. Boaventura escreve em Itinerium Mentis ad Deum que apenas um homem de desejo (como Daniel) pode compreender Deus, ele quer dizer que uma certa atitude da alma deve ser alcançada a fim de compreender o mundo de Deus, onde Ele deseja nos levar.

Este conselho é especialmente aplicável à liturgia da Igreja. O sursum corda – o elevar do nosso coração – é o primeiro requisito para a verdadeira participação na Missa. Nada mais poderia obstruir a confrontação do homem com Deus do que a noção de que nós “vamos ao altar de Deus”como se fôssemos a um encontro social prazeroso e relaxante. Eis porque a Missa Latina com canto Gregoriano, que nos eleva a uma atmosfera sagrada é vastamente superior a uma Missa vernacular com canções populares que nos deixam numa atmosfera profana, meramente natural.

O erro básico da maioria das inovações é imaginar que a nova liturgia traz o santo sacrifício da Missa mais próximo dos fiéis, que, com o despojar de seus antigos rituais a Missa agora entra na substância das nossas vidas. Pois a questão fundamental é: seria melhor encontrarmo-nos com Cristo na Missa elevando-nos a Ele, ou puxando-O abaixo para o nosso mundo vulgar e rotineiro? Os inovadores estariam substituindo uma santa intimidade com Cristo por uma familiaridade indecorosa. A nova liturgia de fato ameaça frustrar a confrontação com o Cristo, pois desencoraja a reverência em face do mistério, impede a admiração, e tudo faz para extinguir o sentido do sagrado. O que realmente interessa, certamente, não é se os fiéis se sentem em casa na Missa, mas se eles são tirados das suas vidas ordinárias para penetrar no mundo de Cristo – quer sua atitude seja a resposta de máxima reverência, quer estejam imbuídos com a realidade de Cristo.

Aqueles que falam com entusiasmo da nova liturgia acentuam o ponto de que através dos anos a Missa perdeu o seu caráter comunitário e se tornou uma ocasião para adoração individualista. A nova Missa vernacular, insistem, restaura o sentido da comunidade ao substituir devoções particulares com a participação comunitária. Porém, eles se esquecem que há diferentes níveis e tipos de comunhão com outras pessoas. O nível e a natureza de uma experiência comunitária é determinado pelo tema da comunhão, o nome ou causa para o qual os homens se reúnem. Quanto mais elevado e benigno o tema representado, mais sublime o nome e a causa para a qual os homens se reúnem e mais profunda é a comunhão. O etos e a natureza de uma experiência comunitária no caso de uma emergência nacional é obviamente radicalmente diferente de uma experiência comunitária de uma festa de coquetel. E certamente a diferença mais notável nas comunidades será encontrada entre a comunidade cujo tema é sobrenatural e uma comunidade cujo tema é meramente natural. A atualização das almas dos homens que são verdadeiramente tocados por Cristo é a base da comunidade única, uma comunhão sagrada, uma comunidade cuja qualidade é incomparavelmente mais sublime que de uma comunidade natural. A comunhão autêntica dos fiéis, cuja liturgia da Quinta-feira Santa expressa tão bem nas palavras congregavit nos in unum Christi amor é somente possível como fruto da comunhão eu-Tu com o próprio Cristo. Apenas uma relação direta com o Deus-Homem pode realizar esta união sagrada entre os fiéis.

O “nós experimentamos” despersonalizante é uma perversa teoria da comunidade

A comunhão em Cristo não tem nada de auto-asserção encontrada nas comunidades naturais. Ela respira a Redenção. Ela liberta os homens de toda auto-centralização. Entretanto, tal comunhão não despersonaliza enfaticamente o indivíduo; longe de dissolver a pessoa no desfalecimento cósmico, panteísta tão recomendado a nós nestes dias, ela atualiza o verdadeiro eu da pessoa de um modo único. Na comunidade de Cristo não pode existir o conflito entre a pessoa e a comunidade que está presente em todas as comunidades naturais. Assim esta experiência comunitária sagrada está realmente em guerra com o ‘nós experimentamos’ despersonalizante encontrado nas assembléias das missas e reuniões populares que tendem a absorver e evaporar o indivíduo. Esta comunhão em Cristo que era tão plenamente viva nos primeiros séculos Cristãos, experimentada por todos os santos e que encontrou uma expressão sem igual na liturgia agora sob ataque – esta comunhão nunca considerou a pessoa individual como um mero segmento da comunidade, ou como um instrumento para servi-la. Em relação a isso vale a pena observar que a ideologia totalitária não está sozinha no seu esforço de sacrificar o indivíduo ao coletivo; algumas das idéias cósmicas de Teilhard de Chardin, por exemplo, implicam no mesmo sacrifício coletivista. Teilhard subordina o indivíduo e sua santificação ao suposto desenvolvimento da humanidade. Num tempo em que esta perversa teoria da comunidade é abraçada até por muitos Católicos, há suficiente razões urgentes para insistir vigorosamente sobre o caráter sagrado da verdadeira comunhão em Cristo. Eu proponho que a nova liturgia seja julgada com o seguinte parâmetro: Ela contribui para a comunidade sagrada autêntica? Admitindo que ela se esforça por um caráter comunitário; será que esse caráter é desejável? É uma comunhão alicerçada na introspecção, contemplação e reverência? Qual das duas – a nova Missa ou a Missa Latina com o canto Gregoriano evoca estas atitudes da alma mais efetivamente, e assim permite a comunhão mais profunda e verdadeira? Não está claro que freqüentemente o caráter comunitário da nova Missa é puramente profano, que, como acontece em outras reuniões sociais, a sua combinação de relaxamento casual e agitação sentimental impedem uma confrontação reverente e contemplativo com o Cristo e com o mistério inefável da Eucaristia?

Sem dúvida a nossa época está impregnada pelo espírito de irreverência. É vista numa noção distorcida de liberdade que exige direitos enquanto rejeita obrigações, que exalta a auto-indulgência, que recomenda “deixe-se ir”. O habitare secuni dos Diálogos de S. Gregório – a morada na presença de Deus – que pressupõe reverência, é considerada hoje afetada, pomposa ou servil. Mas a nova liturgia não é um compromisso com este espírito moderno? De onde vem a depreciação da genuflexão? Por que a Eucaristia deveria ser recebida de pé? O ajoelhar-se não é na nossa cultura, a expressão clássica da reverência adorante? O argumento de que na refeição devemos permanecer em pé ao invés de ajoelhar é pouco convincente. Ora, esta não é uma postura natural para comer: hoje sentamos, e no tempo de Cristo, deitaríamos. Porém, mais séria é uma concepção especificamente irreverente da Eucaristia ao salientar o seu caráter como sendo uma mera refeição à custa do seu caráter único de um mistério sagrado. Enfatizar a refeição à custa do sacramento certamente significa uma tendência para obscurecer a santidade do sacrifício. Esta tendência é aparentemente determinável pela crença infeliz de que a vida religiosa tornar-se-á mais vívida, mais existencial se estiver imersa na nossa vida diária. Mas isto é correr o perigo de absorver o religioso no mundano, obliterando a diferença entre o sobrenatural e o natural. Temo que isso represente uma intrusão inconsciente do espírito naturalístico, do espírito mais plenamente expresso no imanentismo de Teilhard de Chardin.

Ora, por que a genuflexão às palavras et incarnatus est no Credo foi abolida? Não era esta uma expressão nobre e bela da reverência adorante enquanto se professa o mistério indelével da Encarnação? Qualquer que seja a intenção dos inovadores, eles certamente criaram o perigo, se somente psicológico, de diminuir a ciência e admiração dos fiéis para o mistério. Há ainda outra razão que nos faz acautelar em fazer as mudanças na liturgia e que não são estritamente necessárias. Mudanças frívolas ou arbitrárias ameaçam erodir um tipo especial de reverência: pietas. A palavra Latina, como a alemã Pietaet, não possui um equivalente em Inglês, mas pode ser entendida como um respeito consistente à tradição; o respeito que nos foi legado pelas gerações anteriores; fidelidade aos nossos antepassados e as suas obras. Notem que pietas é um tipo derivativo da reverência, e assim não deve ser confundida com a reverência primária, que descrevemos como uma resposta para o próprio mistério do ser, e uma resposta última a Deus. Segue-se que o conteúdo de uma dada tradição não corresponde ao objeto da reverência primária, não merece a reverência derivativa. Assim, se uma tradição contém elementos perversos, tais como o sacrifício de seres humanos no culto dos Astecas, então aqueles elementos não devem ser considerados com pietas. Mas este não é o caso Cristão. Aqueles que idolatram a nossa época, que vibram para tudo que é moderno simplesmente porque é moderno, que acreditam que em nossos dias o homem finalmente “amadureceu”, a estes falta pietas. O orgulho destes “nacionalistas temporais” não é apenas irrelevante, mas incompatível com a fé verdadeira. Um Católico deveria considerar a sua liturgia com pietas. Ele deveria reverenciar, e portanto, temer abandonar as orações, posturas e músicas que foram aprovadas por tantos santos através da era Cristã e legadas a nós como uma herança preciosa. Para não ir mais longe: a ilusão de que podemos substituir o canto Gregoriano com seus hinos e ritmos inspirados, por uma boa, senão melhor música, trai uma auto-confiança ridícula e falta de auto-conhecimento. Não vamos esquecer que através da história do Cristianismo o silêncio e a solidão, contemplação e introspecção, foram considerados necessários para alcançar uma verdadeira confrontação com Deus. Isto não é apenas um conselho da tradição Cristã, que deve ser respeitado por causa de pietas; é enraizado na natureza humana. A introspecção é base necessária para a verdadeira comunhão da mesma maneira que da contemplação provém base necessária para a verdadeira ação na vinha do Senhor. Um modo superficial de comunhão – a camaradagem jovial de um acontecimento social – leva-nos para a periferia. Uma comunhão Cristã verdadeira leva-nos para as profundezas espirituais.

O caminho para uma verdadeira comunhão Cristã: Reverência... Introspecção... Contemplação.

Certamente devemos deplorar devoções excessivamente individualistas e sentimentais e reconhecer que muitos Católicos as praticaram. Todavia o antídoto não é uma experiência comunitária como tal – não mais do que a cura da pseudo-contemplação é a atividade como tal. O antídoto é encorajar a verdadeira reverência, uma atitude de verdadeira introspecção e devoção contemplativa a Cristo. Somente essa atitude pode-se ter lugar numa verdadeira comunhão em Cristo. As leis fundamentais da vida religiosa que governa a imitação de Cristo, a transformação em Cristo, não mudam de acordo com os ambientes e hábitos do momento histórico. A diferença entre uma experiência comunitária superficial e uma experiência comunitária profunda é sempre a mesma. A introspecção e adoração contemplativa de Cristo – que somente a reverência torna possível – será a base necessária para uma verdadeira comunhão com outros em Cristo em qualquer era da história humana.

quinta-feira, 12 de março de 2009

A Folha de São Paulo e a carta de Bento XVI

Manchete de capa:
"Papa diz que falhou ao reverter excomunhão de bispos radicais"

A manchete da reportagem propriamente dita já baixa o tom e diz
"Papa reconhece falhas na reversão de excomunhão de bispos radicais"

A diferença entre "falhou ao reverter" e "falhas na reversão" é evidente para qualquer um que saiba português. Mas é lógico que a Folha não faz isto inocentemente, por acidente. O intuito da Folha em sua manchete de capa foi evidentemente de dar a entender ao leitor desavisado que o Papa reconhece que a reversão das excomunhões foi um erro. Quem confia nesse jornal está fadado a ser constantemente enganado por esse tipo de manipulação semântica, sobretudo nas manchetes.

Na reportagem propriamente dita, assinada como "Da EFE, na Cidade do Vaticano", o teor real da carta de Bento XVI é descrito, mas ainda com algumas pérolas. Após adjetivos carinhosos como "bispos ultraconservadores" e "arcebispo cismático Lefebvre", vemos o trecho

"O papa diz que a sociedade (S. Pio X) só será reintegrada à igreja se aceitar as decisões do Concílio Vaticano 2o, que nos anos 60 aboliu adotou (sic) reformas como a abolição da missa em latim e uma posição mais aberta em relação ao ecumenismo." (grifo meu)

Que interessante saber que:

- A missa em latim foi abolida.
- Que a FSSPX terá que abolir a missa em latim para ser reintegrada à Igreja.
- O Motu Proprio provavelmente deve ignorar que missa em latim está abolida. Avisem ao Papa.

Agora, sem ironia, eu ainda me pergunto se a redação da Folha tem especialistas em desinformação para fazer este tipo de serviço ou se já atingiram o nível de fazê-lo automaticamente.

Salve Maria e fiquem com Deus

-David

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Imprensa brasileira notícia anulação das excomunhões

Nota: A imprensa como é de costume manifesta sua ignorância. Dom Lefebvre e Dom Mayer, não tinham intenção de criar outra e Igreja, muito menos eram cismáticos, como notícia estas e outros veículos de comunicação. Também não se trata de um pedido de anulação, mas do reconhecimento da nulidade das excomunhões.

Papa anula excomunhão de bispos ultraconservadores de Lefebvre

France Press


ROMA - O Papa Bento XVI decidiu anular a excomunhão decretada em 1988 por João Paulo II contra os bispos ultraconservadores do movimento católico fundado pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, informa o jornal italiano Il Giornale.

O decreto já teria sido assinado pelo Sumo Pontífice, de acordo com o jornal. O texto suprime a excomunhão para os quatro bispos ordenados pelo monsenhor Lefebvre, entre eles seu sucessor Bernard Fellay.

A decisão pontifícia deve ser divulgada no fim de semana, afirma Andrea Tornielli, vaticanista do jornal e geralmente bem informado sobre os assuntos internos do Vaticano.

Anular a excomunhão constitui um passo importante para a reconciliação com o movimento tradicionalista e dogmático, que tem 460 padres espalhados por quase 50 países e tem sua maior comunidade na América Latina, em particular na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e República Dominicana.

Desde o início de seu pontificado em 2005, Bento XVI fez vários gestos de abertura em direção ao movimento católico fundado pelo arcebispo francês, entre eles a introdução em julho de 2007 da missa em latim, uma exigência dos 'lefebvristas'.

Em junho do ano passado, o Vaticano abriu mão de exigir dos adeptos de Lefebvre, reunidos na Fraternidade de São Pio X, fundada em 1969 em Econe (Suíça) pelo monsenhor Lefebvre, o reconhecimento das disposições do Concílio Vaticano II, celebrado entre 1962 e 1965 e que modernizou a Igreja.

A ordenação de quatro bispos por parte do próprio Lefebvre (falecido em 25 de março de 1991), desobedecendo e questionando a autoridade do Papa, está entre as razões que o levaram a criar outra Igreja, com o cisma (separação) da Igreja oficial em 1988, o primeiro desde 1870.

http://www.correiobraziliense.com.br/html/sessao_4/2009/01/22/noticia_interna,id_sessao=4&id_noticia=69185/noticia_interna.shtml

sábado, 17 de janeiro de 2009

A Posição do Altar nos Tempos Modernos

Uma análise do Livro do Padre Klaus Gamber por Mons. Richard J. Schuler

Liturgia

Padre Klaus Gamber, que faleceu recentemente, escreveu por muitos anos sobre a reforma litúrgica que se seguiu após o Concílio Vaticano II. “A Reforma da iturgia Romana” foi recentemente traduzida do Alemão para o Francês e Inglês e provocou um considerável comentário na imprensa européia.

Um dos pontos considerado por Pe. Gamber é a posição do altar com referência à congregação. Uma das mais evidentes reformas após o concílio é a prática de se ter o sacerdote voltado para a congregação. A maior parte da propaganda sobre a mudança de posição dos padres alega que é apenas um retorno a um costume da igreja antiga. História e arqueologia foram citadas (mas sem fatos verdadeiros) como evidências. Sem muito estudo ou questionamento, padres e paróquias pelo país (Alemanha, nt) aceitaram essas histórias e arrancaram seus altares, colocando mesas de madeira ou blocos de pedra que permitiam ao sacerdote contemplar a congregação. O design dos arquitetos originais, as linhas e o foco da igreja foram deixados de lado e abolidos. Na maioria dos casos o resultado artístico foi ruim e no melhor dos casos o novo arranjo ficou igual a um vestido conjunto reformado.

A destruição da Igreja e do santuário foi infeliz e custosa. Em algumas partes do país, o dano causado às igrejas pelos reformadores de altar foi maior do que os Vândalos causaram à Espanha ou ao Norte da África. Mas o mal maior foi o dano causado à ação e presença litúrgica do sacerdote. Foi dito ao sacerdote para manter o contato visual com as pessoas, para dirigir suas palavras à elas, para se tornar um "presidente" na assembléia, um "facilitador" da participação ativa da congregação. A noção de Missa enquanto sacrifício foi desencorajada, enquanto a idéia de refeição comunitária foi promovida. O altar tornou-se a mesa, bem semelhante aos dias do Arcebispo Cranmer na Inglaterra.

Entre aqueles solicitados para comentar o livro do Pe. Gamber estava o Cardeal Ratzinger, que foi entrevistado no jornal italiano "Il Sabato" (24 de Abril de 1993). Ele explicou que não há dado histórico, nem na história escrita ou na arqueológica, que estabeleça a posição do altar nos primeiros séculos como sendo voltada para as pessoas. Olhar para as pessoas não era uma questão na igreja primitiva, mas voltar-se para o leste onde Cristo iria surgir em Sua segunda vinda, a "parousia", era mais importante. Os prédios das Igrejas e os altares eram "orientais" (voltados para o leste) para que o sacerdote de forma especial pudesse vê-Lo na Sua chegada. Se devido ao contorno do terreno ou algum outro obstáculo a igreja não pudesse ter essa direção, o sacerdote, sempre olhando para o leste, teria que se posicionar atrás do altar e voltado para o povo. Contemplar a congregação era um fato acidental e ele toma a Basílica de São Pedro como um exemplo desse fato, uma vez que a igreja não poderia ter a entrada voltada para o Oeste (posição oposta ao altar) devido a colina do Vaticano.

O cardeal explica que a mudança quase que universal dos altares para contemplar as pessoas não é um decreto do Vaticano II. Não era impossível antes do Concílio oferecer a Missa voltado para as pessoas. Uma tradição de quinze séculos onde o sacerdote era a cabeça da sua congregação foi eliminada em poucos anos. Aquela tradição admitia exceções. Eu mesmo provavelmente detenho um recorde de Missas em latim celebradas voltado para as pessoas, mais do que qualquer outro padre no país antes do concilio. A igreja onde eu tinha um serviço semanal tinha um altar na cripta e eu oferecia a Missa duas vezes a cada domingo, por aproximadamente dez anos, tudo antes de 1963.

O cardeal foi perguntado se a Igreja voltaria para a tradição ancestral, praticada antes do concílio. Ele retrucou dizendo que não haveria uma mudança "neste momento". Ele disse que as pessoas já estão tão confusas com tantas mudanças e tão rapidamente introduzidas. Mas ele não disse que não iria acontecer numa data futura. Certamente, o retorno daria uma grande ajuda em restaurar a reverência na celebração da Missa. Pe. Jungmann, cujo trabalho na história da liturgia (Missarum solemnia) foi em grande parte responsável pela introdução das mudanças, tem uma segunda opinião sobre o valor das mudanças.

O aspecto interessante da discussão levantada pelo livro do Pe. Gamber é que pouco a pouco a propaganda e afirmações falsas invocadas para realizar a reforma litúrgica estão sendo expostas e se encontram sem veracidade ou bases, históricas, arqueológicas ou litúrgicas. Os erros perpetrados por clérigos e leigos igualmente na década de 60 incluem mentiras como a eliminação do latim, a proibição dos coros, a remoção de imagens, tabernáculos e vestimentas, tudo em nome do concílio ou talvez do "espírito do concílio". Graças a Deus a verdade está começando a reaparecer.

Revista Mater Ecclesiae - http://igrejauna.blogspot.com/

sábado, 10 de janeiro de 2009

NATUREZA DO ESTADO E SEU RELACIONAMENTO COM A SANTA IGREJA


A denominação Estado (do latim status - estar firme) significa uma idéia de situação de convivência permanente sob o amparo de uma organização política. Neste sentido a idéia de estado brasileiro, estado português, estado americano, estado alemão, estado espanhol, etc...

O academicismo contemporâneo não admite a existência de Estado antes antes do século XVII, contudo, costuma-se fundamentar essa tolice quase que exclusivamente no fato de que foi a obra O Príncipe, de Maquiavel, a primeira a se utilizar do vocábulo no sentido aceito hoje em dia. E qual seria este sentido? Seria exatamente o seguinte: o Estado de Direito ou Estado democrático de direito.

Academicamente, Estado é uma pessoa jurídica de direito público internacional cujo único fator capaz de lhe conferir legitimidade é o exercício de um poder sobre o qual existe um entendimento de não haver nenhum outro que lhe seja superior em um determinado território e por um tempo indeterminado (soberania). Esta pessoa jurídica exerce o monopólio legitimado/validado (não necessáriamente legítimo) da força. Trata-se do Estado que surgiu por ocasião da revolução francesa.

Ocorre que o Estado sempre existiu, mas acontece que tão cedo não se preocuparam em chamá-lo assim até Maquiavel. Porém, de fato, o problema não se resume a uma mera questão de nomenclatura, pois verdadeiramente existe uma diferença substancial entre a natureza jurídica do Estado, que sempre existiu, e a do que surgiu na renascença. Tal diferença está localizada no conceito da legitimidade que os justifica.

Na renascença a legitimidade estatal passou a ser sinônimo de validade, e neste sentido, este foi e continua a ser um erro grave, pois juridicamente os conceitos são absolutamente distintos. Validade é um juízo de um ato ou de uma lei feito por quem está no exercício do poder, enquanto legitimidade é um direito; o direito de ser autoridade. Ou seja, nem sempre quem está no exercício do poder é, ou age, como autoridade legítima. Com efeito, a legitimidade do Estado contemporaneo, fruto do Estado renascentista está fundamentada no exercício do poder político e não do poder jurídico segundo o direito natural. Ora, o poder político é a mais pura expressão do livre-arbítrio e não é controlado por nada que não seja ele mesmo, sendo que a força é o meio de que se valem os organismos políticos-sociais para obterem ou manterem-se no poder.

Nestes termos, segundo o pensamento contemporâneo, fruto do renascimento, uma vez que se considere legítima a idéia de que o poder estatal depende apenas do seu exercício por si e em si mesmo, implica que tal poder se torna relativo e via de conseqüência muito difícil de se manter pelo uso simples e continuado da força, já que, como é óbvio, todos poderão pretendê-lo independentemente de qualquer virtude. Portanto, os iluministas da renascença tinham um problema para justificar.

A solução encontrada por eles foi a deturpação da democracia aristotélica através da idéia de institucionalização do poder. Ou seja, emitiram o seguinte juízo: já que não é possível manter-se no poder pelo uso simples e direto da força, faz-se um uso mais elaborado dela por meio de uma sedução. Daí surge a secularização da consciência, o racionalismo, o antropocentrísmo. Por isto, contemporaneamente não mais se admite que o poder venha de Deus, mas em contrário é o próprio homem quem orgulhosamente o conquista.

Mas como ocorre esta institucionalização do poder? Antes de responder a este questionamento é preciso compreender qual é a natureza da verdadeira legitimidade.

A legitimidade verdadeira advém da capacidade, que é a aptidão que alguém possui para praticar por si mesmo os atos inerentes à sua própria vida e responsabilizar-se por eles. Como se pode notar, cuida-se de uma situação condicionante, que independe do mero querer, ou seja, que não se justifica pelo uso do livre-arbítrio.

Ela é comum a todos os homens que atingem com saúde a maturidade, contudo, obviamente, uns são mais capazes outros menos. Os dons destas diferenças são graça de Deus. Disto implica dizer que a legitimidade é realmente um direito, por ser a faculdade de se valer ou não de uma aptidão. Portanto, a legitimidade advém da capacidade e toda capacidade vem de Deus, logo, no mesmo sentido, todo poder vem de Deus. Portanto, a natureza jurídica da legitimidade é direito e não juízo de valor.

Isto posto, resta dizer por fim que à Deus, no que toca à aptidão para ser autoridade, o conceito trabalhado ainda é insuficiente. Deus não é apenas juridicamente capaz, Ele é onipotente! Com efeito, Ele não é o mais capaz de ser autoridade, Ele é o único capaz de o ser sem erro!

Neste sentido, a legitimidade é algo intrínseco a Deus e, portanto, a virtude da sabedoria recomenda que a única atitude sensata a ser feita é aceitar que Ele, o sumo bem, seja a autoridade reinante em nossas vidas.

E por assim ser, a Santa Igreja guarda em si a maior legitimidade para o exercício da autoridade e, por sua vez, o Papa na Igreja. Daí que, apartar o Estado da Igreja ou a Igreja do Papa ou o Papa de Cristo é algo totalmente insensato e autodestrutivo.

Logo, o que é e como acontece a institucionalização do poder? A institucionalização do poder é um sofisma de sedução através de um paradoxo aparente. Segundo esta idéia a pessoa que exerce o poder não mais pode ser identificada com ele, mas não por ser um delegado da virtude pela fonte de todo o poder, que é Deus, mas pelo fato de que o poderoso passa a exercitá-lo em nome de uma coletividade e no caso da contemporaneidade em nome ou a serviço do povo ou da nação e não em nome ou a serviço de Deus.

Neste sentido, pouco importa quem seja a autoridade, já que esta exerce o poder em nome todos e ao mesmo tempo em nome de ninguém. E neste sentido pouco importa se o governo é democrático ou "autoritário", pouco importa, pois de uma forma ou de outra o exercício do poder está institucionalizado no coletivo vazio. Se for democrático o titular do poder será o povo, se for autoritário será a nação.

Note-se que de uma forma ou de outra o que existe é uma sedução das pessoas pelo insuflamento do orgulho. De um lado pela democracia (melhor seria chamar de democratismo) alimenta-se o receio justificavel da tirania, mas estimula-se a rebelião e a ganância e a luta constante pelo poder estribadas na apologia irracional da igualdade, da liberdade e da fraternidade como bens maiores e absolutos em si mesmos, ao passo que de outro, pelos regimes autoritários/totalitários, o que se tem é uma preocupação igualmente justificável contra a decadência moral em geral, contudo com o ufanismo das origens, ou das raças, ou da posição social, etc... É esta arte de sedução que ilude e faz igualar o conceito de legitimidade estatal à mera validade que o monopólio do poder pode conferir. Foi ela que modificou a natureza jurídica do Estado e reforçou a inclinação dos homens à autodestruição, já que estão todos competindo orgulhosa e vaidosamente por sua parcela de poder.

Portanto, qual é a verdadeira natureza jurídica do Estado? Estado é uma organização política. É uma estrutura corporativa de autoridade responsável pelo governo de uma população, ou seja, pela permanência da situação de convivência de um certo número de pessoas, normalmente constituídos por descendentes de uma mesma pátria. Não é verdadeiramente um ente institucional ou pessoa jurídica. Este conceito de pessoa jurídica ou ente institucional decorre da equiparação entre os dois conceitos diferentes sobre os quais já se falou.

Desta forma, só podemos concluir que a autoridade do Estado deve ser exercida por um conjunto ou corpo pessoal, organizado segundo o melhor costume e/ou tradição da pátria, de tal sorte que a sua capacidade e virtude sejam verossímeis, podendo, por esta razão, serem sustentadas pela legitimidade conferida à Santa Igreja. Só assim o poder do Estado se constituirá em exercício regular de um direito e não em mera validação do arbítrio.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Missa tradicional este sábado!

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Prezados, Salve Maria!

No 2º final de semana do mês de dezembro, mais especificamente no dia 13/12/08 – sábado - , teremos a nossa Missa na Capela do Colégio Arnaldo. A Capela é muito grande e bonita, com altar de Missa tradicional (também chamada de Missa Gregoriana, Missa Tridentina, Missa de Sempre, Missa no rito romano extraordinário, etc):

SÁBADO:

Local: Capela do Colégio Arnaldo

Endereço: Praça João Pessoa, 200 (o colégio fica em frente a Av. Brasil) - Funcionários

Dia: 13/12/08 – Sábado

Horário: 16 horas

Um abraço!

Renato Salles

 

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O santo Padre, o Papa Bento XVI, disse a algum tempo atrás:

Tornou-se mais facilmente possível [considerar fazê-lo] pelo fato de que neste meio tempo apareceram dois trabalhos excelentes nos quais o assunto da orientação da oração na Igreja do primeiro milênio foi esclarecido muito persuasivamente. Penso primeiramente no importante livrinho de Uwe Michael Lang, Voltados ao Senhor, de importância particular, e a importante contribuição de Stefan Heid, atitute e orientação da primeira oração na era Cristã (no Jornal de Arqueologia Cristã, 72-2006), onde fontes e uma bibliografia sobre o tema são amplamente ilustradas e atualizadas.

A conclusão é absolutamente clara: a idéia de que um padre e o povo devem se olhar nos olhos um ao outro era somente [uma idéia] na Cristandade moderna e é completamente alheia na antiga [Igreja]. O padre e o povo certamente não rezam um ao outro, mas ao único Senhor. Eles olham em oração para a mesma direção: em direção ao Leste, como símbolo cósmico para o Senhor que vem, ou onde isso não é possível, a uma imagem de Cristo, a uma cruz, ou simplesmente para o céu, como o Senhor fez na oração sacerdotal da véspera de sua Paixão (Jn 17:1).

Fonte: http://fratresinunum.wordpress.com/

Em recente entrevista disse Mons. Ranjith, secretário para a congregação do Culto Divino:

Excelência, sua primeira aparição pública como secretário da Congregação para o Culto Divino foi uma conferência proferida por ocasião da apresentação do livro de Uwe Michael Lang, oratoriano de origem alemã residente em Londres, Rivolti al Signore. L’orientamento della preghiera liturgica (Sena, Cantagalli, 2006, 150 pp.), realizada em 27 de abril no Instituto Patrístico Augustinianum de Roma. O livro, publicado em alemão em 2003, contém um prefácio do então cardeal Joseph Ratzinger, publicado pela primeira vez em italiano na edição de março de 2004 de 30Dias. O que mais o impressionou nesse livro?
RANJITH:
[...]De fato, não se pode dizer que essa participação é mais ativa quando o padre celebra voltado para o povo; pode acontecer que nesse caso o povo se distraia. Da mesma forma, a participação é verdadeira quando o abraço da paz cria uma grande confusão na igreja, com os sacerdotes indo às vezes cumprimentar até as últimas fileiras? Essa é a actuosa participatio, desejada pelo Concílio Vaticano II, ou simplesmente uma grande distração que não ajuda em nada a acompanhar com devoção o momento seguinte da missa (para não falar que às vezes se esquece até de dizer o Agnus Dei...)? Repito, o livro de padre Lang foi e é uma provocação extremamente útil, a começar pela introdução, na qual o cardeal Ratzinger lembra que o Concílio nunca pediu que se abolisse o latim, nem que se revolucionasse a direção da oração litúrgica...

Culpa da secularização...
RANJITH:
Certamente, mas essa situação é também fruto da maneira como foi tratada, ou melhor, maltratada a liturgia... Na prática, a meu ver, as sacrossantas expectativas do Concílio de uma liturgia mais bem compreendida e portanto espiritualmente mais fecunda receberam uma resposta ainda mais decepcionante. Portanto, há ainda muito o que fazer, a fim de que as igrejas se encham de novos de fiéis que se sintam realmente tocados pela graça do Senhor durante as sagradas liturgias. Num mundo secularizado, em vez de procurar elevar os corações para a grandeza do Senhor, procurou-se muito mais, eu acredito, rebaixar os mistérios divinos a um nível banal.

Quando o senhor foi nomeado secretário para o Culto Divino, escreveram que tinha ótimas relações com o mundo lefebvriano. Isso corresponde à verdade?
RANJITH:
Não conheci dom Marcel Lefebvre em razão da nossa diferença de idade, pois ele é de uma outra geração. Mas certamente tive algum contato com alguns de seus seguidores. Mas não sou um apaixonado pelos lefebvrianos. Infelizmente, ainda não voltaram à plena comunhão com a Santa Sé, mas às vezes quando falam sobre a liturgia é evidente que estão cobertos de razão. [...]

Fonte: http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=11298

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Entrevista com o Arcebispo Malcom Ranjith

“A liturgia e os pobres, tesouros da Igreja”

Entrevista com o arcebispo Malcolm Ranjith (Setembro 2006), escolhido pelo papa Bento XVI como secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos

Entrevista com Malcom Ranjith de Gianni Cardinale

O arcebispo Albert Malcolm Ranjith Patabendige Don, a completar 59 anos em meados de novembro, originário do Sri Lanka, foi nomeado secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos em 10 de dezembro do ano passado. Bento XVI o chamou à Cúria, como segunda nomeação de relevo de seu pontificado, depois da de William Joseph Levada a prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Ao lado do recém-empossado cardeal secretário de Estado Tarcisio Bertone, dom Ranjith faz parte do círculo de estreitos colaboradores da Cúria Romana pessoalmente escolhidos pelo papa Ratzinger.
30Dias lhe pediu que aprofundasse alguns aspectos de sua biografia.

Don Albert Malcom Ranjith

Excelência, como nasceu a sua vocação?
ALBERT MALCOLM RANJITH PATABENDIGE DON: Nasci numa família de bons católicos. Em nossa paróquia vivíamos com alegria a sadia e boa tradição da Igreja, na qual a missa cotidiana era uma prática da qual participavam muitos fiéis simples. A paróquia era dirigida por um ótimo missionário francês, um oblato de Maria Imaculada, padre Jean Habestroh, que deu tudo por Jesus e por Sua Igreja. Um verdadeiro modelo de dedicação. E assim, dentro dessa intensa vida de fé na família e na paróquia, o chamada a me dedicar plenamente ao serviço do Senhor nasceu desde pequeno e amadureceu, quando eu era coroinha, quase de modo natural.


Onde o senhor estudou?
RANJITH: Numa escola dos religiosos das escolas cristãs de La Salle, escolas de ótima qualidade, nas quais a vida devocional era muito intensa. Todos os dias rezávamos o Rosário, e éramos quase todos membros da Legião de Maria. Tive sorte, pois nessas escolas cresci não apenas nos conhecimentos científicos e na formação cultural, mas também na vida espiritual. E os religiosos de La Salle eram guias exemplares.


O senhor freqüentou o seminário maior nacional de Kandy, de 1966 a 1970...
RANJITH: Eu tinha dezoito anos quando entrei no seminário. Meu pai, num primeiro momento, não estava muito contente, pois eu era o primogênito e único filho homem. Mas, depois, graças sobretudo a minha mãe, meus pais entraram em acordo e me deram permissão de entrar no seminário. Depois dos estudos filosóficos e de um período de tempo que passamos fora do seminário, o primeiro e único cardeal que teve o Sri Lanka, Thomas Benjamin Cooray, mandou-me a Roma, para o Colégio de Propaganda Fide, a fim de que eu completasse os estudos teológicos.


E em Roma o senhor foi ordenado sacerdote.
RANJITH:
Sim, em 29 de junho de 1975. Éramos mais de 350 diáconos ordenados por Paulo VI durante o Ano Santo. Em seguida, freqüentei o Pontifício Instituto Bíblico, onde, depois de quatro anos, obtive a licenciatura em Sagrada Escritura. Durante esses anos, tive também a sorte de poder fazer um curso de oito meses na Universidade Judaica de Jerusalém, onde pude receber dos rabinos professores um grande sentimento de amor pela Palavra de Deus. A Terra Santa está cheia de Deus e de Seu amor pela humanidade, um amor que naqueles lugares pode-se quase tocar com as mãos. Minha vocação sacerdotal, portanto, se enriquecia com novas forças espirituais, a cada dia que eu respirava aquele ar.


Quem foram seus mestres?
RANJITH:
Fui aluno do então padre Carlo Maria Martini, inteligente e muito capacitado: ele nos ensinava o Evangelho de São Lucas e Crítica Textual. Outro jesuíta, hoje cardeal, padre Albert Vanhoye, era também meu professor. Com ele como orientador, em 1978, escrevi minha monografia para a conclusão de curso de Sagrada Escritura sobre a Carta aos Hebreus. Da Urbaniana, guardei a figura do padre Carlo Molari: apresentava a doutrina dogmática sob um ponto de vista diferente, mas interessante, que suscitava debates e abria nossos olhos para que saboreássemos o verdadeiro valor da teologia. Houve muitos outros bons professores. Eu me lembro de dom Stefano Virgulin e do padre comboniano Pietro Chiocchetta: não ensinavam de modo “livresco”, mas com uma fé intensa em Jesus.


Concluídos os estudos, em 1978 o senhor voltou para a pátria.
RANJITH:
Fui vice-pároco numa região pouco desenvolvida, num vilarejo de pescadores, todos católicos. E lá comecei a descobrir a ligação da teologia com a vida cotidiana dos fiéis a partir do grande veículo da liturgia. Quem celebra e reza intensamente é ajudado a pôr em prática o que celebra. Depois fui pároco também em outros vilarejos de pescadores. Eram muito pobres, mas tinham uma grande fé. E foi justamente graças ao contato com essas realidades que descobri a necessidade de que a Igreja se ocupe também da justiça social. Desde então, o amor pela liturgia e o amor pelos pobres, dois verdadeiros tesouros da Igreja, poderíamos dizer, foram a bússola da minha vida de sacerdote. Muito embora, naquela época, eu jamais pudesse pensar que um dia chegaria a ser secretário da Congregação para o Culto Divino.


Como o senhor ajudou aquelas populações?
RANJITH:
Aproveitei os conhecimentos que tinha cultivado em Roma e na Alemanha. Chamei meus velhos amigos e, graças a Deus, as ajudas apareceram. Foi graças também a essa atividade que, em 1983, me tornei diretor nacional das Pontifícias Obras Missionárias. Cargo que exerci durante dez anos. E nessa condição participei de muitos encontros com os outros diretores das Pontifícias Obras Missionárias espalhadas pelo mundo inteiro. Foram essas reuniões que me ajudaram a ter uma visão realmente católica, universal da Igreja.


Em 1991, o senhor foi nomeado bispo auxiliar de Colombo. Com viveu essa primeira experiência episcopal?
RANJITH:
Como bispo auxiliar, pude ampliar minha presença para toda a diocese e colaborar dessa forma com meu bispo ordinário. Pude descobrir, além disso, como o povo cristão deseja sentir próximos seus pastores, dos quais esperam uma vida que reflita a do supremo pastor, Jesus. Durante esse período, a pedido do episcopado, coordenei com o governo e a Santa Sé a preparação da viagem do papa João Paulo II ao Sri Lanka, ocorrida em janeiro de 1995. Foi uma grande experiência também. Era comovente ver nossos fiéis simples se apertarem ao redor do Papa com um grande sentimento de afeto.

O jovem padre Ranjith, vice-pároco do vilarejo de pescadores de Kepungoda, na arquidiocese de Colombo

Era a primeira vez que um papa tocava o solo do Sri Lanka?
RANJITH:
Não, trinta anos antes, em dezembro de 1970, Paulo VI, voltando a Roma da Austrália, fez uma parada em Colombo, onde celebrou uma missa no aeroporto. Na época, eu era um jovem seminarista e ainda me lembro da alegria com que os católicos, mas não apenas eles, se reuniram em torno da figura do primeiro papa que punha os pés em nossa ilha.


No final de 1995, o senhor foi chamado a guiar a nova diocese de Ratnapura, onde ficou até 2001. RANJITH: Pediram-me para assumir uma diocese nova, que acabara de ser constituída, situada no interior do país. E eu aceitei. Foram cinco anos muito felizes, apesar dos problemas que sempre existem, sobretudo quando se deve construir toda uma estrutura diocesana. Aprendi a ficar perto do clero – que em Ratnapura estava um pouco dividido – e dos fiéis, a maioria dos quais eram e são muito pobres. Nesse caso não eram pescadores, mas agricultores das plantações de chá.


Quantos católicos havia em Ratnapura?
RANJITH:
Só dois por cento da população. Mas as relações com a esmagadora maioria budista eram ótimas. Quando entrei na diocese como bispo, fui visitar todos os templos budistas da cidade e encontrar os monges. Desde o primeiro dia, criamos um organismo de diálogo e cooperação em campos nos quais isso é possível, como o social. Nasceu uma amizade muito forte com alguns desses monges. A eles, algumas vezes, pedimos conselhos e sugestões quando construímos novas igrejas.


No entanto, nos últimos tempos, se discutem leis para impedir a conversão de uma religião para outra no Sri Lanka...
RANJITH:
É uma questão que se discute em nível nacional e que se deve à longa guerra entre a minoria tâmil, grande parte dela hinduísta, e a maioria cingalesa, formada sobretudo por budistas, e também às atividades pouco corretas de algumas seitas cristãs fundamentalistas. A maioria cingalesa-budista tem medo de que as minorias, a tâmil-hinduísta mas também as comunidades cristãs que se encontram tanto entre os tâmil quanto entre os cingaleses, queiram conquistar uma posição dominante na sociedade, e por isso reage e procura controlá-las, criando nelas às vezes um sentimento de opressão. Isso de maneira geral. Mas, quando eu era bispo em Ratnapura, a situação era tranqüila na diocese, até porque ela está fora das regiões mais quentes do conflito, que ficam no nordeste do país.


Em 2000 foi publicada a declaração Dominus Iesus, sobre o caráter salvífico único de Jesus. Ela criou problemas no diálogo com o budismo?
RANJITH:
Para dizer a verdade, um primeiro problema surgiu em 1994, quando João Paulo II publicou com Vittorio Messori o livro-entrevista Cruzando o limiar da esperança, no qual algumas frases sobre o budismo suscitaram reações. Mas aqueles que deram difusão ampla a essas afirmações eram estrangeiros que vieram se instalar no país. Foram eles que deram grande destaque nos jornais do Sri Lanka à notícia de que o Papa havia atacado o budismo nesse livro. Eram artigos que inflamavam as tensões, ainda que muitas pessoas nem tivessem lido o livro do Papa. Mas um monge budista que eu conhecia escreveu no principal jornal de língua inglesa do Sri Lanka, o Daily News, um artigo em que defendia o Santo Padre. Esse monge escreveu que, segundo as indicações de Buda, todos os ensinamentos deveriam ser submetidos à crítica, inclusive os seus. E, portanto, o Papa tinha todo o direito de dizer o que achava negativo na religião budista. Paradoxalmente, foram mais alguns teólogos católicos que criticaram o Papa do que os próprios budistas. Mais ou menos o mesmo aconteceu com a Dominus Iesus: os ataques maiores vieram dos teólogos católicos e não dos outros. Muitas vezes, nessas coisas, nós nos deixamos guiar por nossas emoções, mais que por uma análise dos fatos. E assim se criam situações antipáticas e inúteis.


De qualquer forma, durante a visita de João Paulo II ao Sri Lanka de janeiro de 1995 os líderes budistas não participaram do encontro com o Papa...
RANJITH:
Os líderes não, mas muitos e muitos fiéis budistas participaram do encontro com alegria. Devo especificar que o altar principal no qual o Papa celebrou a santa missa, na esplanada de Galle Face, foi desenhado e construído por um monge budista, nosso amigo, que dessa forma se recusou a ser instrumentalizado pelos outros.

Padre Ranjith durante um encontro de promoção da infância missionária, quando era diretor das Pontifícias Obras Missionárias do Sri Lanka

Voltemos à atualidade. Como o senhor avalia a tentativa de introduzir leis anticonversão em seu país?
RANJITH:
Antes de mais nada, nós, cristãos, dizemos claramente à maioria budista que não é nosso desejo subverter as tradições religiosas e culturais em que se reconhece a maioria do povo do Sri Lanka. Além do mais, mesmo que uma lei desse tipo seja aprovada, as conseqüências poderão não ser totalmente negativas. Isso significará que o Senhor quer pôr à prova a nossa fé, e não duvido que com Sua ajuda a fé do nosso povo cristão se reforçará.


Em 1º de outubro de 2001 veio a público a sua nomeação a secretário adjunto de Propaganda Fide. Que recordação o senhor tem desse chamado a Roma?
RANJITH:
Em 1995, além de bispo de Ratnapura, eu me tornei também secretário-geral da Conferência Episcopal e presidente da Comissão Episcopal para a Justiça e a Paz. Com o vice-presidente dessa Comissão, o bispo de Mannar, Joseph Rayappu, de etnia tâmil, trabalhei muito para levar o governo de Colombo e os Tigres tâmil à mesa de negociações que conduziram ao cessar-fogo, rompido, infelizmente, justamente nos últimos meses. Lembro-me que conseguimos levar 26 monges budistas à região controlada pelos tâmil para tentar romper a hostilidade que os budistas e os tâmil alimentavam mutuamente em razão das atrocidades cometidas por ambos no passado. O encontro entre os dois grupos foi uma experiência muito feliz. Bem no momento em que eu estava muito empenhado nessas iniciativas de paz, o núncio apostólico me telefonou, anunciando a decisão do Papa de me nomear secretário adjunto de Propaganda Fide e perguntando se eu acataria essa solicitação. Diante do desejo do Papa, eu disse sim. Dessa forma, fui para Roma desenvolver minha missão na Congregação dirigida pelo cardeal Crescenzio Sepe.


Na qual ficou durante cinco anos.
RANJITH:
Foi um período muito interessante. Para mim foi um pouco uma continuação do trabalho que eu já havia desenvolvido na qualidade de diretor das Pontifícias Obras Missionárias no Sri Lanka. Foram quase dois anos nos quais procurei ser o mais autêntico, leal e sincero possível no meu trabalho. Tentei valorizar ao máximo o papel dos diretores nacionais das Pontifícias Obras Missionárias nas várias Igrejas locais, e preservar a transparência absoluta em todas as delicadas questões financeiras que estavam relacionadas com essas obras.


Em 29 de abril de 2004 veio a público a sua nomeação a núncio apostólico na Indonésia e no Timor Leste.
RANJITH:
Depois de um período de reflexão, me pediram que me tornasse núncio apostólico. Aceitei com grande interesse, mesmo sendo uma experiência nova, num campo que ainda era misterioso para mim. Como bispo, eu havia colaborado com a nunciatura de Colombo, mas não havia recebido a formação especial que os núncios têm. Eu diria que foi uma experiência muito rica e que procurei estar próximo daquela Igreja e de seus pastores e manifestar, dessa forma, a proximidade do Santo Padre.


Foi justamente quando o senhor estava em Jacarta que ocorreu o terrível tsunami que arrasou o Sudeste asiático. Como o senhor viveu essa experiência?
RANJITH:
Naqueles dias, um de meus mais queridos amigos, o arcebispo de Viena, cardeal Christoph Schönborn, estava comigo. Quando soubemos da tragédia, abandonamos a programação que havíamos estabelecido para a visita dele e fomos para Banda Aceh. Foi uma viagem extremamente difícil, mas conseguimos chegar a visitar as regiões atingidas. Foi um espetáculo terrível: morte e destruição por todos os lados. Passamos dois dias como missionários, dormindo em alojamentos improvisados, sem água corrente nem luz. Mas ficamos contentes por poder estar próximos da pequena comunidade católica de Banda Aceh e também da ilha de Nias. A voz do cardeal Schönborn, que, de lá, narrava a sua experiência às rádios e TVs européias, foi também determinante para a solidariedade que recebemos de todas as partes do mundo. Depois, por intermédio da rede da Cáritas e da ajuda da Santa Sé, conseguimos estabelecer um programa de ajuda sólida para aquelas populações. A Cáritas indonésia estava inativa; com a ajuda do cardeal arcebispo de Jacarta e da Cáritas Internacional, conseguimos reativar esse organismo eclesial e estabelecer projetos de ajuda para a reconstrução daquelas regiões. Lembro-me de que participamos de reuniões intermináveis, mas importantes, graças às quais pudemos dar nossa contribuição como Igreja Católica às populações atingidas por essa imensa tragédia.


Pouco antes da sua nomeação a núncio, o L’Osservatore Romano de 26-27 de abril de 2004 publicou um artigo seu comentando a instrução Redemptionis Sacramentum, “sobre algumas coisas que se devem observar e evitar acerca da Santíssima Eucaristia”, publicada pouco tempo antes pela Congregação para o Culto Divino, em parceria com a Congregação para a Doutrina da Fé...
RANJITH:
Escrevi esse artigo a pedido do prefeito da Congregação para o Culto Divino, cardeal Francis Arinze. Eu tinha achado a Redemptionis Sacramentum muito útil e necessária, e por isso fiquei muito contente em comentá-la.


Foi um artigo por assim dizer profético, visto o cargo que o senhor hoje exerce...
RANJITH:
Não sei. Mas, como já disse, sempre me interessei pela liturgia, sobretudo em seus aspectos pastorais, e sempre busquei ler e me atualizar a respeito desses aspectos. Eu me lembro de que, quando encontrava o então cardeal Ratzinger, nas nossas conversas muitas vezes acabávamos falando de liturgia.


Como o senhor conheceu o cardeal Joseph Ratzinger?
RANJITH:
Foi graças a uma questão relacionada ao Sri Lanka, a do teólogo Tissa Balasuriya, que havia escrito um livro, Mary and human liberation, no qual era feita uma análise teológica que dificilmente poderia ser considerada compatível com a doutrina católica. Na época, eu era um jovem bispo recém-nomeado, me interessei por esse livro e coordenei uma comissão episcopal criada especialmente para estudá-lo. Em 1994, quando se concluíram os trabalhos dessa comissão, a Conferência Episcopal emitiu um comunicado pelo qual os fiéis eram avisados de que o livro não refletia a doutrina da Igreja. Esse comunicado desencadeou uma campanha na imprensa mundial contra nós e em favor do padre Balasuriya. A controvérsia foi tão forte, que até Roma começou a investigar. E assim fui chamado à Urbe para explicar o que estava acontecendo ao Papa e ao prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Ratzinger. As afirmações do padre Balasuriya eram tão graves, que em janeiro de 1997 foram formalmente condenadas pela Congregação, e ele mesmo, não as tendo retirado, sofreu a excomunhão latae sententiae. Essa excomunhão foi revogada no ano seguinte, depois de uma solene declaração pública do próprio padre Balasuriya.


Foi nesse contexto, então, que começou a sua convivência com o cardeal Ratzinger...
RANJITH:
Sim, eu o encontrei diversas vezes e nessas ocasiões tinha a oportunidade de esclarecer a ele as minhas impressões e as minhas preocupações, enquanto bispo, especialmente a respeito da questão do diálogo inter-religioso e também das questões litúrgicas. Quando, mais tarde, fui chamado a Propaganda Fide, tive a oportunidade de encontrar o cardeal Ratzinger com maior freqüência, também durante as reuniões ordinárias desse organismo, do qual ele também era membro. Assim, além de ser um ávido leitor de seus livros, aprendi a apreciar pessoalmente também seus dotes humanos. Vi sempre nele um grande teólogo e, em suas palavras, não um pedante, mas essencialmente uma pessoa próxima do Senhor.


Dessa forma, o senhor ficou pouco menos de dois anos em Jacarta. Em 10 de dezembro de 2005, foi publicada sua nomeação a secretário do Culto Divino. O senhor esperava esse novo chamado a Roma?
RANJITH:
Eu me lembro de que Bento XVI me chamou em audiência a Castel Gandolfo durante o verão de 2005, em meados de setembro, e me perguntou se eu aceitaria a nomeação a secretário da Congregação para o Culto Divino. Eu disse que sim. Sempre me interessei pela liturgia, que sempre considerei a chave da relação entre a fé e a vida, pois da maneira como é celebrada a liturgia é também vivida a fé cristã. A liturgia, por um lado, exterioriza a fé, e, por outro, a alimenta. Poder dar minha contribuição sobre esse ponto, ainda que modesta, sabendo como ele é caro ao papa Bento, encheu meu coração de alegria.

Albert Ranjith com padre Uwe Michael Lang, autor do livro Rivolti al Signore. L’orientamento nella preghiera liturgica, Sena, ed. Cantagalli, por ocasião da apresentação da obra, em 27 de abril de 2006

Excelência, sua primeira aparição pública como secretário da Congregação para o Culto Divino foi uma conferência proferida por ocasião da apresentação do livro de Uwe Michael Lang, oratoriano de origem alemã residente em Londres, Rivolti al Signore. L’orientamento della preghiera liturgica (Sena, Cantagalli, 2006, 150 pp.), realizada em 27 de abril no Instituto Patrístico Augustinianum de Roma. O livro, publicado em alemão em 2003, contém um prefácio do então cardeal Joseph Ratzinger, publicado pela primeira vez em italiano na edição de março de 2004 de 30Dias. O que mais o impressionou nesse livro?
RANJITH:
Eu já havia lido esse livro e o belíssimo prefácio do então cardeal Ratzinger. Assim, quando recebi o convite, aceitei logo. Foi uma oportunidade para proporcionar um debate muito positivo na Igreja. Fala-se muito de participação dos fiéis na liturgia. Mas os fiéis participam mais quando o sacerdote celebra versus populum ou quando celebra voltado para o altar? De fato, não se pode dizer que essa participação é mais ativa quando o padre celebra voltado para o povo; pode acontecer que nesse caso o povo se distraia. Da mesma forma, a participação é verdadeira quando o abraço da paz cria uma grande confusão na igreja, com os sacerdotes indo às vezes cumprimentar até as últimas fileiras? Essa é a actuosa participatio, desejada pelo Concílio Vaticano II, ou simplesmente uma grande distração que não ajuda em nada a acompanhar com devoção o momento seguinte da missa (para não falar que às vezes se esquece até de dizer o Agnus Dei...)? Repito, o livro de padre Lang foi e é uma provocação extremamente útil, a começar pela introdução, na qual o cardeal Ratzinger lembra que o Concílio nunca pediu que se abolisse o latim, nem que se revolucionasse a direção da oração litúrgica...


Uma entrevista sua à Croix de 25 de junho, intitulada “A reforma litúrgica do Vaticano II nunca decolou”, provocou um grande burburinho. O senhor pode explicar melhor seus juízos sobre a reforma litúrgica posta em prática depois do Concílio Vaticano II?
RANJITH:
Essas palavras foram retiradas do seu contexto. Não é que eu tenha avaliado negativamente tudo o que ocorreu depois do Concílio. O que eu disse foi que o resultado esperado pela reforma litúrgica não se manifestou. Nós nos perguntamos se a vida litúrgica, a participação dos fiéis nos ritos sagrados, é mais alta e melhor hoje do que a que se dava na década de 1950. Criticava-se o fato de que, antes do Concílio, os fiéis não participavam realmente da missa, mas a assistiam passivamente ou praticavam devoções pessoais. Mas os fiéis hoje participam mesmo de um modo espiritualmente mais elevado e pessoal? Aconteceu mesmo que muitas pessoas que estavam fora da Igreja começaram a fazer fila para entrar nas nossas igrejas depois das novas liturgias? Ou será que não aconteceu justamente o contrário, que muitos foram embora e que as igrejas se esvaziaram? De que reforma estamos falando, então?


Culpa da secularização...
RANJITH:
Certamente, mas essa situação é também fruto da maneira como foi tratada, ou melhor, maltratada a liturgia... Na prática, a meu ver, as sacrossantas expectativas do Concílio de uma liturgia mais bem compreendida e portanto espiritualmente mais fecunda receberam uma resposta ainda mais decepcionante. Portanto, há ainda muito o que fazer, a fim de que as igrejas se encham de novos de fiéis que se sintam realmente tocados pela graça do Senhor durante as sagradas liturgias. Num mundo secularizado, em vez de procurar elevar os corações para a grandeza do Senhor, procurou-se muito mais, eu acredito, rebaixar os mistérios divinos a um nível banal.

Albert Ranjith, recém-ordenado bispo auxiliar de Colombo, é recebido em sua paróquia de origem

Quando o senhor foi nomeado secretário para o Culto Divino, escreveram que tinha ótimas relações com o mundo lefebvriano. Isso corresponde à verdade?
RANJITH:
Não conheci dom Marcel Lefebvre em razão da nossa diferença de idade, pois ele é de uma outra geração. Mas certamente tive algum contato com alguns de seus seguidores. Mas não sou um apaixonado pelos lefebvrianos. Infelizmente, ainda não voltaram à plena comunhão com a Santa Sé, mas às vezes quando falam sobre a liturgia é evidente que estão cobertos de razão. E por isso são uma provocação que nos deve fazer refletir sobre o que estamos fazendo. Isso não significa que posso ser definido um adepto ou um amigo dos lefebvrianos. Compartilho alguns pontos defendidos pelos chamados militantes antiglobalização com relação à justiça social, mas isso não significa que sou um adepto deles... Por outro lado, a missa tridentina não é propriedade privada dos lefebvrianos. Ela é um tesouro da Igreja e de nós todos. Como o Papa disse à Cúria Romana no ano passado, o Concílio Vaticano II não é um momento de ruptura, mas de renovação na continuidade. Não se joga fora o passado, mas se cresce sobre ele.


Isso significa que a chamada missa de São Pio V, na realidade, nunca foi abolida?
RANJITH:
O fato de a Santa Sé ter recentemente aprovado a instituição, em Bordeaux, de uma sociedade de vida apostólica de direito pontifício caracterizada por usar exclusivamente os livros litúrgicos pré-conciliares [o Instituto do Bom Pastor, no qual se reuniram alguns “ex-lefebvrianos”, ndr.], significa de maneira inequívoca que a missa de São Pio V não pode ser considerada abolida pelo novo missal chamado de Paulo VI.

Fonte: http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=11298

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