sábado, 27 de junho de 2009

A Moral do Decálogo e a Moral Independente

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Do Opúsculo de Pe. Emmanuel-André: O Naturalismo (Ed. Permanência)

Estando doente a natureza, como mostramos e como constata a experiencia universal, o naturalismo aparece e, oferecendo-se como remédio de todo mal e como condição indispensável de todo bem, começa a nos ensinar a moral.

Primeiramente poderíamos dizer-lhe: A moral, mas para que? Se tuas teorias são verdadeiras, que o homem siga suas inclinações naturais e tudo irá bem!

Mas nesse ponto, o naturalismo é forçado a reconhecer que nada vai bem e volta a gritar: A moral, a moral! A moral é necessaria! É preciso a moral!

Escutemos, então, o naturalismo ensinando a moral.

Notemos primeiramente que, em matéria de moral, a humanidade nunca conheceu outra moral que não a do decálogo. Não daremos o nome de moral à doutrina de Confúcio, nem aos absurdos sistemas da India, nem mesmo às doutrinas dos estoicos, ainda menos às de Epicuro. Mas o naturalismo não poupa nada do que no passado, levava o nome de moral. Ele quer achar em si mesmo a regra de todo bem, e como sua moral é bem diferente da moral do decálogo, dá-lhe um nome bem sucedido e que a caracteriza muito bem: moral independente.

Até aqui a humanidade sempre olhou a moral como a expressão exata da dependência e da responsabilidade dos homens.

Com efeito, a moral nos prescreve deveres para com Deus, para com o próximo e para com nós mesmos.

Quem não vê que o cumprimento desses deveres tão completos se impõe ao indivíduo e só pode ser obra de Deus, criador do indivíduo e da humanidade? É pois evidente que a moral é a expressão exata, a medida, a regra, a salvaguarda de nossa dependência.

Quando nos vêm falar de moral independente, é como se nos ensinassem deveres que não são devidos, regras que não obrigam, preceitos que não ligam, em uma palavra, uma moral impotente, o que não tem absolutamente nada de moral, nada de moralizante.

Isso é o que se torna evidente quando se considera a prática dessa moral dita independente. Inicialmente, ela suprime o que chamamos nossos deveres para com Deus. Aí está a grande conquista do naturalismo, o significado característico da moral independente. Segundo o ímpio Renan, Deus é uma palavra antiquada e um pouco pesada. Na verdade, como é possível que devamos alguma coisa a uma palavra, a uma palavra antiquada, sobretudo se é um pouco pesada? Uma palavra é fácil de desprezar, desprezar duas vezes se é antiquada e um pouco pesada, então só nos resta nos desfazer dessa carga.

Foi a esse preço que a moral naturalista se tornou independente. E, no entanto, eles não se sentem tranquilos em relação a Deus. Não ousam dizer: Deus não é nada! São obrigados a confessar que é uma palavra e, se tivessem um pouco o senso da verdade, seriam obrigados a dizer que essa palavra é um nome, um nome que designa uma pessoa ou uma coisa e uma coisa única em seu gênero; porque Deus é um nome próprio e o próprio desse nome é ser antigo. Nós, cristãos, dizemos eterno.

O naturalismo não deixa de ter dificuldades no trabalho que empreendeu para se tranqüilizar com relação a Deus. Porque apesar de sua ciência e de seus esforços, os homens não podem chegar a negar a Deus senão negando sua própria inteligência; de acordo com a palavra profunda de um salmo, o homem que diz em seu coração: Deus não existe, é por isso mesmo convencido de ter perdido o bom senso: Dixit insipiens in corde suo: Non est Deus.(Sl.XIII,1).

Para que a impiedade naturalista estivesse tranqüila quanto a Deus, seria preciso que ela fosse capaz de aniquilá-lo ou que tivesse sabido, de boa fonte, que Ele não existe. Mas a impossibilidade disso é manifesta em ambos os casos. Portanto, se o naturalismo pode se constituir na dúvida ou na ignorância ou no desprezo em relação a Deus, nunca poderá levar esse desprezo, essa dúvida ou essa ignorância ao estado de ciência, e jamais homem algum no mundo pode nem poderá dizer: Sei que Deus não existe.

Portanto, o naturalismo não é admissível em sua pretensão de apagar nossos deveres para com Deus.

Vejamos a prática do naturalismo quanto a nossos deveres em relação ao próximo. Nós, cristãos, vemos claramente esses deveres porque Deus nos ensinou a sua vontade sobre isso e nos revelou a caridade. Mas o naturalismo, tendo fechado os olhos para Deus e para as luzes que nos vêm de Deus, nas lições que pretende nos dar, só se inspira no princípio do interesse pessoal. Assim, o filho honrará seu pai porque é ainda de seu interesse; o cidadão respeitará as leis porque isso é de seu interesse!

Quem não vê a fraqueza de tal princípio? Não haverá um dia em que se estabelecerá uma luta entre o interesse do indivíduo e o interesse da humanidade? E nessa luta, quais serão as regras do combate, quais serão as conseqüências? o indivíduo não terá necessidade de uma certa força moral para preferir o interesse bem entendido do próximo a seu próprio interesse mal entendido? Quem lhe dirá que ele compreende mal seu interesse pessoal, que ele deve dar preferência ao interesse do vizinho? Quem levará sua vontade a não querer o que ela quer e querer firmemente o que não quer de maneira nenhuma?

Moral independente, como ensinarás o homem a praticar uma moral não independente? Bem gostaríamos de ouvi-la falar sobre isso.

Gostaríamos também de ouvi-la ensinar ao homem seus deveres para consigo mesmo.

Sobre esse capítulo, o naturalismo só pode ensinar o egoísmo. A moral divina, a única que é verdadeiramente moral, pode falar ao homem sobre a abnegação de si mesmo; mas o naturalismo não pode pronunciar tais palavras sem se condenar, pois ele repele Deus para valorizar o homem. Se, depois disso, o homem renunciar a si mesmo, que lhe restará senão o nada? Quando a lei divina nos prescreve a abnegação de si mesmo, ela nos faz encontrar Deus e a nós mesmos em Deus, no estado de homens salvos. O naturalismo não pode fazer nada de parecido, é-lhe impossível elevar o homem acima do egoísmo.

Assim, o naturalismo fixa o homem no mais detestável dos vícios. Que ele adorne seu estado com não importa que nome faustoso, dignidade humana, independência, brio, tudo o que quiser, esse estado é vicio; e toda a moral dita independente termina nisso, sem a possibilidade de sair disso nunca mais.

É totalmente diferente a situação da moral cristã, cujo código é tão claro, tão luminoso. Que se julgue somente pelo primeiro artigo: Um só Deus adorarás e amarás perfeitamente.

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