domingo, 9 de novembro de 2008
As Cantigas de Afonso X, o Sábio, Reio de Castela e Leão.
As Cantigas de Santa Maria são a maior coleção de poemas dedicados à Virgem Maria de toda a história. São 427 poemas sendo a maioria de Cantigas de Milagre e outras tantas de Cantigas de Louvor. Elas foram escritas em galego-português entre 1250 e 1285 e os manuscritos originais são profusamente iluminados e acompanhados de notações musicais. É importante para um católico conhecer um tesouro artístico desta natureza.
sábado, 8 de novembro de 2008
Autoridade e “autoridades”
Sidney Silveira
Qualquer principiante no estudo da obra de Santo Tomás sabe que o argumento de autoridade não vale nada, razão pela qual não devemos escorar-nos em uma autoridade humana como se isto nos garantisse a posse da verdade, pois “não importa quem diz, mas a validade do que se diz”. As únicas autoridades que o Doutor Angélico aceita são a da Sagrada Escritura e a do Magistério da Igreja; aquela porque foi revelada, e este porque foi participado pelo próprio Cristo e, portanto, não pode errar em artigos de fé e doutrina, dada a sua origem divina. [“Ide e ensinai a todas as nações”, cf. Mateus, XXVIII, 19]
Esse Magistério da Igreja participado pelo próprio Cristo sempre possuiu órgãos autênticos e órgãos subsidiários. Vejamos alguns deles, seguindo de perto a enumeração do Padre Álvaro Calderón, um simples teólogo (e, como veremos, um teólogo não tem autoridade magisterial, embora possa ter alguma autoridade teológica, se porventura não contraria o Magistério).
1- ÓRGÃOS AUTÊNTICOS DO MAGISTÉRIO
A) O Papa, no qual reside a suprema autoridade apostólica. Aqui, há uma divisão que deve ser feita:
a.1) O Papa sozinho;
a.2) O Papa e os Bispos reunidos em Concílio.
B) Os Bispos em comunhão com o Papa, mestres ex officio da suprema autoridade apostólica. Distingamos, também aqui, as situações.
b.1) Os Bispos dispersos pelo mundo, quando fazem uma declaração comum acerca de algum aspecto da doutrina revelada (e não sobre política ou outro assunto qualquer);
b.2) Os Bispos sozinhos, no âmbito de suas dioceses.
2- ÓRGÃOS SUBSIDIÁRIOS DO MAGISTÉRIO
A) Papais: Congregações Romanas, Comissões Pontifícias, Delegados Apostólicos, etc. Aqui também há distinções, pois esses órgãos em geral são compostos por:
a.1) Teólogos e peritos em ciências eclesiásticas;
a.2) Catequistas.
B) Episcopais: Conselhos de Presbíteros, Comissões Diocesanas, Curas, Párocos, etc.
b.1) Aqui também se encontram, na base, os simples fiéis, os pais de família e os peritos em ciências naturais que possam auxiliar a defesa da fé — caso, por exemplo, do biólogo norte-americano Michael Behe, que, com o seu conceito de complexidade irredutível, refutou, em seu foro científico específico, a teoria evolucionista. Mas esta é uma conversa para outro post.
Como vimos, um teólogo não tem autoridade magisterial nem em sentido pleno (que só o Papa possui) nem de modo não pleno (caso dos Bispos), pois a sua tarefa é subsidiária; por isso, se ele contraria a regra próxima e necessária da fé (ou seja, o Magistério infalível, tanto ordinário [pois o há, em alguns casos] como extraordinário), não só não possui autoridade magisterial, mas sequer possui a mínima autoridade teológica. O bom mesmo é que seja refutado, para que os seus erros não se propaguem e contaminem a fé, pondo em risco a salvação das almas — caso, por exemplo, do teólogo suíço Urs von Balthasar, que afirmara desgraçadamente que o inferno está vazio, ou melhor: está cheio de pecados, mas não de pecadores (sic.). Ou ainda o caso de teólogos que afirmam que o inferno não é um lugar, mas um estado. A teólogos defensores de tais “teses”, o Papa atual, Bento XVI, em recente alocução na Praça de S. Pedro, bem no começo da Quaresma deste ano (em 08/02), deu uma bela e firme resposta, ao dizer com todas as letras e com a sua autoridade: O inferno está cheio e é um lugar!
Aqui vale perguntar: no que se refere a qualquer artigo de fé, vale mais o parecer do Papa — no qual reside a autoridade apostólica de modo pleno — ou o de um teólogo, que, como mostramos, trabalha em algo importante, mas absolutamente subsidiário?
Ademais, nunca é demais lembrar que hoje há teólogos de todas as linhas e sabores: há por exemplo os que defendem o poligenismo (ou seja: afirmam que não existiram Adão e Eva, mas uma multidão de primeiros pais — tese que torna o pecado original teologicamente irresolvível, pelos problemas que traz) e o naturalismo (estes excluem a causa sobrenatural e afirmam coisas verdadeiramente portentosas, como por exemplo a seguinte: o Mar Vermelho foi dividido por um fenômeno natural ocorrido no exato momento em que Moiséis dizia dividi-lo — o que é, na verdade, incrível, literalmente).
Portanto, aconselho a todos os vários amigos — antigos e recentes — que nos têm brindado com visitas cotidianas ao blog: estudem com grande afinco, e continuamente, o Magistério da Igreja e os Santos Doutores (que aliás assim o foram proclamados pelo próprio Magistério!), antes de dar crédito a qualquer teólogo, por mais criativo e erudito que pareça ser.
Fonte: Contra Impugnantes
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Voltaire, Vol et taire
“O plágio, a cópia”
In: Pequena Fábrica de Literatura
O plágio é a reprodução pura e simples de um texto ou um fragmento de texto. Plagiar, diz o dicionário Robert, é copiar de um autor, atribuindo a si indevidamente as passagens da obra.
François Maynard (1582-1646)
Os humores teus são governo de estado;
Teu capricho faz calma e tempestade
E tu ris quando vês-me confinado
Em minha vila, longe da majestade.
Cléomedom, tudo sai-me a contento:
É tão belo o deserto em sua guarita,
Reconheço e me rendo a este tempo,
Fujo ao mundo e me torno eremita.
Sou feliz de enrugar sem ter prestia,
De me esconder, viver qual se queria,
Fazer troça do medo e da esperança.
Caso o Céu, que tão bem me recebeu,
Se apiede, de tu e desta França,
O teu gozo seria igual ao meu.
Voltaire (1694-1778)
É teu humor governo de estado;
Tua vontade faz calma e tempestade;
Mas tu ris quando vês-me confinado
Em minha vila, longe da majestade.
Que mal há, enrugar sem ter prestia
Não ter zelos, viver qual se queria?
Ah! Se o Céu, que tão bem me recebeu,
Se apieda, de tu e desta França,
O teu gozo seria igual ao meu.
Vejamos como Voltaire se justificava do procedimento, nas suas Cartas Filosóficas:
“Quase tudo é imitação. O Boiardo imitou o Pulci, e o Ariosto o Boiardo. Os espíritos mais originais emprestam um dos outros. Metastásio compôs a maioria de suas óperas a partir das tragédias francesas. Diversos autores ingleses nos copiaram e calaram isso. Livros são como o fogo das lareiras: toma-se o fogo no vizinho e acende-se em casa, passa-se adiante e ei-lo pertencente a todos.”
Tradução de Luis de Carvalho
http://traducoesgratuitas.blogspot.com/2007/11/isso-voltaire.html
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
A casa edificada sobre a areia - Dom Antonio de Castro Mayer
Nossa apreensão aumenta, amados filhos, pelo fato de que a minimalização do papel da inteligência, na conversão do indivíduo, vem acompanhada de muita ênfase ao fator emotivo. Digamos, desde logo, que esta não foi a pedagogia de Nosso Senhor Jesus Cristo, como no-la transmitiu a Tradição da Igreja e consta do Magistério Eclesiástico. Com efeito, a Igreja temeu sempre pelas conversões sem base sólida em princípios firmementes aceitos pela inteligência, que pudessem dar firmeza à vontade no combate às paixões desordenadas e na seqüela do Divino Mestre.
Não quer isso dizer que a Igreja se contentou ou se contenta com a mera aceitação intelectual das verdades reveladas. Não. Ela quer a Fé, que opera pela caridade, como diz São Paulo (Gál., 5,6). Em outros termos: Ela quer que o fiel viva de acordo com a sua Fé, tenha, nesse sentido, uma Fé viva. O fundamento, porém, dessa Fé, na qual se firma a adesão viva a Jesus Cristo, é a aceitação, pela inteligência, da Revelação, e, em primeiro lugar, do fato de que Jesus Cristo é deveras o Filho de Deus feito homem, cujos ensinamentos devem ser acatados, como condição preliminar para agradar a Deus e salvar a alma, porquanto sem esta Fé “é impossível agradar a Deus” (Heb., 11,6; Vaticano I, s. 3, c. 3).
Também não quer dizer que a Igreja despreze a parte sensível da natureza humana. Ela não despreza. Pelo contrário, ama-a com o amor que Jesus Cristo a amou ao assumir nossa natureza. Quer, porém, que ela conserve seu lugar na hierarquia dos elementos que compõem a natureza humana, isto é, a serviço das convicções firmadas nas verdades reveladas. Poderá ela assim auxiliar o apostolado; do contrário, tomando a frente, suas contruções comparam-se às casas edificadas sobre a areia, das quais diz a Escritura que não resistem aos vendavais. Imaginemos um fiel entusiasmado com sua Graça, que de repente é submetido a uma prova de aridez espiritual. Se toda a sua formação teve por base a alegria e o entusiasmo, resistirá ele à prova?
Dom Antonio de Castro Mayer, Carta Pastoral sobre Cursilhos de Cristandade, Ed. Vera Cruz, 1973, pp. 47-51
Publicado originalmente em Frates in Unum
O Iluminismo - Trevas na época das luzes
Ronaldo Mota
Introdução
O século XVIII é normalmente apresentado como a época do triunfo da razão. Pegando ao acaso um desses livros de história geral e lendo o tópico Iluminismo, encontramos coisas do tipo: “Os escritores franceses do século XVIII provocaram uma verdadeira revolução intelectual na história do pensamento moderno. Suas idéias caracterizavam-se pela importância que davam à razão: rejeitavam as tradições e procuravam uma explicação racional para todas as coisas.”.[1] Isso não é, entretanto, mais uma simplificação – para não dizer distorção – de manuais de divulgação, mas um reflexo grosseiro do que os principais autores dessa época afirmavam. Voltaire, por exemplo, afirmou que antes de Bacon ninguém conheceu a filosofia experimental. Ao lembrar-se, porém, das grandes descobertas científicas que foram feitas antes de Francis Bacon, apressou-se a declarar:
“foi na época da mais estúpida barbárie que essas grandes mudanças foram feitas sobre a Terra: só o acaso produziu quase todas essas invenções e parece que até mesmo o que se chama acaso participou muito da descoberta da América;”.[2]
Em seu panfleto O que é o Iluminismo?, Emmanuel Kant escreveu:
“O iluminismo é a libertação do homem de sua culpável incapacidade. A incapacidade significa a impossibilidade de servir-se de sua inteligência sem o direcionamento de outro. (...) Sapere aude! Tenha o valor de servir-te de tua própria razão! Eis aqui o lema do iluminismo.”[3]
Sabendo disso, não seria muito difícil imaginar como se construiu, com o passar do tempo, a idéia de uma época da razão em oposição à outra de barbárie e de trevas. Como lembra Paolo Rossi, um importante historiador da ciência, basta “ler o Discurso preliminar à grande Enciclopédia dos iluministas ou também o início do Discurso sobre as ciências e sobre as artes de Jean-Jacques Rousseau para ficar ciente de como circulava com força, desde meados do século XVIII, a definição de Idade Média como época obscura, ou como um ‘retrocesso para a barbárie’”.[4]
O que há de verdade nessa visão iluminista?
Paolo Rossi, apesar de ser um relativista admirador dos modernos, não hesitou em declarar que:
“Hoje sabemos que o mito da Idade Média, como época de barbárie, era, justamente, um mito, construído pela cultura dos humanistas e pelos pais fundadores da modernidade.”.[5]
A afirmação de P. Rossi é importante, visto que vem de um dos maiores historiadores da ciência atualmente.[6] Contudo, ela diz respeito apenas à metade do problema. P. Rossi esqueceu, como veremos nesse artigo, que iluministas e companhia não criaram apenas o mito da Idade das Trevas, mas também o mito do Século das Luzes.
Para continuar lendo, clique aqui
Notas:
[1] José Jobson de A. Arruda. História Moderna e Contemporânea. 19ª. ed. São Paulo: Ed. Ática, 1986, p. 115
[2] Voltaire. Cartas Filosóficas. São Paulo: Ed. Landy, 2001, pp. 85-86 (o negrito é nosso)
[3] Emmanuel Kant. Filosofía de la historia. 2ª. ed., México: Fondo de Cultura Económica, 2004, p. 25
[4] Paolo Rossi. O nascimento da ciência moderna na Europa. Bauru, SP: Ed. EDUSC, 2001, p. 14
[5] Paolo Rossi. op. cit. p. 15 (o negrito é nosso)
Integristas ?
R.P. Félix Sarda y Salvany
INTEGRISTAS! Sim, senhores, e com muita honra! E tanto é assim que, desejando hoje dirigir-vos a palavra nesta nossa querida Academia, depois de tanto tempo sem nela falar-vos, certamente não por falta de vontade, pareceu-me bem escolher para tema de minha familiar Conferência o mote ou apelido com que querem, segundo se vê já faz algum tempo, infamar-nos os nossos inimigos. Com ele quisera eu que vos mostrásseis santamente altivos e cristamente orgulhosos, como vos asseguro que estou eu, pela graça de Deus; assim estou de minha fé, de meu batismo, de minha educação católica e de meu católico sacerdócio e de tudo que constitui, graças aos céus, meu modo de ser na ordem sobrenatural e cristã. Sim, meus amigos; integrista sou e integristas desejo que sejais todos os desta Sociedade, e integrista considero todo homem de quem tenho conceito favorável em seus costumes e crenças, e integrista quisera que fosse todo o mundo - única maneira pela qual seria todo filho reconhecido e súdito submisso de Deus Nosso Senhor. Apropriemo-nos, pois, e em muito alta voz declaremos esta nossa qualificação, que quer ser depreciativa e que não é senão gloriosíssima. Repitamo-la, sim, e alcemo-la ao alto, bem ao alto, como imortal bandeira que simboliza todas as nossas aspirações, recorda todos os nossos deveres, eleva e dignifica maravilhosamente nossa condição na vida social moderna, e nos separa com distintivo característico de tudo que pertence, em maior ou menor grau, ao reinante Liberalismo. Falemos, pois, de integrismo, e com rosto varonil e peito firme aceitemo-lo com todas as suas conseqüências.
É mania constante dos inimigos do catolicismo buscar sempre disfarces e alcunhas com que atacar seus filhos, a fim de que pareça que não os ataca por serem católicos, senão por causa de algo muito separado e alheio a este seu caráter essencial. Quase todas as heresias inventaram um mote com que apostrofar os católicos, dando a entender que os combatiam não pelo ser católico, mas por outro conceito que, com aquele mote ou apelido, pretendiam expressar. No entanto, ocorreu a casualidade de o mote escolhido ser sempre uma como revelação inconsciente e involuntária de algo glorioso para os motejados. Geralmente, basta a história consigná-lo para que se decida com toda retidão o processo entre motejados e motejadores. Assim, dando-se uma vista d’olhos somente sobre os últimos séculos, creram os anglicanos afligir Flandres, apelidando de papistas os que recusaram o escandaloso cisma de Henrique VIII. E vede, senhores, se era caso de se envergonharem desta injuria aqueles esforçados ingleses que tão generosamente sabiam dar a vida por guardar inviolável fidelidade à Santa Sé. Posteriormente, jansenistas, galicanos e regalistas, que se podem incluir no denominador comum de vanguardas mais ou menos liberais do atual Liberalismo, inventaram na França o apelido de ultramontanos, para designar os fiéis d’além Pirineus e Apeninos, i. é, os espanhóis e italianos, mais adversos que qualquer outra nação às tendências inovadoras da astuta seita. E mesmo hoje não se perseguem os católicos da França por serem católicos - já se guardou bem o diabo, que é mau, mas não tonto, de cair em tal erro! – não se perseguem por serem católicos, mas clericais, como na notória frase ou grito de guerra: “O clericalismo é o inimigo”. É o que acontece, na hora presente, na Espanha – louvado seja Deus. Atacar por católica a hoste que mais deseja distinguir-se no zelo e no ardor da defesa do catolicismo, impugnar por católicas seus projetos e publicações, que apenas no ardente catolicismo desejam inspirar-se; por católicos combater sanhosa e rancorosamente homens que com outro mote não querem distinguir-se, nem outra divisa admitem em sua bandeira, senão a do puro e limpo Catolicismo, oh!, seria candidez infantil ou desusada franqueza, faltas em que nunca cairão nossos hábeis impugnadores. Não senhor, nada disso: não impugnam ou denigrem nosso catolicismo; se fosse por isso, ao menos nos respeitariam por consideração, como dizem eles, aos chamados invioláveis foros da consciência humana. Ferozmente nos denigrem e sem trégua combatem nosso integrismo. Convieram todos – não poucos anti-católicos – que o catolicismo é algo muito sério e respeitável, ou ao menos muito tolerável. Porém, no que convêm igualmente a todos, anti-católicos e católicos “moderados”, são os integristas maus e perversos. Dir-se-ia que agora é a hora de levantar na Espanha, como bandeira de defesa social, lema análogo ao que levantou em seus dias a França de Gambetta: “O Integrismo, sim, o Integrismo é o inimigo”.
Está bem, senhores; podemos considerar-nos muito honrados de que, desta feita, se nos marquem com desprezo e execração em face do público. Entretanto, isto mesmo nos dá o direito a que, recolhendo o glorioso insulto e analisando-o a sangue frio, concluamos, não convencendo a nós mesmos, pois que pela misericórdia de Deus já estamos convencidos, senão para convencer a nossos contrários que, realmente, para nós é este o primeiro brasão e título de glória.
Vejamos. Parecerá a um de nossos desditados adversários uma blasfêmia que lhes digamos que o primeiro integrista é Deus Nosso Senhor. Contudo, assim o chamamos, e isso nos ensina a filosofia e a teologia cristãs. Em Deus se encontra a inteira plenitude do ser e a suma perfeição. A integridade essencial de seus soberanos atributos não é prejudicada por deficiência alguma, nem a restringe classe alguma de limitação. Como dizemos que é Deus o ser puro e absoluto, sem nenhuma mescla de não-ser, assim podemos afirmar que é a Divina Essência o integrismo puro na mais alta, filosófica e transcendental significação. Em Deus, não há mais que infinito e eterno amor ao bem e, por outro lado, infinito e eterno ódio ao mal; ódio e amor que se identificam em só um atributo seu, a soberana e eterna justiça. E de tal sorte ama Deus o bem e odeia o mal, que não pode de maneira alguma deixar de ter este ódio e aquele amor, ou tê-los pouco firmes ou atenuados. Não, senão que sua própria Essência Divina ou força, por assim dizer, está infinitamente amando o amável e odiando o odiável, a tal ponto que deixaria de ser Deus se deixassem de existir Nele esse integrismo de amor ao bem e de ódio ao mal. Neste sentido, soa a palavra integrismo como expressão do absolutamente perfeito. Bem podemos assegurar que, quando com divino chamamento nos convida o divino Redentor a imitar, no compatível com nossa fraca natureza, a própria perfeição do Pai celestial, naquele Estote perfectus sicut et Pater vester coelestis perfectus est, convida-nos nada mais para a bondade e perfeição integristas. Se precisasse eu apoiar esta interpretação com o comentário autorizado de algum distinto Doutor da Igreja, tomaria como de suma autoridade o do insigne irmão de nosso glorioso Apóstolo da Espanha, que nos encarrega em sua Canônica ut sitis perfecti et integri um nullo deficientes, que sejamos “íntegros e perfeitos sem faltar em coisa alguma”. E poderíamos trazer à colação aquele outro texto de São Paulo a Tito, em que lhe diz: “que mostre a todos como exemplo de boas obras em doutrina, integridade e em sobriedade”. Te ipsum præbe exemplim bonorum perum in doctrina, in integritate, in gravitate. As idéias de integridade e de santidade são, não análogas, mas perfeitamente idênticas. O Dicionário da Academia define a santidade: integridade de vida. Sim, como dissemos, o integrista por essência é Nosso Senhor; são depois Dele os Santos os grandes integristas do gênero humano, e à frente deles a Rainha gloriosíssima de todos, Maria Mãe de Deus. É esta imaculada integridade a que mais de perto e com mais vivos resplendores reflete a da Trindade Beatíssima e a da Humanidade de seu Santíssimo Filho, integridade admirável, integridade incomparável, integridade sobre a qual de algum modo poderíamos dizer com o poeta:
Muestra de lo que el hombre ser podía,
Muestra de lo que fue sin el pecado.
Acaso a nossa primitiva natureza, ainda não manchada pela culpa original, não a chamam os teólogos natureza íntegra? Vejam, pois, os adversários do integrismo a que idéias ou conceitos se poderia crer que se opõem, quando aparentam fazer tanto asco - e talvez até horror – a esta palavra, com a qual os infelizes acreditam que nos rebaixam.
Mas assentemos, senhores, este assunto no mero terreno do bom senso natural, que é onde mais facilmente se confunde certa classe de inimigos. Esse abominável integrismo que sempre nos é lançado em rosto como crime ou idéia sectária, contra a qual são muito merecidos todos os anátemas, aplicado a ordem de idéias distinta das que constituem o direito público cristão (eis tão-somente o que aterroriza nossos inimigos), parece-lhes coisa bastante digna e honrosa, e até indispensável. Vejamos disso exemplos que temos vivos e palpitantes.
És comerciante, meu amigo, e crês que deve proceder em todos os negócios com a mais primorosa retidão e boa-fé. Não te permites nisso transação alguma com a consciência, nem a toleras com teus gerentes e subordinados. Levas a rigidez até o escrúpulo, e em teus livros, como em tua correspondência e trato verbal, indigna-te ante a idéia de que possas encontrar mancha que obscureça tua limpa fama de distinto cavalheiro. Dize-me agora, sabes o que és com essas estreitas idéias de escrupulosa consciência mercantil? Pois sabe-o, ainda que te assombre. És um integrista. O que professas e praticas é simplesmente o integrismo comercial. Administras cargos públicos, és por exemplo prefeito de tua cidade ou vila; desempenhas o elevado ministério de desembargador ou, simplesmente, o mais modesto de juiz de paz. E tão alta idéia tens destes ofícios (realmente muito altos na república cristã), que te esmeras e andas solícito dia e noite pelo mais exato cumprimento deles, e “no torcéis derecho ni lleváis cohecho” [não torces a lei nem recebes suborno], como diz a antiga frase castelhana, mas vês como sagrados os interesses de teus administrados – cada um deles e seus bens – e honra um depósito de que se te pedirá conta gravíssima diante de Deus. Portanto, nem te ocorre que possa ser lícita a defraudação deste por tua culpa, nem que deixe de ser-te imputável mesmo a menor negligência ou tibieza em atender a sua defesa. Assim realizas em ti o exemplo belíssimo do bom funcionário público, pai de teus subordinados, e viva imagem sobre a terra da justiça e da Providência de Deus. Chamar-te-ão, pois, de boca cheia, um bom prefeito, um probo magistrado, um reto juiz. Sabes, porém, o que serás na realidade? Serás não mais que um habilidoso integrista. Professas e praticas muito nobremente o integrismo administrativo e judicial.
Há poucas carreiras tão nobres e distintas como a militar. O cidadão que por defender sua pátria ou suas leis se faz, por profissão da disciplina, escravo dos mais austeros deveres, jura perder, antes que faltar a eles, não apenas a própria liberdade, que a ela já renunciou desde o princípio para fazer-se servo da autoridade, mas o sossego de toda sua existência, os afagos e afetos mais santos da família, a própria saúde, e até a vida. Dessa maneira vê-se impávido encarar os maiores perigos, endurecer nas mais rudes fadigas, impor-se, como ordinária e usual, a prática dos maiores sacrifícios. Vive por sua bandeira e por ela morre. Este homem, a quem todo o mundo chamará um bom soldado, outros saudá-lo-ão como um herói da história; ao fim, o que terá sido ele? Ah! Simplesmente um integrista, um fanático sectário do que poderíamos chamar o integrismo da consciência e da honra militar.
Sagradas são as leis da sociedade conjugal e doméstica. Deus e a Igreja exigem nela moral muito estreita, muita mais estreita da que costuma autorizar o mundo, que por desgraça é nisso, como em tudo, um bem suspeito moralista. Está vós conformes a tais idéias, guarda e exige que se guardem a honra e o decoro de teu lar com o inviolável respeito de um santuário. Não só zela pelo que poderíamos chamar a ordem material de tua casa e família, mas também pelo próprio prestígio moral te impõe e aos teus toda classe de recatos e privações. O bom nome de tua esposa, a limpa auréola de inocência de tuas filhas, a irrepreensível reputação de teus filhos, te são como prendas que por nada deste mundo permitirás ver comprometidas. A todos te exporás, a todos te resignarás, a fim de evitar que se manche a honra de teu sobrenome; evitar não só uma grosseira acusação, mas até a murmuração ou a mais velada reticência. Agora bem, sabes o que és com isso? Pois não passas de ser perfeito integrista, zelador intransigente do integrismo de teu lar.
Saiamos, senhores, da esfera das idéias gerais em que até agora temos posto a questão, e detenhamo-nos em termos concretos, de acordo com o ponto de vista especialíssimo em que a põem nossos impugnadores. Não são adversários, nem podem sê-lo, do integrismo essencial e absoluto, que é o ser de Deus. Nem são do integrismo participado e relativo, que constituem as virtudes e a perfeição de seus Santos. Nem tem asco do integrismo comercial, nem desprezam o integrismo da magistratura, nem chamam de absurdo o integrismo da disciplina militar, nem mesmo difamam e escarnecem o simples e usual integrismo dos honrados esposos e pais de família. Antes bem, se se encontra qualquer deles em alguma dessas últimas categorias, com grande louvor tem de ser qualificado como perfeito e nobre integrista. Nossos adversários acham tudo isso muito bom e ajustado à razão e conforme à lógica. Todos esses integrismos lhes parecem feitos de pérolas. Oh assombro! Somente reservam as iras e santa indignação e horrendos anátemas contra outro integrismo, que é precisamente o fundamental e sem o qual vivem desprotegidos, ou melhor, caem miseravelmente derrubados por falta de base todos os demais integrismos do qual tratamos até agora. Sim, senhores, o integrismo que eles aborrecem e continuamente insultam é o integrismo dos direitos sociais de Cristo-Deus, o integrismo de sua soberania divina sobre os Estados como sobre os indivíduos. Pregar esse integrismo, defendê-lo em toda crise e propagá-lo por todos os meios é o nosso pecado, disso se faz denúncia contra nós o tempo todo, e andam pedindo rigorosa sentença. Dir-se-ia que Cristo-Deus e seu Evangelho têm menos direito ao respeito na integridade de seus foros divinos que as leis do mercado ou da Bolsa, ou as do Código ou da Ordenança, ou simplesmente as da mais caseira e familiar honradez natural!
Essa exceção que fazem, contra os direitos integristas da verdade religioso-social, aqueles que, por outra parte, tão conformes se mostram em respeitar os direitos dos demais integrismos acima mencionados, acaba sendo mais injustificada e com certeza mais absurda, se se considera a idéia que há pouco só apontamos e que agora nos permitiremos desenvolver com maior amplitude. Dissemos que o integrismo dos direitos sociais de Deus e sua santa Igreja é o que poderíamos chamar integrismo fundamental. Este é base, alma e vida de todos os outros integrismos subordinados, e que sem ele não têm razão de ser. É, portanto, ridículo e ilógico sustentar qualquer integridade pública ou privada nas relações dos cidadãos entre si, se antes não se deixa bem assentada como princípio absoluto a integridade dos direitos da lei de Deus e de sua Igreja, apelidada hoje em dia pela escola liberal e transacionista com o nome de Integrismo. Sim, diga-se o que se queira e discorra-se por onde mais agrada, o eterno, o incontestável, o fundamental na sã filosofia, será sempre a verdade de que todos os direitos humanos, por respeitáveis que sejam, derivam do reconhecimento de um supremo direito divino. Se não há Deus, ou se não tenho eu o dever de reconhecer e acatar em toda a extensão a autoridade de Deus, tampouco há homem algum que possa exercer sobre mim alguma classe de autoridade ou em quem deva eu reconhecê-la. E se esta autoridade de Deus pode ser barganhada pela criatura humana, ou mutilada em obséquio a interesses humanos e passageiras conveniências, ou desatendida no que não se acomode ao critério ou inclinação particular de cada qual, não vejo certamente razão alguma para que meu livre-arbítrio não aplique igual barganha às demais autoridades de ordem inferior. Não, não vejo razão alguma pela qual tenham de ser mais intransigentes e intolerantes comigo os direitos do integrismo comercial, chamado Código Comercial, ou do integrismo judicial, chamado lei processual, ou do integrismo militar, chamado lei Militar, ou do integrismo doméstico, chamado fidelidade conjugal. Assim, pois, os anti-integristas na ordem dos direitos sociais de Deus não podem em boa lógica serem integristas no terreno dos direitos sociais do homem. Ou se renuncia os integrismos humanos e subordinados, ou se deve reconhecer como bom aqueloutro integrismo fundamental e divino. Para sair-se deste dilema não há escapatória, senão a inconseqüência. Não creio que aceitem nossos adversários como boa esta retirada, porque a inconseqüência, aceita e reconhecida como tal, não é mais que a perda do último resto de pudor na controvérsia.
Hoje, mais do que nunca, são de grande interesse estas considerações, porque hoje, mais do que nunca, tende a Revolução ao radicalismo, e portanto ao radicalismo deve tender também a reação anti-revolucionária. O egoísmo, a covardia, o amor às conveniências pessoais procuram, quanto é possível, favorecer e prolongar o reinado dos termos médios, que é o que, como em todo período de transição, prevaleceu durante os últimos cem anos. Este tipo de interinidade acabará, senhores, e bendigamos a Deus e peçamos-lhe que acabe o quanto antes. Chegamos já ao princípio do fim, e logo será preciso aceitar do Liberalismo até as mais duras conseqüências. A última palavra do Liberalismo europeu é muitíssimo chocante e de crueza sem par. Chama-se Nihilismo. Olhai bem. Não se trata mais de cercear os direitos de Deus em favor da falsa emancipação do homem; nem se trata somente de que fiquem mais ou menos compensados estes direitos absolutos da soberania divina pela soberania dos erroneamente chamados direitos do homem. Nada disso; aborda-se o problema de frente, e se diz: Nada de Deus como esperança para a outra vida e freio da presente. Nada! Esta palavra é breve, mas compendiosa, e vale por cem textos. É a tábua rasa do Liberalismo, e é a negação, epílogo e conseqüência definitiva, espantosa sim, porém lógica e racional, das suas precedentes negações. Isto é, senhores, o Nihilismo. Agora bem, a esta negação absoluta, o que se pode opor melhor que uma afirmação absoluta? Ao nada audaz da Revolução, que outra resposta decisiva pode dar-se que não seja o todo da restauração cristã. Por que não se permite dizer assim: em tudo, os direitos de Deus. Em tudo, todos os direitos de Deus. Em tudo, todos os direitos de Deus, com todas as suas aplicações e todas as suas conseqüências? Mais claramente. Se a Revolução hoje se proclama e é já o Nihilismo, qual deve ser a verdadeira contra-revolução, senão o Integrismo?
Admiro-me, em verdade, de que todo o mundo não veja desta maneira, e de que sejam tantos os insignes talentos e corações que devemos supor bem intencionados, mas cegados e seduzidos, como por desgraça vemos tão constantemente, pelos falsos atrativos do já velho, gastado e desacreditado moderantismo. Forçoso será que, sem embargo, despertem um dia de seu sono tais bem-aventurados mortais, cegos de conveniência e surdos de vontade, pois fingem não ver nem ouvir o que tão claro aparece no horizonte social, e o que marca tão fixos e seguros rumos à propaganda católica de nossos dias. Ah! Senhores, abramos de uma vez os olhos ao resplendor da incendiária teia que o inferno prepara para iluminar-nos; prestemos atenção ao não já distante, mas muito iminente rugir do furacão que ameaça envolver-nos, e que ao menos esse bem nos revele enfim a perversidade revolucionária, i. é, deixe-nos de sobreaviso, receosos e advertidos.
Por isso, mais funestos que a Revolução, e mais criminosos que os próprios revolucionários, quando tratam de agir, são os católicos que, ante a gravidade da crise social, jamais vista nos séculos passados, rechaçam como exagerados os movimentos de alarma e os procedimentos de defesa do radicalismo católico, i. é, do integrismo, o qual os infelizes qualificam como tão perturbador quanto o radicalismo da demagogia. Ah! Nossos inimigos desta vez acertaram a palavra, temos de fazer justiça ao seu feliz invento e à exata propriedade de seu dicionário. Sim, é verdade; somos perturbadores, e perturbador, inquieto e demasiadamente irritante é o nosso integrismo. Perturbador da falsa paz que desejam como suprema ventura os filhos do século, dos malfadados ócios da carne e sangue que repelem, como sempre repeliram, as asperezas do combate cristão; de consciências dormidas, de corações letárgicos, de energias amolecidas, como são perturbadores do descuidado transeunte ou do apático enfermo o grito saudável do amigo, que lhe adverte a proximidade do abismo, ou o cautério ou purgante que lhe abrasa a pele para despertar-lhe a sensibilidade e devolver-lhe a vida. Bem faz em chamar-nos desta maneira o católico moderado, porém, talvez não percebe o serviço que presta à fera revolucionária, da qual se converte no melhor aliado e auxiliar. Porque, na realidade, parece aliado do ladrão o que, vendo-o forçar a porta, não se põe a gritar: “Fogo! Fogo!”, para não perturbar com seus clamores a paz da vizinhança.
Ah, senhores, arde a casa nos quatro cantos, e não se quer que gritemos, nem sequer toquemos o aviso de alarme? A tudo invade e assola a feroz irrupção da novas hordas bérberes, e se pretende que é melhor fingir-se de cego, a fim de que com a alarma não se turbe a bem-aventurada paz dos sonâmbulos? Chame-se a isso de prudência, moderação, desejo de evitar um mal maior: na linguagem do bom senso dos povos, outro nome não se deu que não fosse traição ou covardia.
Nem traidores da santa bandeira dos íntegros direitos sociais de Deus, nem covardes em sua defesa, quereis ser vós, amigos meus e fervorosos sócios desta religiosa Academia. Em nossa nação, mais que em qualquer outra parte, lançou profundas raízes o Integrismo; na Espanha, menos que em qualquer outra nação, conhecem-se a deslealdade e a covardia. Atualmente, há apóstolos com este ideal bendito em todas as nações do globo, onde com a mesma ou parecida alcunha são motejados pela Revolução e por outros complacentes com ela. Há-os em França, Suíça, Bélgica, Alemanha, Áustria, Itália e Inglaterra; há em nossas irmãs, as repúblicas do continente americano, à frente das quais fez balançar esta bandeira o Equador, tinta em sangue de García Moreno, que morreu por ela. Mas crede: se em nenhuma destas nações ficasse sequer um soldado para a soberania íntegra de Cristo Nosso Senhor, ficariam muitos ainda nesta sua fiel Espanha, onde, com esplendor maior do que em qualquer nação, reinou nos séculos passados, e onde com a maior das venerações, sem símiles no globo, prometeu voltar a reinar. E se um dia, por nossos pecados, nesta privilegiada terra, a malfadada corrente liberal ou traidora avassalasse completamente o espírito católico integral, não duvideis, a morte do integrismo católico em Espanha seria a de nossa vigorosa nacionalidade, e o último espanhol digno deste nome seria... o último integrista.
R.P. Félix Sarda y Salvany
(Conferência na Academia Católica de Sabadell, publicada na Revista “Propaganda Católica”, Tomo XI, ano 1910, ed. Librería y Tipografía Católica, Barcelona)
Retirado do site Stat Veritas
Tradução: Permanência
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Do Silêncio dos Pastores...
São Gregório Magno
"O Pastor deve saber guardar silêncio com discrição e falar com oportunidade, de modo que nem diga o que deve calar, nem cale o que deve dizer. Porque assim como a palavra indiscreta leva ao erro, também o silêncio imprudente confirma no erro os que deviam ser ensinados. Muitas vezes os pastores incompetentes, pelo temor de perder a estima dos homens, não se atrevem a dizer livremente a verdade; e deste modo, segundo a palavra da Verdade, não atendem à guarda do rebanho com o zelo de verdadeiros pastores, mas comportam-se como mercenários: fogem ao vir o lobo, refugiando-se no silêncio.
Por isso o Senhor os repreende por meio do Profeta: são cães mudos, incapazes de ladrar. E insiste noutro lugar: Não acudistes às brechas nem reconstruístes a muralha em defesa da Casa de Israel, para que pudesse resistir no combate no dia do Senhor. Acudir às brechas é opor-se aos poderes deste mundo, falando com inteira liberdade em defesa da grei. Resistir no combate no dia do Senhor é lutar por amor da justiça contra os ataques da iniquidade.
Dizer de um pastor que teve medo de dizer a verdade, que é senão dizer que voltou as costas ao inimigo com o seu silêncio? Mas se ele vai em defesa do rebanho, é como se levantasse a muralha da Casa de Israel contra os seus inimigos..."
(Da Regra Pastoral de S. Gregório Magno, Papa: séc. VI).
sábado, 1 de novembro de 2008
O CONCÍLIO VATICANO II E A TEOLOGIA DE JOÃO PAULO II (2)
As três vias e as três conversões - Reginald Garrigou Lagrange
Nota: Clique aqui para ler o primeiro texto.
Capítulo V
Características de cada fase da vida espiritual
A fase dos avançados
A mentalidade dos avançados deve ser descrita como a precedente, insistindo-se principalmente no conhecimento e no amor que eles têm a Deus. Com o conhecimento de si mesmos, desenvolve-se um conhecimento quase experimental de Deus, não mais somente no espelho das coisas sensíveis da natureza ou das parábolas, mas no espelho dos mistérios da salvação, com os quais eles vão se familiarizando cada vez mais, e que o Rosário, escola de contemplação, todos os dias põe diante dos olhos deles. Não é mais no espelho do céu estrelado, do mar ou das montanhas que eles contemplam a grandeza de Deus, não é somente no espelho das parábolas do Bom Pastor ou do Filho Pródigo, mas sim no espelho incomparavelmente superior dos mistérios da Encarnação e da Redenção (1). Segundo a terminologia de Dionisio conservada por Santo Tomás (2), a alma se eleva, por um movimento em espiral, dos mistérios da Encarnação ou Infância de Cristo, aos de sua Paixão, Ressurreição, Ascenção e Glória, e nestes mistérios ela contempla a irradiação da soberana bondade de Deus, que assim admiravelmente comunica-se a nós. Nesta contemplação mais ou menos frequente, os avançados recebem, segundo sua fidelidade e generosidade, uma abundância de luz, pelo dom da sabedoria, que os faz penetrar nestes mistérios cada vez mais, ensejando que sintam a beleza deles, tão alta e tão simples, acessível aos humildes que têm um coração puro.
Na fase precedente, o Senhor havia conquistado a sensibilidade deles; agora Ele submete profundamente sua inteligência, elevando-a acima das preocupações excessivas e das complicações de uma ciência demasiadamente humana. Ele as simpliílca. espiritualizando-as.
Em consequência e muito normalmente, estes avançados, assim esclarecidos sobre os mistérios da vida de Cristo, amam a Deus, não somente fugindo do pecado mortal e do pecado venial deliberado, mas imitando as virtudes de Nosso Senhor, sua humildade, sua doçura, sua paciência, observando não apenas os preceitos essenciais a todos, mas também os conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência, ou pelo menos o espírito destes conselhos, evitando as imperfeições.
Como acontece na fase precedente, esta generosidade é recompensada, não mais por consolações sensíveis, mas por uma maior abundância maior de luz na contemplação e no apostolado, por vivos desejos da glória de Deus e da salvação das almas, por maior facilidade em rezar. Não é raro que haja aqui a oração de quietude, quando a vontade em algum momento é cativada pela atração de Deus. Neste período surge também grande facilidade para agir a serviço de Deus, para ensinar, dirigir obras, organizá-las, etc. Isto é amar a Deus, não apenas de todo coração, mas «de toda alma», em todas atividades, mas não ainda «com todas as forças» nem «com o todo o espírito», pois a alma ainda não está firmada naquela região superior que se chama espírito.
Então, o que acontece geralmente? Sucede algo semelhante ao que aconteceu aos principiantes, recompensados com consolações sensíveis; percebe-se que a alma começa a se acomodar, por um orgulho inconsciente, nesta grande facilidade de rezar ou de agir, de ensinar, de pregar. A pessoa tende a esquecer-se que estes são dons de Deus e a gozar deles com espírito próprio, que absolutamente não convém a um adorador em espírito e em verdade. Não há dúvida que ela trabalha pelo Senhor e pelas almas, mas sem esquecero bastante de si mesma; pela busca inconsciente de si e pela pressa natural, ela se manifesta esquecendo a presença de Deus; talvez creia que pôssa trazer muitos frutos, o que não é certo. A alma se torna largamente confiante de si mesma, dá-se demasiada importância, exagera talvez os próprios talentos, esquece a própria miséria, enquanto nota mais a dos outros; a pureza de intenção, o verdadeiro recolhimento, e a perfeita retidão muitas vezes fazem falta; ainda há ilusão na vida desta alma, como diz Tauler: «o fundo desta alma não é verdadeirarnente de Deus» ao qual oferece apenas a metade da atenção devida, São João da Cruz (Noite Obscura L.II., cap. 2) notou estes defeitos dos avançados, como aparecem nos puros contemplativos, que «escutam a própria fantasia, pensando nelas encontrar conversas com Deus e com os santos», ou que são seduzidos pelas ilusões do malignos. Defeitos não menos dignos de consideração, assinalados por Santo Afonso, por exemplo, encontram-se também nos homens de apostolado encarregados de almas. Estes defeitos dos avançados aparecem principalmente nas contradições que sofrem, nos grandes conflitos de opinião, quando às vezes, mesmo nesta fase da via espiritual, algumas vocações se perdem. Torna-se então claro que não se observa convenientemente a presença de Deus e que procurando-O, a alma ainda procura bastante a si mesma. Daí a necessidade de uma terceira purificação do espírito, bem forte, a fim de limpar até o fundo as faculdades superiores.
Sem esta terceira conversão, ninguém poderá entrar na via de união que é a fase adulta da via espiritual.
Esta nova crise foi descrita por São João da Cruz (Noite Obscura L. II., caps. 3 e seguintes), em toda sua agudeza e profundidade, tal como dá nos grandes contemplativos que, habitualmente, sofrem não para serem purificados mas também pelas almas pelas quais ofereceram a Deus. Esta provação se encontra de modo um pouco diferente nos homens de apostolado, muito generosos, que muitas vezes chegam a uma alta perfeição. Esta provação, porém, é frequentemente menos visível neles porque fica misturada aos grandes sofrimentos do apostolado.
Em que consiste essencialmente esta crise? A alma se sente então como despojada. não apenas das consolações sensíveis, mas também das luzes que havia recebido sobre os mistérios da salvação, de seus ardentes desejos, daquela facilidade de agir, de ensinar, de pregar, em que se comprazia por um secreto orgulho, considerando-se superior aos outros. É este o tempo de uma grande aridez, não apenas sensível mas espiritual, durante a oração e o ofício divino. Não é raro que surjam fortes tentações, não mais especialmente contra a castidade e a paciência, mas contra as virtudes da parte mais elevada da alma, contra a fé, a esperança e a caridade para com o próximo, e até mesmo contra a caridade para com Deus, que lhes parece cruel por assim provar as almas num tal cadinho. Nesta fase da vida sobrevêm grandes dificuldades no apostolado: calúnias, obstáculos, fracassos. Com frequência, acontece também que o apóstolo sofra calúnias e ingratidão de almas que beneficiou durante longo tempo; isto deve conduzi-lo a amá-las ainda mais, somente por Deus e nEle. Esta crise ou purificação passiva do espírito é, assim, comparável a uma morte mística, à morte do velho homem segundo as palavras de São Paulo: «nosso velho homem foi crucificado com Jesus Cristo, para que o corpo do pecado fosse destruído» (Rom.6,6), É necessário «despojar-vos do velho homem corrompido por cobiças enganadoras, e vos renovar em vosso espírito e vossos pensamentos, revestindo-vos do novo homem criado por Deus na justiça e na santidade da verdade» (Ef. 4 22).
Tudo isso é coerente e se situa na lógica do desenvolvimento da vida sobrenatural. «Algumas vezes, diz São João da Cruz, nas dificuldades da purificação a alma se sente ferida e acabrunhada por um forte amor. Trata-se de um ardor que se acende no espírito, quando a alma sobrecarregada de penas é vivissimamente inflamada pelo amor divino». O fogo do amor de Deus é igual ao que progressivamente desseca a madeira, a penetra, a inflama e a transforma em si mesmo (3). As provações deste período são permitidas por Deus para conduzir os avançados a uma fé mais elevada, a uma esperança mais firme, a um amor mais puro; pois é absolutamente necessário que o fundo da alma seja de Deus e apenas para Ele. Compreende-se então o sentido das palavras da Escritura: «O Senhor prova os justos como o ouro no cadinho e os recebe como uma hóstia de holocausto» (Sb.3, 6). «Os justos clamam ao Senhor e Ele os escuta; livra-os de todas as suas angústias. Deus está perto daqueles que têm o coração aflito... São frequentes as atribulações dos justos, mas o Senhor os liberta» (SI. 30, 18-23).
Esta crise, como a precedente, não acontece sem perigo; ela pede uma grande magnanimidade, vigilância, uma fé muitas vezes heróica, urna esperança contra toda esperança que, de fato, se transforma em perfeito abandono. Pela terceira vez o Senhor trabalha a alma, porém agora mais profundamente, de tal modo que a alma parece desorientada por causa destas aflições espirituais, de que frequentemente falaram os Profetas, em particular Jeremias, no capítulo 3 das Lamentações.
Aquele que atravessa esta crise realmente ama a Deus não apenas de todo o seu coração e de toda sua alma mas, conforme a gradação da Escritura (Deut.6. 5; Luc. 10,27), com todas as suas forças, e está pronto a amá-Lo «com todo o seu espírito» e a se tornar «um adorador em espírito e em verdade», de certo modo fixado naquela parte superior da alma que tudo deve dirigir em nós.
Extraído do livro, "As três vias e as três conversões", Reginald Garrigou Lagrange, Editora Permanência
Notas:
1) Ocasionalmenle, o avançado contempla também a bondade divina na natureza e nas parábolas evangélicas, mas isto não é próprio de seu estado, agora ele está familiarizado com os mistérios da salvação. Mas nem por isso ele atinge, senão raramente e de modo fugaz, o movimento circular ou a contemplação dos perfeitos, que se detêm na bondade divina por ela mesma.
2)ll-Ilaeq.180a.6.
3) O progresso do conhecimento e do amor a Deus que caracteriza a purificação, é que a distingue dos sofrimentos que, sob certos aspectos, a ele se parecem, por exemplo, os da neurastenia. Estes últimos, porém, nada têm de purificador, mesmo que possam ser suportados por amor a Deus e em espírito de abandono. Do mesmo modo, os sofrimentos que nos vêm como consequência de nossa falta de virtude, de uma sensibilidade não disciplinada e exasperada, também não são purificadores por si mesmos, apesar de também poderem ser aceitos como uma humilhação salutar, consequência de nossas faltas e para reparação delas.
Postagens populares
-
A filosofia na Idade Média – Etienne Gilson A Maçonaria Invisível – Ricardo de La Cierva A Nova Teologia - Sim Sim Não Não A ...
-
Capítulo V Características de cada fase da vida espiritual "Justum deduxit Dominus per vias rectas O Senhor conduz o justo por caminhos...
-
Atenção Informamos que a Missa no Colégio Arnaldo (infelizmente), encontra-se suspensa. As Missas Tridentinas, continuam sendo celebradas em...
-
A cruz vermelha simboliza o amor por Cristo até o martírio. Mesmo símbolo utilizado pelos Cavaleiros nas Cruzadas. As letras que est...
-
Por Apostolado São Pio V Eis alguns livros litúrgicos disponíveis para download em formato PDF, extremamente úteis para a preparação da S...
-
Renato Salles 1 INTRODUÇÃO Uma das questões que mais intriga o homem é sobre o problema do mal, pois este vai exatamente contra aquilo que ...
-
BULA PAPAL DE CLEMENTE XII SOBRE A MAÇONARIA CLEMENTE, bispo, servo dos servos de Deus a todos os fiéis, Saudações e Bênçãos Apostól...
-
VIVA NOSSA SENHORA!!!! CONSAGRAI A RÚSSIA AO SAGRADO CORAÇÃO DE MARIA! PADROEIRA DO BRASIL PARA SEMPRE!
-
O Sillon “O Sillon serve de comboio ao socialismo, tendo os olhos fixos numa quimera.” Pio X (25 de agosto de 1910) O modernismo...
Especiais
- A Religião do Concílio Vaticano II - Cadernos Montfort
- As 62 razões: Famoso folheto com 62 razões para não assistir à Missa Nova - FSSPX
- CEM ANOS DEPOIS - Luzes da encíclica “Pascendi” para os católicos de hoje, ou, "Pascendi explicada - FSSPX
- DE RATIONIBUS FIDEI - Santo Tomás de Aquino - Blog do Pe Elilio
- Dossiê Liturgia uma babel programada - Montfort
- Ecumenismo e “Liberdade Religiosa”: algo “novo” em luta com o “antigo”
- Jean Duns Scoto (1266-1308) - Montfort
- Monsenhor Lefebvre e a Sé Romana - Cadernos Montfort
- Santo Atanásio e a crise da fé no Século IV - Mosteiro de Santa Cruz
- Sermão da Missa de inauguração da capela Santa Maria das Vitórias - Pe João Batista - Associação Civil Santa Maria das Vitórias
- Sinopse dos erros imputados ao Vaticano II - Mosteiro de Santa Cruz
- Veja aqui o Dossiê sobre o Motu Proprio de Bento XVI liberando a missa de São Pio V - Capela